Declínio cognitivo pode estar associado à interrupção do sono de “ondas lentas profundas”

Estudo britânico indica relação entre distúrbios de sono e desempenho cognitivo. Neste artigo, conheça detalhes de metodologia e resultados.

Dormir demais ou de menos está associado a uma piora no desempenho cognitivo e na saúde mental, incluindo aumento do risco para ansiedade e depressão, aponta um estudo publicado na Nature Aging por pesquisadores das Universidades de Cambridge, no Reino Unido, e da Universidade de Fudan, na China. 

“Está muito claro que os processos que ocorrem no cérebro durante o sono são muito importantes para manter a saúde física e mental. E para cada hora que você se afasta de sete horas, sua saúde piora”, afirmou a professora do Departamento de Psiquiatria da Universidade de Cambridge, Barbara Sahakian, uma das autoras do estudo. 

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Sono saudável diminui risco de arritmias

Estudo

A pesquisadora acrescentou que ”ter uma boa noite de sono é indispensável em todas as fases da vida, mas ganha ainda mais relevância à medida que envelhecemos, tão importante quanto fazer exercícios. E isso pode ser crucial para nos ajudar a manter uma boa saúde mental e bem-estar, evitando o declínio cognitivo, principalmente em pacientes com transtornos psiquiátricos e demências”, afirmou Sahakian , em entrevista ao jornal The Guardian. 

Na opinião do neurologista dos hospitais Copa D’Or e Pró-Cardíaco, Henrique Cal, trata-se de um estudo muito interessante pela quantidade de pessoas incluídas, pelo acompanhamento ao longo dos anos e com múltiplos dados envolvidos. 

“Um dos principais achados foram os resultados negativos tanto em uma quantidade menor e maior de sono, pontuando que os dois extremos fazem mal para a saúde. Muitos outros estudos apresentaram resultados semelhantes, mas esse realmente pretendeu trazer uma explicação mais completa relacionando dados genéticos, comportamentais e de neuroimagens”, destacou Cal, que também é doutor em Neurologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e colunista da PEBMED, em entrevista ao portal. 

O neurologista explicou que o estudo se propôs a trazer um modelo que sugere uma correlação entre esses fatores da seguinte maneira: os fatores genéticos influenciam o sono que, por sua vez, afeta a atrofia cerebral, que modula a cognição e a saúde psíquica. “Entre todos esses fatores, o que mais se relacionou com a saúde psíquica/mental foi a própria duração do sono, mais do que a atrofia cerebral ou do que os fatores genéticos, pelo menos neste estudo”, ressaltou Cal. 

Os dados avaliados relacionados à avaliação cognitiva foram memória, tempo de reação, função executiva e a avaliação da inteligência como um todo. E vale ressaltar que esses dados não se alteraram com os ajustes de outros fatores, como sexo, idade, educação e outros fatores de risco, como obesidade, fumo, álcool ou demência, ou seja, dá para confiar bastante nesses resultados. 

“Achei bem interessante que essa curva em formato de U foi mais pronunciada em indivíduos mais jovens (meia-idade) e menos importante nos idosos, o que pode indicar que esse efeito do sono é ainda mais importante nas pessoas de meia-idade”, complementou o neurologista entrevistado.  

Como foi realizada a pesquisa

A pesquisa avaliou quase 500 mil adultos no Reino Unido entre 38 e 73 anos, além de utilizar informações de um banco de dados biomédico de grande escala do Reino Unido, chamado de Biobank, e incluir imagens cerebrais e dados genéticos de 40 mil participantes. 

Com isso, os cientistas descobriram que a área cerebral mais afetada pelo sono era a região que continha o hipocampo, conhecido como o centro de memória, com muito ou pouco sono ligado a um volume cerebral menor. 

Segundo os especialistas, um possível motivo para a ligação entre sono insuficiente e declínio cognitivo pode ser a interrupção do sono de ondas lentas e profundas, que demonstrou ser importante para a consolidação da memória. A falta de sono profundo também pode impedir o cérebro de limpar as toxinas de forma eficaz. 

