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estetoscópio pendurado no pescoço do médico

Dia do Médico: parabéns a todos nós, médicos. Continuem sonhando!

Tempo de leitura: 9 minutos.

Realmente, cada dia do médico que vivemos é um dia extraordinário. Extraordinário porque, o que enxergamos nestes dias, em mais um 18 de outubro, o que está a nossa frente, não é fruto de uma história de apenas 6 anos de faculdade, ou alguns mais anos de residência médica, ou infinitos anos de prática. Os profissionais que estão celebrados hoje são frutos de uma história de vida.

Em meu último mês de graduação, estou realmente honrado de poder expressar minhas ideias nesse dia tão especial. Entretanto, de antemão, deixo bem claro que sou incapaz de manifestar o desejo do coração de vocês e de traduzir todas as tristezas, dificuldades, alegrias, expectativas e sonhos que os carregam até essa data.

Mas, existe algo que eu consigo. Eu consigo sim, falar sobre nós, muito mais do que sobre cada um. Desse modo, gostaria de repassar alguns aspectos fundamentais que a escola de Medicina e a prática médica nos ensinaram. Somente isso. Cada um deles é único e essencial, sendo referente a um pilar sustentador da vida de cada um de vocês. De cada um de nós.

Primeiro, vamos falar sobre gratidão.

Existem diversas fábulas e contos que retratam a importância e o valor de sermos gratos, mas não conheci ou li nenhuma que fosse capaz de traduzir o verdadeiro valor desse sentimento. Veja bem, quando nós pensamos nos sentimentos ou sensações mais antagônicas que existem, rapidamente falamos em “coragem e medo ” ou “inveja e admiração”, “felicidade e tristeza” ou até mesmo “amor e ódio”. Afinal, parecem ser as primeiras sensações que aprendemos como seres humanos.

Quando temos a coragem de dar os primeiros passos sozinhos, quando perdemos o medo e fazemos novas amizades, ou quando, por medo, deixamos de viver coisas maravilhosas. Quando deixamos tudo que tínhamos para viver uma nova vida na universidade. Quando, sozinhos em nossos apartamentos, nos preocupamos com provas, trabalhos, família, amigos, futuro, pacientes, estudos; ou hoje, quando também somos chamados para colher os frutos de nossa coragem. Coragem e medo.

Ou, vamos além. Quando, ainda crianças, ganhávamos o carinho de nossos pais ou aquele doce escondido de nossos avós. Quando hoje vemos amigos e pacientes nos parabenizando, que mesmo com o tempo e distância, nunca deixaram de ser essenciais, tanto na prática, como na vida. Quando o futuro nos tomou familiares, amigos, colegas, deixando para nós apenas um pedaço de memória boa. Quando a vida pareceu injusta. Quando o fracasso com nossos pacientes nos pesou o coração, e pesava mais ainda ao notarmos que talvez nossos sonhos estivessem sendo esgoelados por um mundo descompensado. Alegria e tristeza.

Quando tínhamos raiva das injustiças do mundo e queríamos muda-lo, quando éramos repreendidos, quando sentimos que falhamos com os que amamos, quando nos odiamos por não ter feito algo ou justamente por ter feito. Quando fizemos amizades que até hoje estão sentadas do nosso lado. Quando vimos o nascimento de filhos e percebemos que, enquanto eles existissem, não haveria espaço para ódio no mundo, muito menos em nossos corações. Amor e ódio.

Mas por que deveríamos pensar nisso? Porque acredito que existam dois sentimentos que são exemplo perfeito de antagonismo, e que todos os outros afluem destes, e nós não poderíamos jamais sermos bons médicos, sem entendermos isso. Gratidão e ingratidão.

Gratidão que vimos estampada em nossos rostos ao passarmos no vestibular, ao superar a primeira prova de anatomia, ao poder finalmente conversar com nossos pacientes. Gratidão que esvaiu de cada um de nossos pacientes ao serem bem tratados, que sentimos no abraço caloroso dos mesmos, quando nem mesmo foram curados. Gratidão que permitimos transbordar em cada um dos sorrisos que damos ao nos formarmos, tanto ao ouvir o nome de nossos colegas realizando um sonho de uma vida, como ao percebermos que mais um ciclo, extremamente duro, está se encerrando. Gratidão que arrepia nossa família e amigos aos nos olharem, não apenas nesse dia, e notarem que o 18 de outubro não se trata apenas de uma comemoração, mas de uma lição de vida. A gratidão, meus amigos, escorre pelos olhos.

E ela, embasada pelo amor, afastada pelo ódio; transmitida através da coragem e combativa ao medo; fortalecida pela alegria, mas também sincera na tristeza; eterna na admiração e hipócrita na inveja; é um dos cernes de nossa história de vida. Mas também é essência de nossa futura profissão.

Victor Frankl foi um médico, psiquiatra e judeu, um ser humano brilhante. Nascido em Viena, em 1905, foi obrigado a pedir dinheiro nas ruas durante a I Guerra Mundial para sustentar sua família. Já médico, durante a II Guerra Mundial foi enviado para um campo de concentração, onde veria, anos mais tarde, sua esposa, sua mãe, seu irmão e seu primeiro filho, serem assassinados pelo nazismo.

