Anestesiologia

Desconforto orofaríngeo após anestesia geral: o que há de novo para sua prevenção?

Tempo de leitura: 2 min.

O desconforto orofaríngeo é um evento adverso muito comum após realização de anestesia geral com incidência reportada de até 62%. Está relacionado, dentre outros fatores, com a idade, gênero, tamanho de tudo endotraqueal e sua pressão de cuff e apesar de geralmente transitório — tende a desaparecer em menos de 48 horas —  tem impacto direto na satisfação do paciente e na sua experiência com o ato anestésico.

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Análise recente

A revista BMC Anesthesiology publicou em 2022 um ensaio clínico randomizado e duplo-cego em que avaliou o uso de dexmedetomidina (alfa2-agonista) e ropivacaína intratraqueal em pacientes submetidos a anestesia geral. Analisou como desfecho primário a incidência e a gravidade de dor orofaríngea e rouquidão em relação a quatro grupos (DR – dexmedetomidina e ropivacaína; R – ropivacaína; D – dexmedetomidina; S – salina) em duas horas e em vinte e quatro horas após a cirurgia; como desfechos secundários, analisaram flutuação hemodinâmica intraoperatória, requerimento de drogas anestésicas e reações adversas durante o ato cirúrgico.

A utilização intratraqueal de 5 ml de solução contendo dexmedetomidina (1 micrograma/kg) e ropivacaína 0,8% (40 mg) mostrou que a incidência de desconforto orofaríngeo de fato foi menor após duas horas de cirurgia (16% no grupo DR contra 44% no grupo S, 40% no grupo D e 34% no grupo R – todos com p < 0,05). Após vinte e quatro horas, a incidência desse evento foi menor apenas no grupo DR; em relação à rouquidão, não houve diferença estatisticamente significativa entre os grupos.

Além de tais resultados, observaram que a necessidade de anestésicos durante a cirurgia foi menor no grupo DR, além de haver menos flutuações hemodinâmicas (avaliados através da pressão arterial sistólica, diastólica e frequência cardíaca).

Tanto o tubo orotraqueal quanto os dispositivos supra-glóticos podem causar essa complicação bastante comum — a literatura é inconclusiva ao se comparar as suas incidências —, podendo se justificar pelo trauma direto ou irritação da mucosa por tais dispositivos. Os fatores de risco principais envolvidos são o tamanho do dispositivo, elevadas pressões de cuff, gênero feminino, uso concomitante de sonda nasogástrica, tubo orotraqueal duplo-lúmen, apresentação de tosse durante o despertar da anestesia e intubação realizada sem bloqueador neuromuscular.

O que existe até o momento na literatura?

Atualmente estratégias como a escolha adequada do tamanho dos dispositivos (tubo orotraquel ou máscara laríngea) e o controle  da pressão de cuff entre 20-25 mmHg. Alguns fármacos também têm eficácia comprovada como uso tópico de lidocaína, corticoide e anti-inflamatórios não esteroidais como benzidamina (neste caso, pode-se optar pela formulação de pastilha, por exemplo).

Também recentemente, foi publicada na revista Anesthesiologica Scandinavica uma meta-análise sobre uso tópico de ketamina comprovando sua eficácia em reduzir o desconforto orofaríngeo e a gravidade desse sintoma. Nessa publicação, não existe uma conclusão sobre a dose adequada (a maioria dos estudos utiliza 50 mg, mas outros abordaram doses menores ou doses de acordo com o peso) assim como não houve diferença significativa entre a via utilizada —  tanto a nebulização quanto o gargarejo ou lubrificação dos dispositivos mostraram-se eficazes.

Saiba mais: Anestesia no Paciente Chocado: confira os conteúdos atualizados em Anestesiologia

Para combater um sintoma tão comum e indesejável existem, portanto, várias alternativas disponíveis atualmente ao alcance do anestesiologista. A individualização dos pacientes, levando-se em consideração seus fatores de risco, e a análise das opções disponíveis em seu serviço é de extrema relevância para tornar a experiência do paciente com o ato anestésico mais agradável.

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Publicado por
Ana Emília Teófilo Salgado

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