Pediatria

Dia Mundial da Sepse em 2021 sob o olhar da pediatria

Tempo de leitura: 4 min.

Anualmente, no dia 13 de setembro, é celebrado o “Dia Mundial da Sepse”, uma campanha com o objetivo de alertar  pesquisadores, profissionais de saúde, políticos e também a população, acerca do enorme fardo que a sepse traz em todas as populações. E 2021 tem a peculiaridade de ser o segundo ano da pandemia de Covid-19, com mais de 200 milhões de infectados, além de um número superior a 4 milhões de óbitos devido ao vírus SARS-CoV-2. Ademais, o transtorno causado pela Covid-19 aumenta ainda mais as estimativas de 11 milhões de mortes relacionadas à sepse por outras causas que ocorrem globalmente a cada ano. 

Leia também: Sepse em pediatria: veja o que recomenda a nova diretriz

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Sepse na pediatria

Em comemoração ao “Dia Mundial da Sepse”, o American Journal of Physiology-Lung Cellular and Molecular Physiology publicou, recentemente, o artigo A pediatric perspective on World Sepsis Day in 2021: leveraging lessons from the pandemic to reduce the global pediatric sepsis burden? de Schlapbach e colaboradores em nome do Pediatric Sepsis Data CoLaboratory (Sepsis CoLab) e da Global Sepsis Alliance (GSA). O objetivo foi ressaltar os impactos da sepse durante a pandemia de Covid-19 sob uma perspectiva da pediatria. 

O artigo ressalta que a Covid-19 representa uma das muitas etiologias que levam à sepse. Nos últimos 20 meses, a pandemia ampliou o efeito prejudicial da sepse, além da mortalidade e morbidade diretamente relacionadas não somente à saúde, mas também à crise econômica, desemprego em massa e transtornos sociais que criaram muitas incertezas em muitos países. Por outro lado, a pandemia desencadeou uma resposta global sem precedentes para conter, tratar e prevenir novas ondas de infecção por Covid-19. As medidas de saúde coordenadas e, muitas vezes, obrigatórias em resposta à Covid-19 foram uma novidade para os cuidados de saúde do pós-guerra: pela primeira vez, testemunhamos a extensão e a rapidez da colaboração para compartilhar dados em tempo real por meio da Internet. As instituições foram capazes de aprender com a experiência de outras e compartilhar informações sobre medidas de melhoria altamente eficazes. Esses esforços foram aprimorados ainda mais por pesquisas altamente produtivas indo da bancada para a beira do leito, variando de estudos sobre a genômica da interação patógeno-hospedeiro a ensaios pragmáticos que melhoraram dramaticamente as taxas de sobrevida da Covid-19. Por fim, os esforços científicos coordenados levaram à maior campanha de vacinação rápida da história, com mais de 4 bilhões de seres humanos recebendo uma dose de vacina até o momento. 

Dados da literatura mostram que, num primeiro momento, a mortalidade e morbidade diretas de pacientes de idades mais jovens por Covid-19 são consideravelmente menores do que da sepse por outras causas, com notáveis ​​exceções de crianças com comorbidades ou com síndrome inflamatória multissistêmica relacionada à Covid-19 (SIM-P). No entanto, tem havido um aumento de 84% dos casos de Covid-19 em crianças nos Estados Unidos em 1 semana e 45% das crianças infectadas não apresentam relatos de doenças subjacentes. Essas tendências são preocupantes e podem contribuir para um aumento da mortalidade e morbidade por sepse em crianças globalmente, o que é ainda mais agravado pela interrupção dos programas de imunização e pela insegurança alimentar em muitas partes do mundo. 

Saiba mais: Sepse em pediatria: como identificar a partir dos dados de rotina clínica?

Os pesquisadores salientam que há necessidade de se aproveitar os dados atualmente disponíveis em pediatria e de melhorar a coleta de dados. Embora a mortalidade por sepse em países desenvolvidos esteja diminuindo lentamente de uma forma geral, a mortalidade de crianças que precisam de internação em Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP) devido ao choque séptico permanece alta e varia amplamente, dependendo dos recursos. Os esforços obrigatórios de melhoria da qualidade no reconhecimento e tratamento da sepse resultaram em melhora impressionante dos desfechos, não apenas em adultos, mas também em pacientes pediátricos com idades entre 0 e 17 anos. Apesar dos benefícios claros que derivam de iniciativas sistemáticas de melhoria da qualidade da sepse, uma enorme variação persiste em relação aos serviços de saúde, regiões ou países que implementaram ou estão implementando tais medidas, novamente contrastando dramaticamente com as ações combinadas implementadas localmente para abordar a pandemia de Covid-19. Ademais, ainda há uma escassez de dados epidemiológicos recentes e apenas dados populacionais muito limitados sobre a incidência de sepse pediátrica na América do Sul, Ásia e África, onde o ônus devido à sepse permanece maior. Os desafios relacionados ao reconhecimento preciso da sepse são ainda mais acentuados em neonatos, onde o julgamento da disfunção orgânica apresenta dificuldades adicionais. Os pesquisadores reforçam que o desenvolvimento e a validação de novos critérios de sepse pediátrica estão atualmente sendo realizados pelo International Pediatric Sepsis Definition Taskforce, patrocinado pela Society of Critical Care Medicine. Outro ponto relevante que merece destaque é o fato de que, embora as precauções de contato e o distanciamento social tenham demonstrado reduzir os vírus circulantes e alterar a prevalência de outras doenças infecciosas em crianças, ainda não há relatos de uma avaliação epidemiológica sistemática de sepse em crianças durante a pandemia.

Os pesquisadores acrescentam a necessidade de pesquisas mais rápidas referentes à sepse em crianças, pois a base de evidências para o manejo da sepse pediátrica atualmente recomendado permanece fraca e os ensaios clínicos randomizados com tamanho de amostra suficiente são escassos. A pesquisa de sepse pediátrica deve se concentrar em aplicar uma nova metodologia de ensaio para avaliar a eficácia das iniciativas de melhoria da qualidade.

Conclusão

Por fim, os pesquisadores frisam que há necessidade de se desenvolver sistemas de educação em saúde para melhoria dos cuidados de crianças com sepse. Para implementar a resolução da Organização Mundial da Saúde (OMS) que confirma a urgência em se melhorar a prevenção, o diagnóstico e o tratamento da sepse, é imperativo desenvolver sistemas de educação de saúde que apliquem princípios de intervenções ágeis, orientadas por dados e eficazes para reduzir o estorvo da sepse em crianças.

Autor(a):

Referências bibliográficas:

  • Schlapbach LJ, Reinhart K, Kissoon N; Pediatric Sepsis Data CoLaboratory (Sepsis CoLab) and the Global Sepsis Alliance (GSA). A pediatric perspective on World Sepsis Day in 2021: leveraging lessons from the pandemic to reduce the global pediatric sepsis burden?. Am J Physiol Lung Cell Mol Physiol. 2021;321(3):L608-L613. doi:10.1152/ajplung.00331.2021
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Publicado por
Roberta Esteves Vieira de Castro

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