Ao final da guerra, após ser liberado do campo de concentração, Victor escreve o livro “A Busca de um Homem pelo Sentido” – em uma tradução literal -, no qual contempla suas experiências interiores e chega a seguinte reflexão, que eu cito: “A verdade é que o amor é o derradeiro e mais alto objetivo que o homem pode aspirar. Então captei o sentido do maior segredo que a poesia humana e o pensamento humano têm a transmitir: a salvação do homem é através do amor e no amor. O homem pode suportar tudo, menos a falta de propósito. ”

Com isso chegamos ao nosso próximo aspecto a ser abordado. Propósito.

Querem saber de algo extraordinário? Todos nós temos sonhos.

Alguns se perdem dentro deles, esquecendo da vida real e vivendo em função de um mundo subjetivo, que, por mais maravilhoso que pareça, talvez não exista. Alguns simplesmente desistem, cedem às dificuldades, que nunca serão poucas, e formam aquela turma do “deixa disso”, “é hora de ser mais responsável”, como se o esforço de sonhar não fosse uma amostra de responsabilidade. Ainda, uma outra parcela de nós é capaz de nutrir as próprias aspirações e, lapidando as expectativas, buscar um futuro mais tenro, que se aproxime do sonho inicial. Mas, não muda o fato de que, em algum momento, todos nós temos sonhos.

Arrisco dizer que o sonho da maioria dos aspirantes ou já médicos seja o de simplesmente ser médico. Entretanto, também arrisco dizer que o sonho original, aquela semente que nasceu anos atrás, não era sobre ser médico. Talvez fosse sobre mudar o destino, e evitar que alguém morresse ou sofresse como alguém que nós amamos morreu ou sofreu. Talvez fosse sobre orgulhar nossos pais ou seguir um caminho que admirávamos em familiares ou em bons amigos.

Em suma, é simples de entender ao lembramos de Álvaro de Campos, por Fernando Pessoa “Tenho em mim todos os sonhos do mundo. ”

Mas, a vida é cruel. Enevoados por nossas dificuldades, enganados pelos derrotistas, municiados pelo erro. É muito fácil desistir de um sonho. Já pararam para pensar nisso? Que em determinado momento da vida de cada um de nós, sonhamos em mudar o mundo?

Sim, mudar o mundo.

Pois saibam que, mesmo que a nosso desejo seja tão antigo e diferente do que atingimos hoje, ainda sim, estamos mudando o mundo. Posto isso, gostaria de deixar uma pergunta para que possamos continuar:

Vocês já pararam para pensar qual é o sonho de nossos pacientes?

Quais eram ou são os sonhos deles, quando eles viajam horas de ônibus para uma consulta? Quando eles entram sorrindo em nosso consultório, após mais horas de espera na fila? Ou enquanto eles esperam amontoados nos corredores das emergências superlotadas? Quais são ou foram suas aspirações, enquanto estão deitados em um leito nos andares de nossos hospitais completamente sucateados? Será que, no brio do sofrimento, no pico da doença, naquele momento, em que eles muitas vezes se veem desprovidos de qualquer esperança, eles sonham em mudar o mundo?

Ou simplesmente sonham em viver? E nós? Quando nós começamos a conviver diariamente com o sofrimento, com a dor, com o desamparo, com o medo estampado nos olhos de nossos pacientes, com a morte? Nós continuamos sonhando em mudar o mundo?

Óbvio que sim. E o extraordinário é que não importa a resposta de cada um.

Afinal, nós pensávamos e sempre pensaremos em cuidar dessas pessoas, por isso estamos celebrando hoje. Pensaremos em salvar a vida, sim. Mas também em amenizar o sofrimento, em postergar a dor, em enganar a desesperança, em fortalecer o mundo deles.

Nosso mundo, o mundo que temos que mudar e que sempre sonhamos em mudar, desde a infância, por qualquer motivação que tenha nos guiado, sempre foi o paciente. Sempre foi sobre estender nossas mãos e aprimorar nossa técnica, sobre limpar as feridas e aquietar a dor, sobre emanar esperança, para assim, reduzir o medo. Para assim, mudar o mundo daquela pessoa. Esse é nosso propósito.

Medicina é um terreno argiloso. É uma aspiração digna de uma alma generosa, de um espirito sedento por empatia. Mas é uma arte que não serve à alma pequena. Pois a sensação de cura dos males, o poder de afugentar o medo dos pacientes e a mão tranquilizadora que passamos a ter, são sentimentos poderosos demais, que corrompem fácil demais, que fazem com que muitos de nós passem a se sentir Deuses, e esqueçamos que somos reles mortais a serviço de um bem maior, de um propósito maior.

Medicina é o paradoxo da virtude, afinal consiste em estar constantemente emanando vida e esperança, em um meio que nos recebe com desamparo e medo.

