Infectologia

Covid-19: Quase 5 mil pessoas vieram a óbito sem acesso à UTI no Rio de Janeiro

Tempo de leitura: 3 min.

Um estudo do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Icict/Fiocruz) mostra que quase cinco mil cidadãos fluminenses infectados pela Covid-19 vieram a óbito sem conseguir vaga em uma UTI (Unidade de Tratamento Intensivo).

A Nota Técnica do Monitora Covid-19, do Icict/Fiocruz, intitulada “Óbitos em excesso, dentro e fora de hospitais”, revela que do início da pandemia até o dia 11 de novembro mais de 7.588 pessoas vieram a óbito em uma UTI da região metropolitana do Rio de Janeiro. E mais: 4.774 pessoas infectadas pela Covid-19 morreram sem conseguir um leito em UTI.

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Desassistência médica

De acordo com dados da própria Secretaria de Saúde do Rio, somente nos meses de abril a setembro ocorreram 27 mil óbitos acima do esperado — com base em anos anteriores —, sendo 13 mil deles causados diretamente pela Covid-19.

Outras mil pessoas morreram dentro de domicílios, sem assistência médica. Além disso, os dados apontam que, de março a setembro, houve 1,8 mil óbitos além do esperado, classificados como “causas mal definidas”, sem diagnóstico, outro possível indicador de desassistência médica.

“Os dados mostram que, mesmo entre os casos de Covid-19 que foram internados em hospitais, a maior parte dos óbitos ocorreu fora das UTIs. O conjunto destes indicadores aponta fortemente para a incapacidade do sistema municipal de saúde de atender a casos graves da doença. Indicam ainda que podemos estar perto de um novo colapso do sistema, pois os novos casos, que irão gerar maior demanda de atendimento, estão aumentando rapidamente, de forma muito preocupante”, comenta Christovam Barcellos, pesquisador de saúde pública e vice-diretor do Instituto de Comunicação e Informação em Saúde (Icict/Fiocruz).

Segundo ainda com a Nota Técnica do Monitora Covid-19, o quadro de desassistência à saúde na cidade do Rio de Janeiro ultrapassou a cidade de São Paulo nas duas últimas semanas: 500 contra 400 óbitos médios diários.

O Rio de Janeiro vinha registrando uma “ligeira tendência de queda” no número de óbitos, porém de forma irregular, com altas ocasionais a partir de agosto, o que seria sinal da “vulnerabilidade da cidade a novos surtos ou mesmo a retomada dos padrões de transmissão do início do ano”.

Além disso, diversas enfermidades aparecem entre os óbitos em excesso que não foram classificados como Covid-19. São diversas formas de câncer (2,5 mil óbitos), doenças endócrinas nutricionais e metabólicas, entre as quais se incluem as diabetes (mil óbitos) e as enfermidades do aparelho circulatório, infartos e AVCs, principalmente (3,8 mil óbitos).

Todas essas mortes em excesso podem ter sido causadas por falta de atendimento adequado e oportuno, em todos os níveis da rede de saúde, devido ao grande volume de casos de Covid-19 que encheram as unidades de saúde, “disputando” o atendimento com as doenças crônicas.

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Óbitos fora das UTIs

Outro dado importante levantado pelo estudo é o total de óbitos em hospitais fora das UTIs. De acordo com os registros do Sistema de Informação de Vigilância Epidemiológica da Gripe (Sivep-Gripe), apenas 40,5% (5.107) das mortes por Covid-19 registradas em hospitais ocorreram dentro de uma UTI. Outros 27% (3.434 óbitos) morreram fora da UTI e um número surpreendentemente grande, 32,5% (4.065 óbitos), não têm informação se o óbito ocorreu dentro ou fora de uma UTI.

“É muito provável que a maior parte dos casos sem registro de informação de UTI tenha ocorrido fora de uma UTI. Considerando isso, conclui-se que provavelmente mais da metade da população que veio a óbito por Covid-19 no município sequer teve a chance de receber atendimento intensivo”, diz o estudo.

Alerta de colapso no sistema de saúde

 A Fiocruz faz um alerta ainda para a possibilidade de colapso no sistema de saúde nas próximas semanas, diante do novo aumento dos casos de Covid-19 no Brasil.

“Agora imagine com o grande aumento de novos casos de doentes por Covid-19 precisando de atendimento nos hospitais, que já vêm apresentando superlotação de leitos. Podemos estar perto de um novo colapso do sistema de saúde pública do Rio de Janeiro. E mais, sem rastreio de testagem em massa não conseguimos acompanhar os casos para evitar a cadeia de transmissão. Não existe como fazer essa testagem de rastreio sem termos o mínimo para conter esse avanço de casos”, reforça o pesquisador Christovam Barcellos.

*Esse artigo foi revisado pela equipe médica da PEBMED

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Referência bibliográfica:

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Publicado por
Úrsula Neves

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