Dermatite atópica tem relação com uso de emolientes no primeiro ano de vida?

Fatores de risco importantes para a ocorrência de dermatite atópica incluem fatores genéticos, o aumento da prevalência e fatores ambientais.

A dermatite atópica (DA), também conhecida por eczema atópico ou eczema, é um problema que afeta cerca de uma em cada cinco crianças em todo o mundo. Sua prevalência parece estar aumentando especialmente em locais de rápido desenvolvimento demográfico. Fatores de risco importantes para a ocorrência de DA incluem fatores genéticos (como genes que codificam proteínas da barreira cutânea e respostas imunológicas), o aumento da prevalência ao longo do tempo, o aumento do risco em famílias menores e fatores ambientais.  

A eficácia dos emolientes na prevenção da DA é controversa. Publicado recentemente no periódico Allergy, o estudo Barrier Enhancement for Eczema Prevention (BEEP) avaliou os efeitos de emolientes diários durante o primeiro ano de vida na DA e nas condições atópicas até os 5 anos de idade. 

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Dermatite atópica tem relação com uso de emolientes no primeiro ano de vida?

Dermatite atópica tem relação com uso de emolientes no primeiro ano de vida?

Metodologia 

O BEEP foi um ensaio clínico randomizado, multicêntrico, de dois braços, de grupos paralelos, que recrutou participantes de 12 hospitais e quatro locais de atendimento geral no Reino Unido. Foram randomizados recém-nascidos (RN) a termo (≥37 semanas de idade gestacional [IG]), com histórico familiar de doença atópica (1:1), em dois grupos: 

  • “Grupo emoliente” (GE): os pais aplicaram emolientes diários no corpo do bebê e receberam instruções padrão para os cuidados com a pele; 
  • “Grupo controle” (GC): os pais receberam somente instruções padrão para os cuidados com a pele. 

O acompanhamento de longo prazo às idades de 3, 4 e 5 anos foi feito por meio de questionários aos pais. Os dados foram coletados entre novembro de 2014 e novembro de 2016. O desfecho primário incluiu o desenvolvimento de DA no ano anterior, que foi medido na marca de 2 anos e aos 3, 4 e 5 anos a partir do início do estudo por meio de questionários. Os desfechos adicionais medidos incluíram a presença de sibilância e/ou asma, rinite alérgica (RA) ou alergia alimentar (AA). O acompanhamento dos resultados aos 3, 4 e 5 anos ocorreu entre novembro de 2017 e novembro de 2021. 

Resultados 

Foram randomizados 1.394 RN a termo com histórico familiar de doença atópica: GE (n = 693) e GC (n =  701). As características basais dos bebês nos quais o questionário de cinco anos foi preenchido foram semelhantes nos dois grupos. Os pais dos RN do GE relataram aplicação mais frequente de hidratante até os cinco anos.  

Um diagnóstico clínico de dermatite atópica entre 12 e 60 meses foi relatado em: GE: 188/608 (31%); GC: 178/631 (28%) – risco relativo ajustado [aRR] 1,10, intervalo de confiança de 95% [IC 95%] 0,93 a 1,30. 

Aos três anos, o uso de emolientes pelo menos três vezes por semana foi maior no GE (31%) versus GC (20%). A frequência de DA foi maior no GE versus GC, porém as diferenças entre os dois grupos não foram clinicamente ou estatisticamente significativas.  

As reações alimentares e os diagnósticos de AA foram relatados como mais frequentes no GE aos 3 e 4 anos (esta diferença foi resolvida em 5 anos, quando os resultados das AA foram semelhantes em ambos os grupos).  

Aos três anos, a sibilância foi maior no GC (28%) quando comparado ao GE(21%). Esta diferença foi resolvida em cinco anos, quando nenhuma diferença entre os dois grupos foi observada. Os sintomas da RA foram semelhantes nos dois grupos em cada ano medido. 

A incidência cumulativa de AA diagnosticada aos cinco anos foi semelhante entre os grupos, apesar de mais pais no GE terem relatado reações alimentares no ano anterior aos 3 e 4 anos: GE: 92/609 [15%]; GC: 87/632 [14%] – aRR 1,11, IC 95% 0,84 a 1,45).   

Conclusões 

Os pesquisadores concluíram que os emolientes de uso contínuo não preveniram DA, AA, a asma ou a RA durante os primeiros cinco anos de vida. Ademais, a gravidade da DA foi semelhante nos dois grupos aos 5 anos. 

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Comentários 

Gostei bastante do desenho do estudo e os resultados são muito úteis para a prática diária do pediatra, não tendo mostrado nenhum efeito dos emolientes na prevenção ou retardo no aparecimento da dermatite atópica (ou até mesmo de sua gravidade) e nenhum benefício para prevenir outras doenças alérgicas. Portanto, hidratar intensamente o bebê desde o nascimento não é uma conduta que deva ser indicada com estes objetivos. 

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Referências bibliográficas: Ícone de seta para baixo
  • BRADSHAW, Lucy et al. Emollients for prevention of atopic dermatitis: 5-year findings from the BEEP randomized trial. Allergy., v.78, n.4, p.995-1006, 2023. DOI.org/10.1111/all.15555

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