CROI 2021: como funciona a resposta imune contra o SARS-CoV-2?

Tempo de leitura: 3 min.

Uma sessão da Conference on Retroviruses and Opportunistic Infections (CROI) 2021 abordou alguns aspectos das características das respostas imunes contra o SARS-CoV-2, coronavírus causador da Covid-19.

Resposta imune contra o SARS-CoV-2

A glicoproteína S é a proteína mais proeminente na superfície do envelope do SARS-CoV-2, sendo responsável pela ligação do vírus com as células por meio da interação com regiões conhecidas como domínios de ligação do receptor (RBD) com o receptor ECA2 e um potencial para o desenvolvimento de anticorpos.

A proteína S apresenta domínios de ligação do receptor (RBD) que são codificados pelo domínio S1, e que podem estar em diferentes conformações (up ou down). É a porção RBD que é o principal alvo na produção de anticorpos neutralizantes na resposta imune formada contra o SARS-CoV-2.

Estudos iniciais com plasma de doadores mostraram que aproximadamente 1/3 dos participantes apresentava atividade neutralizante baixa ou mesmo considerada não existente. A investigação mostrou que pessoas infectadas produziam anticorpos contra diferentes epítopos da proteína S, estando os anticorpos com afinidade pela porção RBD associados a maior atividade neutralizante encontrada no plasma dos doadores.

Outras análises permitiram a classificação dos diversos anticorpos neutralizantes em quatro classes principais, de acordo com sua capacidade de ligação a RBD em suas diferentes conformações e interação com o receptor ECA2. Além disso, classes diferentes parecem apresentar propriedades diferentes em relação a aspectos como estabilidade da ligação.

Mutações em epítopos da proteína S poderiam afetar a capacidade de ligação dos anticorpos produzidos e, com isso, a eficácia de sua atividade neutralizante. Entretanto, os estudos até o momento mostram que mutações que afetam uma classe tipicamente não afetam as classes de anticorpos neutralizantes. Esse fato tem importância no desenvolvimento de estratégias terapêuticas, sugerindo que o uso de múltiplas classes de anticorpos pode ser mais eficiente do que de anticorpos monoclonais, em especial anticorpos das classes 1 e 3, cujas atividades não se sobrepõem.

Pesquisas com plasma de voluntários que receberam vacinas com tecnologia de mRNA mostraram que a vacina foi capaz de induzir anticorpos monoclonais funcionalmente comparáveis à infecção natural, com predomínio das classes 1 e 2.

Células T

Olhando para o outro braço da imunidade, também foram apresentados trabalhos que envolviam o estudo da resposta celular contra o SARS-CoV-2, com destaque para a resposta de células T específica contra o vírus.

Estudos com pools de epítopos de SARS-CoV-2 realizados com sangue doado de voluntários que se recuperaram de Covid-19 e com sangue de indivíduos não expostos ao SARS-CoV-2 identificaram que células T-CD4 e células T-CD8 reagiram a alguns dos epítopos em 50% e 20% dos indivíduos não expostos, respectivamente.

Estudando somente indivíduos não expostos, as células T foram capazes de reconhecer epítopos não somente da proteína S, mas também de outras porções do vírus. Os epítopos envolvidos apresentam alta homologia com epítopos de outros coronavirus, que são agentes de resfriados comuns. Outras análises sugerem que essas células T-CD4 em indivíduos não expostos, mas que reagem aos epítopos do vírus, são derivados de células de memória de exposições a coronavirus de resfriados comuns.

Entretanto, o significado clínico dessa reação cruzada ainda é desconhecido e os epítopos que são reconhecidos pelas células T também em indivíduos não expostos são somente uma pequena porção dos envolvidos na resposta ao SARS-CoV-2.

Mensagens práticas

  1. A resposta imune natural à infecção por SARS-CoV-2 é policlonal, com classes diferentes apresentando características distintas. A existência de diferentes classes pode ser importante para uma resposta eficiente na presença de mutações.
  2. Estudos sugerem que existe algum grau de resposta celular cruzada entre SARS-CoV-2 e outros coronavírus, mas o significado clínico desse fato em relação à proteção contra infecção ainda é desconhecido, sendo provavelmente pequeno.

Confira outros destaques do CROI 2021:

Autora:

Relacionados