Dez anos de insuficiência cardíaca (IC) em um Brasil subdesenvolvido: tendência

Tempo de leitura: 4 min.

A insuficiência cardíaca (IC) representa a principal causa de internações hospitalares nos EUA na faixa etária acima de 65 anos. Sendo uma doença que atinge cerca de 26 milhões de pessoas em todo o mundo, vem apresentando um tendência de alta prevalência, principalmente devido ao envelhecimento populacional e maiores expectativas de vida, bem como ao desenvolvimento da própria medicina, por meio de otimização terapêutica, desenvolvimento de VAD’S (dispositivos de assistência ventricular) e aumento nas taxas de transplantes cardíacos.

No período entre 2008 e 2017, Fernandes et al. realizaram uma análise retrospectiva da epidemiologia da IC no Brasil, em contraste com o distrito da Paraíba. Com base em dados do DATASUS (Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde), responsável pela administração de todas as informações sobre saúde e finanças declaradas por todos os estados e cidades e pelo Distrito Federal), foram analisados dados de brasileiros acima de 15 anos, que utilizaram qualquer modalidade de serviço de saúde em território brasileiro com o diagnóstico de IC (CID I50).

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Hospitalizações

Na Paraíba, no intervalo, foram registradas 51.172 internações hospitalares. A IC mostrou-se como a principal causa de internações por doenças cardiovasculares na região (29,4%). A patologia foi estatisticamente seguida por doenças isquêmicas (13%), AVC (11%), HAS (10%), e IAM (5%).

Em todo o território brasileiro, foram 2.380.133 internações, representando 21% das hospitalizações por causas cardiovasculares. Deste modo, a insuficiência cardíaca (IC) representou 2,54% na PB e 2,25% de todas as causas de internações. Maiores concentrações das mesmas foram notadas entre a faixa de 70 a 79 anos.

Ao mesmo tempo, os números consideráveis, quando analisados linearmente, mostram uma tendência de baixa na quantidade de internações entre 2008 e 2017. Na América Latina e Caribe, Godoy et al. notaram um decréscimo de 32% nas internações por IC entre 1992-1993 e 2008-2009. O estudo de Fernandes et al. foi compatível com esta análise, ao demonstrar decréscimo de internações em 62% na Paraíba e em 34% em todo o território brasileiro.

Tendência do número (absoluto) de internações por insuficiência cardíaca de 2008 a 2017 na Paraíba (A) e regiões do Braisl (B).

No gráfico podemos notar entretanto que a distribuição dos números na região Nordeste, que abrange a Paraíba, não seguem o mesmo padrão de curva do Brasil. Isto pode dar-se por vários motivos, desde uma subnotificação, a uma menor relevância estatística em comparação aos números relacionados à doença comparativamente entre Sudeste, mais habitado e com maior espaço amostral em comparação às demais regiões brasileiras, ou mesmo pelo diferente curso da doença a depender dos recursos disponíveis para abordagem e manejo em cada região.

Mortalidade absoluta da população

Houve declínios na mortalidade absoluta sem significância estatística no período estudado. A maior proporção de óbitos deu-se no grupo acima de 80 anos, sem grande distinção entre homens e mulheres.

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Taxa de mortalidade populacional

A média de taxa de mortalidade por IC foi de 19,2/100.000 na Paraíba e de 14/100.000 no Brasil. Houve declínio de 10,7% e de 7,7%, respectivamente. Outros estudos mostraram também decréscimo na Argentina (23%), São Paulo (29%), EUA (2,8%) — importante, considerando o exponencial aumento da população norte-americana).

Mortalidade hospitalar absoluta

A mortalidade hospitalar sofreu significativo decréscimo de 37,5% na Paraíba e de 14,6% no território brasileiro.

Taxa mortalidade hospitalar

Foi interessante, entretanto, notar um importante aumento nas taxas de mortalidade, de65,1% em 10 anos de análise na Paraíba, associado a um aumento de 30,1% no Brasil. Isso se contrasta especialmente com a redução dos números absolutos de mortalidade detectados. Em se tratando de transição epidemiológica, algumas explicações podem associar-se a este evento.

Diminuição do número de internações

É a razão mais plausível para o fenômeno. O número absoluto de internações leva consigo as características intrínsecas do grupo populacional estudado: maior frequência da doença em indivíduos acima de 70 anos, com menor reserva biológica e metabólica, e consequente maior fragilidade orgânica.

Envelhecimento populacional

A transição epidemiológica, o pesado incentivo em desenvolvimento e manutenção de terapias avançadas, e a busca ávida por disseminação dos VADs tende a manter os doentes “por mais tempo” dentro da estatística.

Disponibilidade de recursos

Apesar das melhorias inegáveis em diagnóstico e terapêutica da insuficiência cardíaca (IC) no Brasil, ainda é fato no território brasileiro uma defasagem em se tratando de terapias e recursos avançados, especialmente em regiões menos desenvolvidas e com menor possibilidade de acesso.

(A)Tendência da taxa de mortalidade hospitalar na Paraíba (verde) e Brasil (azul) de 2008 a 2017. (B) Tendência da mortalidade hospitalar (número absoluto) por insuficiência cardíaca (verde) e Brasil (azul) de 2008 a 2017.

Limitações

Há de se levar em consideração que o estudo é retrospectivo e dependente de adequada alimentação e análise do banco de dados. Como não há seguimento individual dos pacientes, reinternações também não são viavelmente consideradas.

Autor(a):

Referências bibliográficas:

  • Fernandes ADF, et al. Insuficiência Cardíaca no Brasil Subdesenvolvido: Análise de Tendência de Dez Anos Arq. Bras. Cardiol. 2020;114(2). doi: 10.36660/abc.20180321
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Publicado por
Michelle Costa Galbas

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