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Aspectos laboratoriais da creatinina

Creatinina sérica: como avaliar os aspectos laboratoriais?

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A dosagem da creatinina no sangue é o marcador mais utilizado para a avaliação da função renal no mundo, devido, em grande parte, à sua ampla disponibilidade analítica, ao seu baixo custo, pelo fato de ser produzida a uma taxa relativamente constante e de ser filtrada livremente nos rins. 

Ela pode ser avaliada isoladamente, em conjunto com outros marcadores (ex.: ureia, cistatina C, albuminúria, proteinúria, relação albuminúria/creatinúria), ou como parte integrante de fórmulas matemáticas utilizadas, por exemplo, para a estimativa da taxa de filtração glomerular (eTFG) e de seu clearance renal.

Fisiopatologia da creatinina

À nível muscular, a creatina é convertida em creatina fosfato, um composto essencial ao metabolismo das células musculares. Ao sofrer um processo metabólico de descarboxilação (uma reação espontânea não enzimática que culmina com uma perda de água), é então convertida em creatinina. 

Sua produção é proporcional a massa muscular, ocorrendo de maneira relativamente constante, assim como sua excreção. Na circulação, é encontrada sob a forma livre (não ligada a proteínas plasmáticas), sendo livremente filtrada nos glomérulos. Em condições fisiológicas, a creatinina não é reabsorvida nos túbulos renais, porém, uma pequena fração é excretada nos túbulos proximais. 

Metodologias disponíveis

Os métodos colorimétricos (ex.: Jaffé e suas modificações) e os enzimáticos são os mais comuns para a determinação da creatinina entre os Laboratórios Clínicos, apesar de possuírem limitações. As técnicas derivadas da reação de Jaffé podem produzir resultados diferentes para uma mesma amostra do paciente, enquanto que os ensaios enzimáticos, apesar de serem mais específicos, são influenciados de maneira distinta por diversos interferentes analíticos.   

A técnica “padrão-ouro” da dosagem é a baseada na espectrometria de massas com diluição isotópica, do inglês isothope dillution mass spectometry (ID-MS). Apesar da sua alta acurácia, essa metodologia ainda é restrita a poucos centros de pesquisa, além de ser muito cara e não automatizada.

A fim de auxiliar na padronização das metodologias, tornando-as aptas a fornecer resultados mais precisos, no ano de 2006 foram desenvolvidos calibradores padrões de creatinina, mensurados pelo método “padrão-ouro” (ID-MS). Dessa maneira, esses padrões são utilizados pelos fabricantes para calibrarem seus kits diagnósticos, fazendo com que sejam rastreáveis pelo ID-MS.

Por intermédio de instituições internacionais, como o LWG (Laboratory Working Group) e o NKDEP – NIH (National Kidney Disease Education Program – National Institutes of Health), essa foi a forma encontrada pela academia e indústria diagnóstica, em nível mundial, para se estabelecer uma determinação laboratorial mais confiável.

Recomendações sobre o laudo laboratorial

O laudo da creatinina sérica deve seguir uma série de recomendações sob a chancela de organizações nacionais e internacionais, tornando-o mais completo e objetivo possível. Dentre estas, podemos destacar:

  • O resultado numérico deve ser expresso com duas casas decimais;
  • Observação no laudo se a metodologia utilizada é rastreável ou não pelo ID-MS;
  • Desempenho analítico do método utilizado (CV%, Bias % e Erro Total%);
  • Reportar automaticamente no laudo a eTFG calculada pela fórmula CKD-EPI, (Chronic Kidney Disease Epidemiology Collaboration), com relato de ambos valores para negros e não-negros (norte-americanos). 
  • A fórmula CKD-EPI só deve ser utilizada para adultos (>18 anos) e para métodos calibrados pelo ID-MS;
  • Para métodos não calibrados pelo ID-MS, a fórmula indicada é a MDRD 4v com fator de correção “186”;
  • Gestantes, extremos de massa muscular, indivíduos sob dietas vegetarianas ou com suplementação de creatina não devem utilizar a eTFG;
  • Não se deve relatar resultados de eTFG acima de 90 ml/min/173m2.

Limitações

Infelizmente, a creatinina apresenta algumas importantes limitações em relação ao seu uso para avaliação da função renal. Somente após uma perda de 50% desta função é que seus níveis podem começar a se elevar em um patamar acima dos limites da normalidade.

Apesar de sua produção ser praticamente constante, existe uma substantiva variação individual de sua produção, muito relacionada à massa muscular do indivíduo. Sua secreção tubular proximal também pode se comportar de maneira variável, além de poder ser inibida por uma série de medicamentos (ex.: salicilatos, cimetidina, sulfametoxazol).

Outro ponto a ser destacado é que ela também pode ser derivada de uma dieta a base de carnes, podendo levar a um aumento considerável de seus níveis. Como anteriormente exposto, grande parte das metodologias disponíveis apresenta interferentes e variações analíticas importantes.

Conclusão

A creatinina é uma substância endógena, de síntese hepática, produto da degradação da creatina fosfato e da creatina. Apesar de suas limitações, ela é um bom parâmetro para avaliação da função renal, abrangentemente disponível em Laboratórios Clínicos de qualquer porte.

O uso de métodos rastreáveis pelo ID-MS, assim como o reporte automático da eTFG pela CKD-EPI, são de vital importância para a confiabilidade e aplicabilidade de seus resultados, reproduzindo resultados mais precisos e, dessa forma, clinicamente significantes.

Autor:

Referências Bibliográficas:

  • Brasil. Ministério da Saúde (MS). Diretrizes clínicas para o cuidado ao paciente com doença renal crônica – DRC no Sistema Único de Saúde. Brasília, DF: MS; 2014.
  • Jacobs DS, DeMott WR, Oxley DK. Jacobs & Demott Laboratory Test Handbook with Key Word Index, 5th ed. Hudson, OH: Lexi-Comp, Inc; 2001.
  • Lab Tests Online. Creatinina.
  • McPherson RA, Pincus MR, eds. Henry’s Clinical Diagnosis and Management by Laboratory Methods. 23rd ed. St. Louis, MO: Elsevier; 2017.
  • Kanaan S. Laboratório com interpretações clínicas. 1a ed. Rio de Janeiro: Atheneu; 2019.
  • Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML). Passo a passo para a implantação da estimativa da taxa de filtração glomerular (eTFG). Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN). 2a ed. São Paulo: Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial; 2015.

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