Covid-19: vacinação em pacientes com doenças onco-hematológicas

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A vacinação para a Covid-19 é uma medida real e fundamental para conter o avanço da pandemia. Ressalta-se que, como ensaios clínicos estão em andamento e há divergências nos critérios de inclusão/exclusão e nos desfechos analisados nesses estudos, conceitos e recomendações estão sendo atualizados periodicamente. A Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH) emitiu uma nota sobre a vacinação contra o novo coronavírus em pacientes com doenças onco-hematológicas.

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Situação atual no Brasil

Até o momento, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) aprovou o uso emergencial de duas vacinas no nosso país: CoronaVac (Butantan) e Oxford (AstraZeneca). Há algumas diferenças no mecanismo de ação e no protocolo de vacinação entre elas:

  • CoronaVac: vacina de vírus inativado, feita em duas doses com intervalo de 14-21 dias. Estudos apontam eficácia acima de 50%;
  • Oxford: vacina com vetor viral não replicante, feita em duas doses com intervalo de até 4-12 semanas. Eficácia varia de 70 a 100% nos estudos.

Nenhum estudo incluiu pacientes com doenças onco-hematológicas na vacinação, o que limita a análise de eficácia e segurança nessa população. Dessa forma, utilizando dados referentes a vacinas para a prevenção de outras infecções, o comitê fez as recomendações, visto que estamos diante de uma pandemia e tais pacientes são afetados direta ou indiretamente.

De acordo com o comunicado, os portadores de doenças hematológicas com mais de 18 anos têm indicação de receber vacina para Covid-19, mesmo aqueles que já tiveram a infecção documentada. Sugere-se que subgrupos específicos tenham prioridade entre os pacientes hematológicos, considerando-se a taxa de morbidade e mortalidade: indivíduos que tenham outros fatores de risco de desenvolver formas graves de Covid-19 (ex.: obesidade, idade avançada, doença de base não controlada) deveriam ser imunizados mais precocemente.

Limitações

Destaca-se que, apesar de não serem contraindicadas nessa população, as vacinas disponíveis no Brasil podem ter menor eficácia em algumas situações, pois se trata de indivíduos imunodeprimidos, seja pela doença de base, seja pelo tratamento instituído. Vale ressaltar que, via de regra, vacinas de vírus atenuado são contraindicadas nos casos de imunodeficiência. Como novas vacinas estão sendo estudadas, deve-se atentar para o mecanismo de desenvolvimento antes de indicá-las para qualquer indivíduo.

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Por conta da imunossupressão secundária ao tratamento, os especialistas recomendam fazer a vacinação o mais longe possível do uso de agentes terapêuticos. Cada caso deve ser avaliado individualmente, levando-se em consideração o risco de infecção pelo novo coronavírus e de progressão da doença de base se o protocolo terapêutico não for seguido rigorosamente. Sugere-se avaliar o adiamento da vacinação nas seguintes situações:

  • Uso recente de anticorpo monoclonal anti-CD20 (rituximabe, obinutuzumabe), anti-CD19 (inotuzumabe), anti-CD22 (blinatumomabe) ou anti-CD52 (alentuzumabe);
  • Uso de imunoglobulina;
  • Uso de globulina anti-timocítica (ATG);
  • Pacientes com leucemias agudas em protocolos iniciais de indução de remissão ou com citopenias (neutrófilos < 500 células/mm³ ou linfopenia < 200 células/mm³);
  • Uso de corticosteroides em altas doses (equivalentes a > 2 mg/kg/dia de prednisona).

Dessa forma, os pacientes com doenças hematológicas devem receber a vacina CoronaVac ou Oxford, com raras exceções. Por ora, não há nenhuma recomendação de ajuste de dose ou intervalo entre as doses.

Outras opções

Em relação às outras vacinas (ex.: influenza, pneumococo), os autores não recomendam a aplicação simultânea no momento do recebimento da vacina contra Covid-19. É fundamental que o cartão de vacinação de pacientes onco-hematológicos esteja atualizado, mas, no momento, deve-se priorizar a prevenção da infecção pelo novo coronavírus.

Outra questão importante é que as outras medidas de prevenção (ex.: distanciamento social, uso de máscaras, higienização frequente das mãos) precisam ser mantidas, visto que a vacina diminui o risco de infecção, porém ainda não é sabido por quanto tempo.

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