Dormir sete horas por noite é o ideal

Outra constatação do estudo foi a de que os indivíduos que dormiam sete horas por noite tiveram melhor desempenho, em média, em testes cognitivos para velocidade de processamento, atenção visual, memória e habilidades de resolução de problemas. 

Estudos anteriores também mostraram que os padrões de sono interrompidos estão associados ao aumento da inflamação, indicando uma suscetibilidade a doenças relacionadas à idade em idosos. 

Infelizmente, os cientistas foram menos claros sobre porque oito ou mais horas de sono podem causar problemas. Uma possível explicação é que os indivíduos que têm sono de má qualidade ou menos restaurador tendem a passar mais tempo dormindo (ou tentando dormir), uma vez que se sentem mais cansados. 

“Embora não possamos dizer conclusivamente que muito pouco ou muito sono causa problemas cognitivos, nossa análise realizada com indivíduos por um longo período de tempo parece apoiar essa ideia. Mas as razões pelas quais pessoas mais velhas têm sono mais pobre parecem ser complexas, influenciadas por uma combinação de nossa composição genética e a estrutura de nossos cérebros”, ressaltou o professor Jianfeng Feng, da Universidade Fudan. 

Perguntas ainda não respondidas pelo estudo 

Para o neurologista Henrique Cal, apesar de bem robusto, o estudo ainda não conseguiu traçar totalmente uma correlação causal entre o déficit cognitivo ao longo dos anos e o pouco sono. 

“Falta responder por que indivíduos que dormem além do ideal de sete horas tiveram mais correlação ao risco de déficit cognitivo e de desenvolver demências no futuro. Isso não está claro. Talvez o motivo seja o inverso: que a pessoa já tinha uma propensão a ter uma doença cognitiva e por isso já teria necessidade de dormir mais”, analisou o especialista. 

Limitações do estudo 

Sem dúvida, trata-se de um estudo muito importante e significativo, mas que ainda possui algumas limitações importantes, como somente o banco de dados era da população do Reino Unido ser utilizado, uma vez que 85% das pessoas eram brancas (caucasianas). 

“Além disso, os pesquisadores utilizaram somente o tempo total de sono, não analisando a qualidade do sono, se era regular e outras medidas de higiene de sono. Então, no futuro eles poderiam fazer novas investigações abordando essa questão. Outra limitação foi que a duração do sono foi uma informação coletada a partir de uma auto-avaliação, o que pode ter alguns vieses”, pontuou o neurologista dos hospitais Copa D’Or e Pró-Cardíaco. 

Como deve ser a avaliação dos médicos 

Em pacientes que buscam ajuda médica se queixando de insônia ou outros distúrbios do sono é fundamental realizar uma anamnese completa. 

Não basta perguntar sobre a quantidade de sono, mas também se o seu ritmo de sono é regular, a qualidade do sono, se o parceiro reclama, se tem um sono agitado ou ronca muito, se acorda muitas vezes à noite ou tem dificuldade de acordar de manhã, se fica muito sonolento ao longo do dia, etc. Enfim, tudo isso pode ser um sintoma de não um sono não reparador, de pouca qualidade, como chama a atenção o colunista da PEBMED.  

“Se o paciente queixa-se diretamente de insônia é importante caracterizar: se é uma insônia inicial, intermediária ou final. Como estão as medidas de higiene do sono e avaliar o sono com escalas e, em alguns casos, pode ser recomendado a solicitação de exames, como a polissonografia. Existem ainda outros testes que indiretamente podem mostrar efeitos de um sono mal dormido dependendo da indicação clínica, como ecocardiograma, função tireoidiana, glicemia de jejum e hemoglobina glicada. Deve-se ainda perguntar sobre possíveis comorbidades, sintomas relacionados à depressão e ansiedade, abusos de substâncias, piora na performance cognitiva, trabalho, se usa muito estimulante ou bebidas alcoólicas’, concluiu Cal.

*Esse artigo foi revisado pela equipe médica da PEBMED

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