Desafios de manter atendimentos a usuários de drogas durante a pandemia

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Os efeitos da pandemia por Covid-19 repercutem em todos, tanto pelo risco que a doença traz, quanto pelos impactos das medidas de isolamento social. Pessoas usuárias de drogas se constituem em uma população especialmente exposta a esses efeitos.

Além do maior risco de possuírem condições médicas comórbidas – muitas delas fatores de risco para o agravamento clínico da Covid-19 -, em geral também possuem piores condições sócio-econômicas, com maiores chances de instabilidade residencial e de se tornarem sem-teto. Além disso, o estigma e a discriminação sociais que essa população sofre, inclusive por profissionais de saúde, contribuem para dificultar seu acesso aos cuidados adequados de saúde.

Atendimento a usuários de drogas durante a Covid-19

Assim como ocorre em diversos pontos do sistema de saúde, muitos serviços prestados para pacientes em tratamento para o uso abusivo de drogas terão que sofrer adaptações. O desvio de profissionais e de estrutura para reforçar os atendimentos aos casos de Covid-19 e a necessidade de distanciamento social são importantes fatores que influenciam nessas mudanças.

Serviços em que o paciente realiza retirada diária de medicação (para o controle do uso de drogas ou da abstinência), caracterizados muitas vezes por salas de espera cheias ou longas filas, devem, na medida do possível, dar preferência ao uso de medicações de depósito, com possível liberação semanal ou quinzenal e menores riscos de uso não terapêutico pelo paciente. Estratificar bem os pacientes pelo risco de abuso das medicações, de modo a realizar liberações de maiores quantidades, para durar mais tempo, também parece ser uma alternativa.

Casos de abstinência podem também aumentar durante a pandemia, por possíveis interrupções no consumo de drogas pela diminuição de sua oferta. A internação de pacientes com esse quadro, no entanto, deve se dar de maneira muito criteriosa. Casos de convulsões por abstinência alcoólica e de benzodiazepínicos, risco de síndrome de abstinência alcoólica severa, descompensação de doença psiquiátrica de base e questões sociais como a inexistência de domicílio são exemplos de indicações. Para apoiar as abordagens ambulatoriais devem ser estimulados o uso do telefone e de videoconferência para teleatendimentos.

Para diminuir a exposição dos pacientes nas salas de espera, no caminho até a unidade e nos próprios consultórios, os atendimentos de aconselhamento a pessoas que usam drogas podem ser mais facilmente adaptados nesse sentido, com o uso de teleconsultas. Atendimentos em grupo devem ser evitados sempre que possível, com redução do número de participantes quando sua manutenção for imprescindível. É oportuno incluir nas ações de aconselhamento orientações sobre a prevenção do contágio da Covid-19, inclusive voltadas para o ambiente de uso de drogas.

Nesse sentido, os serviços que prestam ações de redução de dano, como os de fornecimento de seringas e agulhas estéreis, podem aproveitar para abordar as questões relativas à Covid-19. Orientações de higiene das mãos ao manejar as drogas, equipamentos para o uso e dinheiro por exemplo, podem ser abordadas. Além disso, o fornecimento de material estéril pode ser mais robusto, com maiores quantidades, de maneira a reduzir o trânsito dos pacientes e o risco de contágio.

Dentro dos serviços, deve existir uma comunicação clara entre profissionais e pacientes a respeito das mudanças realizadas devido à pandemia, de maneira a possibilitar e manter a confiança e vínculo entre ambas as partes. Quanto mais cedo essas adaptações puderem ser colocadas em prática, menos impacto terão.

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Estudos apontam que, durante o furacão Katrina, pessoas usuárias de drogas muitas vezes priorizavam o uso das substâncias em vez da tomada de medidas de segurança pessoal. O aumento de casos de violência e de estresse durante o período também ocasionaram aumento da procura por drogas por essas pessoas. O mesmo pode ocorrer durante a atual pandemia. Nesse sentido, os profissionais de saúde desempenham um papel importante para diminuir os impactos da Covid-19 nessa população.

É essencial realizar as orientações de educação em saúde adequadas à sua prevenção e estimular o cumprimento das recomendações. O acesso desses pacientes deve ser pautado pela equidade e pela ética, com postura profissional indiscriminatória e estimulando a manutenção dos serviços de atendimento a essa população especialmente vulnerável.

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