Pebmed

Cadastre-se grátis
Home / Clínica Médica / Curativo com antibióticos é benéfico no tratamento de feridas cutâneas?

Curativo com antibióticos é benéfico no tratamento de feridas cutâneas?

Tempo de leitura: 4 minutos.

Úlceras e feridas cutâneas são um problema comum e desafiador na prática clínica. Muitas vezes dolorosas e de cicatrização difícil, são uma porta de entrada para processos infecciosos e fatores importantes na redução da qualidade de vida dos pacientes.

Diversas abordagens vêm sendo utilizadas ao longo dos anos para promover a cicatrização de feridas, muitas baseadas no uso rotineiro de curativos com substâncias com propriedades antimicrobianas, com o objetivo de erradicar bactérias e fungos presentes na superfície da ferida. Entretanto, alguns estudos sugerem que essa estratégia pode, na verdade, ser prejudicial. É sobre esse tema que versa uma revisão publicada na revista Wounds, a qual aborda também novas tecnologias para tratar esse problema.

Cada vez mais se observa que, em uma pele normal saudável, ocorre um equilíbrio entre a presença de várias espécies de bactérias – o chamado microbioma – e o controle exercido pelo sistema imune. Uma ferida cria uma área rica em umidade, calor e nutrientes em que o equilíbrio do microbioma é alterado de forma súbita, muitas vezes permitindo colonização por outros microrganismos mais virulentos ou expansão de uma única espécie já existente e que passa a ser dominante. Ao mesmo tempo, a produção de toxinas e de enzimas e a produção de biofilme inibem a ação eficaz do sistema imune no local.

Estudos em úlceras crônicas em pacientes diabéticos demonstraram que a presença de um microbioma flutuante estava associada a uma maior probabilidade de cura quando comparado com microbiomas menos variados e menos flutuantes. As feridas em que o microbioma tornou-se estagnado não cicatrizaram. Postula-se que um microbioma flutuante poderia reduzir a probabilidade de um microrganismo específico tornar-se dominante e facilitaria o controle local pelo sistema imune. O mesmo grupo observou que o uso de antimicrobianos desestabilizou o microbioma, mas aparentemente não alterou sua diversidade geral e não levou à cicatrização.

Leia mais: Quiz: quais as consequências dessa ferida profunda?

Apesar de muito utilizados, o uso de curativos com substâncias antissépticas e antimicrobianas não demonstra evidências de benefício na cicatrização de feridas nas meta-análises realizadas, o que foi corroborado pela US Food and Drug Administration (FDA) em 2016. Além disso, outra preocupação é a ação citotóxica dos antissépticos,

Destaca-se que o efeito citotóxico desses agentes foi observado em células humanas in vitro, mesmo em concentrações e tempo de exposição menores do que os encontrados na prática clínica. Até coberturas com mel teriam o potencial de causar citotoxicidade, uma vez que o mel leva à produção enzimática de peróxido de hidrogênio e seu uso em curativos exporia às células à oxidação por um período prolongado.

Uma nova estratégia que vem ganhando força é o uso da tecnologia micropore particle technology (MPPT), que não depende do uso de antimicrobianos para exercer sua ação. Coberturas de MPPT consistem em partículas altamente porosas que, por capilaridade, drenam o exsudato da ferida em direção à superfície da cobertura, facilitando a evaporação. Sua ação é puramente física, pois não apresenta efeitos bactericidas ou antifúngicos e nem altera a formação de biofilme local. Da mesma forma, os ensaios em laboratório não demonstraram efeitos citotóxicos.

Ensaios clínicos mostraram que o MPPT, em comparação ao uso de antibióticos e antissépticos, reduziu o tempo para alcançar uma ferida livre de necrose, pus e infecção em 60% e foi associado a um início 50% mais rápido do processo de granulação e epitelização, independente do tipo de ferida. Além disso, o grupo do MPPT teve uma redução nos dias de hospitalização em 41% para lesões agudas, 31% para úlceras em pé diabético, e 19% para úlceras venosas em comparação com o uso de antibióticos e em 44%, 51% e 36% respectivamente, em comparação aos antissépticos. A experiência clínica tem demonstrado um processo de cicatrização mais rápido e diminuição na dor associada à presença das lesões, o que gera, por consequência, melhora da qualidade de vida, mesmo nos casos refratários às abordagens padrão.

Apesar de não ter propriedades antimicrobianas, outros estudos têm demonstrado que o MPPT removeria a colonização e infecção locais, facilitando o processo de cura. Uma possível explicação para essa característica é que a retirada do exsudato das feridas também removeria as toxinas e enzimas produzidas por microrganismos e secretadas localmente. Ao mesmo tempo, a remoção do exsudato também interromperia a integridade do biofillme, facilitando a ação das células imunes. Ambos os efeitos comprometeriam os dois principais sistemas de defesa de fungos e bactérias e o MPPT agiria, assim, como uma forma de imunoterapia passiva, no auxílio do sistema imune para manter o controle do microbioma local.

Dois pontos importantes devem ser destacados em relação à revisão. O primeiro é que os estudos e casos citados dizem respeito ao uso de coberturas com antibióticos e antissépticos com o objetivo de promover o processo de cicatrização de feridas e não ao tratamento de infecções locais. Lesões cutâneas com sinais de infecção devem ser adequadamente tratadas com antibióticos. O segundo ponto é o conflito de interesses: ambos os autores da revisão trabalham para uma das fabricantes de curativos de MPPT.

Destacadas essas questões, o uso rotineiro de agentes antimicrobianos e antissépticos parece não trazer benefício no tratamento de feridas cutâneas, podendo até mesmo ser prejudicial para o processo de cicatrização. Nesse sentido, o MPPT parece ser uma estratégia promissora, podendo contribuir para redução na hospitalização e melhora da qualidade de vida dos pacientes afetados.

É médico e também quer ser colunista do Portal da PEBMED? Inscreva-se aqui!

Autor:

Referências:

  • Sams-Dodd, J; Sams-Dodd, F. Time to Abandon Antimicrobial Approaches in Wound Healing: A Paradigm Shift. Wounds 2018; 30(11):354-352.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Esse site utiliza cookies. Para saber mais sobre como usamos cookies, consulte nossa política.