Reumatologia

Definição dos valores de corte para remissão clínica no SLE-DAS

Tempo de leitura: 4 min.

A utilização de escores compostos para avaliação da atividade de doença em pacientes com doenças reumatológicas é de fundamental importância na prática médica atual. Isso se torna cada vez mais relevante na medida em que alvos terapêuticos estritos são buscados para diferentes doenças, abordagem conhecida como treat-to-target. Isso permite um tratamento mais personalizado para cada paciente e seu grau de atividade global da doença.

Por vários anos, a avaliação da atividade de doença do lúpus eritematoso sistêmico (LES) foi feita através das variações do SLEDAI (SELENA-SLEDAI, SLEDAI-2K, SLEPDAI), que apresentam limitações na definição de remissão clínica e, especialmente, na categorização de diferentes níveis de atividade de doença, além de avaliarem as manifestações clínicas e laboratoriais apenas de maneira dicotômica. Por outro lado, a complexidade de aplicação e interpretação do BILAG limitam seu uso em um contexto clínico diário.

Mais recentemente, foi desenvolvido um novo escore para avaliar a atividade da doença, que recebeu o nome de SLE-DAS (Systemic Lupus Erythematosus-Disease Activity Score). Esse escore utiliza 17 variáveis clínicas e laboratoriais (escores ponderados para cada variável, sendo que algumas são avaliadas de maneira contínua) e inclui manifestações clínicas importantes para avaliação da atividade de doença que foram suprimidas do SLEDAI.

Leia também: Lúpus em pacientes com SAF primário: os critérios classificatórios devem ser utilizados para diagnóstico?

Nos estudos iniciais, o SLE-DAS apresentou uma maior acurácia para avaliar atividade de doença no LES, uma maior sensibilidade para detectar mudanças clinicamente significativas na atividade (variações de ≥1,72 → 95,5% de sensibilidade e 98,5% de especificidade para piora, e 89,5% de sensibilidade e 100% de especificidade para melhora) e um maior valor preditivo positivo para acúmulo de dano, quando comparado com o SLEDAI-2K. Apesar disso, ainda não estavam definidos valores de corte para avaliar remissão, nem categorizar diferentes níveis de atividade de doença com o SLE-DAS.

Assim, Jesus et al. conduziram um estudo para definir pontos de corte para remissão clínica no SLE-DAS, além de derivar e validar valores de corte para diferentes categorias de atividade de doença.

Métodos

Foram incluídos consecutivamente pacientes classificados como LES através dos critérios ACR 1997 e SLICC 2012 e acompanhados nos ambulatórios de LES de Padova (Itália) e Cochin (França).

No baseline, a atividade de doença foi avaliada através do PGA (0-3 pontos, com escala visual analógica), SLEDAI-2K e SLE-DAS. Além disso, a remissão foi avaliada através dos critérios do DORIS e da definição proposta por Doria (Zen et al.). Após a visita, o especialista em LES mais experiente da equipe, cegado para a avaliação de atividade de doença e para os critérios de remissão, mas com acesso aos exames laboratoriais e dados clínicos, avaliava o paciente e o classificava em remissão, atividade leve e atividade moderada/grave.

Para avaliação de diferentes níveis de atividade da doença, o SLE-DAS foi comparado com o julgamento do especialista, através da curva ROC. Já para a definição de remissão, o comparador utilizado foi a definição do DORIS. A coorte utilizada para derivação foi a de Padova.

Após a derivação, os valores de cut-off do SLE-DAS foram validados em 2 coortes diferentes (coorte de Cochin e dados do BLISS-76).

Resultados

Foram incluídos 1.190 pacientes com LES, 221 na coorte de derivação e 969 nas coortes de validação. Para maiores detalhes, consulte o artigo original, referenciado abaixo.

Com relação à categorização do nível de atividade, os autores encontraram os seguintes valores de corte:

  • Remissão: SLE-DAS ≤ 2,08;
  • Atividade leve: 2,08 < SLE-DAS ≤ 7,64;
  • Atividade moderada-alta: SLE-DAS > 7,64.

Na coorte de derivação, os seguintes valores de performance dos critérios foram encontrados:

  • Remissão: sensibilidade de 99,3% e especificidade de 97,1%;
  • Atividade leve: sensibilidade de 80,7% e especificidade de 98,4%;
  • Atividade moderada/grave: sensibilidade de 94,9% e especificidade de 97,8%.

Nas coortes de validação, os seguintes valores de performance dos critérios foram encontrados:

  • Cochin: sensibilidade de 99,1% e especificidade de 93,9% para remissão; sensibilidade de 82,6% e especificidade de 99,2% para atividade leve; e sensibilidade de 100% e especificidade de 98,6% para atividade moderada/grave;
  • BLISS-76: sensibilidade de 88,6% e especificidade de 84,1% para diferenciar remissão/atividade leve de atividade moderada/grave.

Saiba mais: Conheça o SLERPI: ferramenta que pode ajudar no diagnóstico do lúpus

Comentários sobre o uso do SLE-DAS

Esse estudo apresenta grande importância ao definir valores de corte para utilização do SLE-DAS na avaliação da atividade do LES, com uma ótima acurácia e excelente área sob a curva ROC.

O próximo passo é avaliar se esses valores são reprodutíveis para as demais populações. Dessa forma, esse escore ainda não deve ser utilizado de maneira indiscriminada nos nossos pacientes do Brasil, já que ainda carece de maior validação externa. Ainda assim, é um importante passo para melhor estratificação da atividade de doença em pacientes com LES.

Autor(a):

Referências bibliográficas:

  • Jesus D, Larosa M, Henriques C, et al. Systemic Lupus Erythematosus Disease Activity Score (SLE-DAS) enables accurate and user-friendly definitions of clinical remission and categories of  disease activity. Ann Rheum Dis. 2021;0:1–7. doi:10.1136/annrheumdis-2021-220363.
  • Jesus D, Matos A, Henriques C, et al. Derivation and validation of the SLE Disease Activity Score (SLE-DAS): a new SLE continuous measure with high sensitivity for changes in disease activity. Ann Rheum Dis. 2019; 78: 365-71. doi: 10.1136/annrheumdis-2018-214502.
  • Jesus D, Matos A, Henriques C, et al. FRI0641 Detection of changes in SLE disease activity is highly improved with SLE-DAS as compared to SLEDAI: derivation and preliminary validation of the sle disease activity score (SLE-DAS). Ann Rheum Dis. 2018; 77: 842-3. doi: 10.1136/annrheumdis-2018-eular.3161.
  • van Vollenhoven R, Voskuyl A, Bertsias G, et al. A framework for remission in SLE: consensus findings from a large international Task force on definitions of remission in SLE (DORIS). Ann Rheum Dis. 2017;76:554–61. doi10.1136/annrheumdis-2016-209519
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Publicado por
Gustavo Balbi

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