Devemos repensar o antibiótico na diverticulite?

Tempo de leitura: 3 min.

A diverticulose é uma condição muito frequente e estima-se que dois terços da população tenha divertículos de colón mesmo sem nenhum tipo de sintoma. Em contrapartida a diverticulite aguda é uma condição inflamatória intestinal relativamente frequente nas emergências e com uma gama variada de sintomas. Tradicionalmente as diverticulites agudas não complicadas são tratadas com antibioticoterapia isolada e mais recentemente muitos destes pacientes são tratados com terapia oral e em regime ambulatorial.

Na evolução desta tendência mais conservadora, dois trabalhos questionaram a necessidade do uso de antibiótico nestes casos mais leves, porém, não houve uma comparação com um grupo controle utilizando placebo.

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Materiais e métodos do estudo sobre uso de antibióticos na diverticulite

Pacientes admitidos em 4 centros distintos (Austrália e Nova Zelândia), foram alocados em 2 grupos comparando o uso de placebo com antibiótico. Somente pacientes maiores de 18 anos com diverticulites classificadas por tomografia como Hinchey 1a foram incluídos. Além disto alguns critérios de exclusão foram impostos como gravidez, imunossupressão ou sinais de repercussão sistêmica. Pacientes com leucocitose ou leucopenia também não foram incluídos no estudo.

Foram alocados 2 grupos: antibiótico x placebo, sendo que o grupo de antibiótico poderia receber a forma venosa ou oral. Os envelopes contendo a medicação ou placebo eram idênticos identificados apenas pelo número do estudo e, portanto, o médico e o paciente não distinguiam entre placebo ou o medicamento. A escolha entre medicação venosa ou oral ficou a cargo do médico responsável pelo atendimento.

O desfecho principal a ser observado foi o tempo de hospitalização, entre a chegada e a alta e como secundários, as intercorrências a associadas a cada braço do estudo.

Resultados

Um total de 459 foram avaliados para inclusão sendo 279 excluídos, permanecendo um total de 180 participantes. O grupo placebo com 95 participantes enquanto o grupo de antibiótico 85 participantes. Um participante de cada grupo pediu para ser excluído do trabalho. Ocorreu 1 óbito no grupo de antibiótico, por causa não relacionada a doença. Não houve diferença estatística do tempo de hospitalização entres os grupos com um tempo médio de 40 horas. As necessidades de readmissão e complicações foram semelhantes em ambos grupos.

Discussão sobre o estudo e antibioticoterapia

Este foi o primeiro estudo utilizando um grupo controle com placebo, a fim de determinar que o tempo de internação não é alterado ao se utilizar o placebo comparando com antibiótico em diverticulites leves. Outros dois estudos obtiveram resultados semelhantes, porém de forma não cega.

Existe uma tendência para diminuir o uso de antibiótico em diverticulites não complicadas, com evidencia cada vez maior, porém mesmo assim não se consegue chegar a uma opinião de consenso entre as diferentes sociedades envolvidas. Com toda a preocupação envolvida com o uso indiscriminado de antibióticos e consequente resistência antibiótica, a decisão para prescrição ou não de antibiótico em diverticulites não complicadas deve ser considerada. O cirurgião deve tomar a responsabilidade quanto a esta orientação terapêutica.

Conclusão

Este estudo foi o primeiro duplo cego randomizado, a constatar a não inferioridade do não uso de antibiótico em diverticulites não complicadas.

As mudanças de rotinas na prática médica são sempre lentas e necessitam de grande evidência, principalmente quanto estamos comparando dois métodos que apresentam resultados semelhantes. Assim como a profilaxia antibiótica nas cirurgias tem diminuído as indicações, a terapia em infecções leves também está seguindo o mesmo caminho.

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Referências bibliográficas:

  • Jaung R, Nisbet S, Gosselink MP, et al. Antibiotics Do Not Reduce Length of Hospital Stay for Uncomplicated Diverticulitis in a Pragmatic Double-Blind Randomized Trial [published online ahead of print, 2020 Mar 30]. Clin Gastroenterol Hepatol. 2020;S1542-3565(20)30426-2. doi:10.1016/j.cgh.2020.03.049.
  • Ridgway PF, Latif A, Shabbir J, et al. Randomized controlled trial 764 of oral vs intravenous therapy for the clinically diagnosed acute uncomplicated diverticulitis. Colorectal Dis 2009;11:941-946. 765.
  • Chabok A, Pahlman L, Hjern F, et al. Randomized clinical trial of 766 antibiotics in acute uncomplicated diverticulitis. Br J Surg. 2012; 767 99:532–539.
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Publicado por
Felipe Victer

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