A verdade é que, quando confrontados com a morte, poucos ideais resistem. Um dos poucos pilares capazes de sustentar a dor e sensação de impotência que surge é a ideia de que a morte vem para todos os indivíduos, a ideia que a morte é espantosamente democrática.

Como Martin Luther King muito bem ilustra, e eu cito: “A morte não é uma aristocracia para umas poucas pessoas, mas uma democracia para todas elas. Morrem reis e mendigos, ricos e pobres, velhos e jovens. A morte vem para o inocente assim como para o culpado. Ela é o denominador comum irredutível de todos os homens.”

Obviamente, não é fácil, nada nunca foi fácil. O que nos remete ao último tópico de hoje. Resiliência.

“Lutar, buscar, achar e não se render.” Esse é o último trecho do poema “ Ulysses”, de um poeta vitoriano, que ilustra bem nosso último trecho.

Nós temos uma terrível tendência em nos acostumar.
Lembram quando pela primeira vez entramos nos laboratórios de anatomia?
Lembram quando ouvimos as histórias de vida que nossos pacientes ansiavam por compartilhar?
Quando nos emocionamos com a infinitude de conhecimento que a medicina nos proporcionava? Quando vimos pela primeira vez uma criança chegando ao mundo, e, pegando-a nos braços, nos sentimos quase tão frágeis quanto ela? Ou quando vimos a morte acontecer na nossa frente? Quando observávamos a vida esvair, o coração enfraquecer e descer sobre nós uma aura de sobriedade?
Como foi maravilhoso e assustador?

Mas, nós nos acostumamos.
Nos acostumamos com o cheiro de formol.
Com as histórias repetidas, com o excesso de conteúdo, nos acostumamos com a vida e com a morte.
Nós nos acostumamos com quão raro e belo é simplesmente existir.

Nós vamos falhar, vamos errar, vamos chorar sozinhos em casa, na sala de observação de emergência e onde mais consigamos. Mas é assim que tem que ser. Afinal, não existe tanto o que se aprender com o sucesso.

Mas nós temos de ser gratos pelo dom maravilhoso de curar que recebemos e construímos, temos que nos agarrar ao propósito de mudar o mundo de uma pessoa e temos que entender que somente sendo resilientes e tratando o sofrimento pessoal como aprendizado que seremos capazes disso.

Temos o costume de olhar somente para cima quando buscamos inspirações e ídolos. Olhar para nossos pais, para artistas, pensadores, escritores, políticos, figuras públicas de renome. Imaginando que a inspiração vem de alguma benção superior e divina, sendo que, na verdade, ela vem de nossos corações.

Por isso eu digo, nós, médicos, não devemos olhar para cima. Devemos olhar para a frente. Para nossos pacientes. Para esses seres humanos incríveis que nos ensinam, diariamente, tudo que devemos aprender. São eternamente gratos, nosso propósito de vida e um exemplo de resiliência.

Toda vez que algo impactante ocorre em nossa vida, como é o dia de hoje, temos a resposta humana de ponderar. Relembrar os bons momentos, ignorar os maus e, partindo dessa mistura, nos perder em medo do futuro e nostalgia. Digo-lhes, não percamos tempo com isso. Vençamos nosso dia-dia atribulado e infestado de más notícias, pois a vida passa rápido demais. Os dias estão escorrendo pelos nossos olhos.

Afinal, eu pergunto, qual a nossa grande ideia disso tudo? Onde nós pretendemos gastar todo nosso capital intelectual, social, toda nossa disposição e técnica adquirida. Em nós mesmos? O que pretendemos alcançar e lembrar daqui cinco, dez, vinte, cinquenta anos? Um homem cuja ambição seja maior que seu coração está fadado ao fracasso.

Realmente, talvez chegue um momento em que nós não sonhemos mais, talvez tenhamos nos tornados ingratos, talvez justamente por não ter tido a resiliência necessária. Aí então, nos será permitido olhar para cima. Nos será permitido desistir. Não por não termos tentado, não por termos errado, mas justamente porque, na profissão de vida que escolhermos, só iremos falhar plenamente quando tivermos escolhido deixar de viver para o próximo. E aí, já teremos deixado de viver há muito tempo.

Parabéns a todos nós, médicos. Continuem sonhando.

Veja também: ‘Uma homenagem da PEBMED a todos os médicos brasileiros’

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2 Comentários

  1. Parabéns Dr Vinicius, colega como voce nos impulsiona a viver mais e mais com sonhos e gratidão, pois A GRADIDÃO É O RELOGIO DO CORAÇÃO” JA NOS FALAVA O POETA. Este texto que vc escreveu retrata muito bem o que passa no coração daqueles MÉDICOS com letra maíscula que são chamados e trabalhados por longos anos de profissão. PARABENSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSS

  2. Parabéns pelo texto, foi ditado com o coração, parabéns a todos os futuros e já formados profissionais em medicina. A profissão que tem a vida de outro em suas mãos também tem a sua vida na mão do paciente é a dualidade de ser humano , de ser frágil, de poder ser útil, de ser profissional.

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