Covid-19

“Covid Zero”: políticas mais rigorosas de controle da pandemia pioram a saúde mental da população?

Tempo de leitura: 2 min.

A política de “Covid Zero” recentemente implantada na China para o controle da transmissão do coronavírus impressiona por seu rigor. Cidades altamente populosas, como Xangai, passam por medidas de isolamento extremas, com relatos de dificuldades de acesso a suprimentos e de revoltas e protestos por parte da população. Diferentes tipos de medidas de saúde pública para o enfrentamento à Covid já foram avaliadas com base nas suas capacidades de reduzir a transmissão do vírus e de minimizar danos à economia. Contudo, poucos estudos abordam os impactos que os diferentes graus de rigor dessas medidas podem trazer para a saúde mental das pessoas. Duas hipóteses opostas podem ser levantadas nesse sentido: maiores restrições levam à piora da saúde mental devido à limitação do convívio social; ou maiores restrições melhoram a saúde mental por aliviar o medo de contrair o vírus e por passar uma sensação de que o governo está agindo para o controle da pandemia.

Análise recente

Em estudo publicado em Abril de 2022 na revista The Lancet Public Health, os autores realizaram uma análise longitudinal de dados de 15 países, entre Abril de 2020 e Junho de 2021, comparando o grau de restrição das políticas de enfrentamento à Covid com escores de estresse psicológico e de “avaliação de vida”. Os dados sobre o rigor das políticas foram obtidos através do “Índice de Restrição” da Covid-19 Government Response Tracker criado pela Universidade de Oxford para avaliar as diferentes medidas adotadas por diversos países durante a pandemia. Esse índice leva em conta informações como fechamento de escolas, de transportes públicos e de locais de trabalho, cancelamento de eventos públicos, restrição de encontros sociais e de viagens. Para medir as questões relacionadas à saúde mental, foram utilizadas medidas provenientes de questionários relacionados a sintomas de depressão e ansiedade (PHQ-4) e “avaliação de vida” (escala de 0 a 10, de acordo com a avaliação do participante sobre a própria vida), que geraram 432.642 respostas válidas.

Controlando para variáveis individuais e de contexto, políticas de maior restrição foram associadas a maiores médias de escores de estresse psicológico (IC 95%: 0,005 a 0,023) e a piores avaliações de vida (IC 95%: -0,015 a -0,004). A intensidade da pandemia, traduzida pelo número de mortes por 100.000 habitantes, também foi associada a maior estresse psicológico (IC 95%: 0,008 a 0,025) e pior avaliação de vida (IC 95%: -0,017 a -0,004).

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Esses resultados demonstram a complexidade da tomada de decisão por parte dos governos. O rigor das políticas de enfrentamento é correlacionado a um maior distanciamento social. A imposição de medidas mais duras, por sua vez, correlaciona-se a uma pior avaliação, pelas pessoas, da maneira como a pandemia é conduzida pelo governo. Ambas as características podem ser associadas à piora da saúde mental. Se por um lado, medidas mais restritivas prejudicam esse aspecto, por outro, um menor número de mortes beneficia. Se um maior rigor nas políticas de enfrentamento pode também salvar mais vidas, é necessário buscar um equilíbrio nesse sentido, tendo em vista a importância da saúde mental na qualidade de vida, morbidade e mortalidade da população.

Conclusão

O estudo conclui sugerindo o uso frequente de testagem e de rastreio de contatos, como parte de uma estratégia de eliminação de transmissão do vírus, o que contribui para a redução de mortes sem causar restrições extremas. Também considera que a piora da saúde mental devido ao isolamento social pode estar mais fortemente relacionada especificamente ao impedimento de contatos familiares e significativos, sugerindo maior foco em restrições a viagens, por exemplo, do que a encontros sociais locais. As medidas mais restritivas devem ser, idealmente, aplicadas de maneira estratégica e pontual, de maneira a gerar a melhor relação risco-benefício possível.

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Publicado por
Renato Bergallo

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