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Diarreia crônica: é tudo igual?

Tempo de leitura: 4 minutos.

Diarreia é melhor definida por passagem de fezes amolecidas com trânsito intestinal aumentado, sendo um sintoma comum em diversas alterações do trato gastrointestinal. É estimado que uma pessoa hígida tenha cerca de 01 episódio de diarreia aguda a cada 18 meses. Nesse contexto, o importante é tratar as complicações como a desidratação. Nesse artigo, vamos focar na diarreia crônica, que é um sintoma muito comum em consultas clínicas ou mesmo em ambulatórios especializados.

A diarreia pode ser classificada de acordo com sua duração. A diarreia aguda é auto limitada, cursando durante uma semana ou menos; tipicamente é causada por vírus e bactérias. Já a persistente dura cerca de 2 a 4 semanas. Dessa forma, a maioria dos estudos definem como crônica aquela que ocorre por mais de 4 semanas. No geral, afeta cerca de 3-5% da população.

A diarreia crônica pode ser dividida em seis categorias. Classificamos os pacientes de acordo com a história clínica, epidemiologia, história familiar, exame físico e exames complementares. As categorias são: osmótica; secretória; esteatorreia; inflamatória; motilidade e miscelânea.

CASO CLÍNICO: Uma causa rara de diarreia

Diarreia osmótica

É causada pela ingestão de substância não absorvível, que resulta na retenção de água no intestino, para manter o equilíbrio osmótico com o plasma. É essencialmente pós-prandial e melhora após a evacuação. Nesse grupo estão incluídas a ingestão de laxantes, de medicações, de alguns tipos de produtos dietéticos como o sorbitol, e disfunções enzimáticas, como da lactase e da frutase.

Diarreia secretória 

É uma diarreia aquosa de grande volume, que persiste mesmo após a evacuação. É confirmada após análise fecal, com alto volume de fezes com gap osmolar normal. Estão nessa classificação as medicações, supercrescimento bacteriano, má absorção de sais biliares (diarreia pós-colecistectomia, ressecção ileal) e infecções não invasivas (giardíase). Uma das causas de diarreia secretória são tumores secretores hormonais, como o carcinoide e VIPoma, mas são causas raras. Assim, uma investigação para esses tumores apenas por causa da diarreia pode causar ansiedade desnecessária para o paciente, além de aumento dos custos para o serviço de saúde.

Esteatorreia

Apresenta-se com fezes oleosas, que flutuam e possuem mal odor. Pode haver gordura flutuando. O paciente apresenta perda de peso. É confirmada com análises fecais e diário alimentar com avaliação de quantidade de gordura na dieta. Ocorre em pacientes com má digestão de gordura e/ou redução de sais biliares, como na cirrose ou ressecção ileal ou disfunção pancreática (pancreatite crônica).

Diarreia inflamatória

É sugerida a partir da presença de sangue ou pus nas fezes, acompanhada de dor abdominal ou febre. Pode ser confirmada pela presença de leucócitos ou proteínas leucocitárias (calprotectina) nas fezes ou em demonstração direta da inflamação da mucosa por endoscopia e histologia compatíveis. Ocorre em doença inflamatória intestinal, malignidade, mastocitose ou infecções (Clostridium difficile, citomegalovírus, Entamoeba histolytica, tuberculose).

Motilidade

As desordens de motilidade podem causar diarreia por trânsito intestinal acelerado, como ocorre em diarreias pós-vagotomia ou associadas à esclerodermia.

Miscelânea

Entram no grupo a síndrome do intestino irritável (SII), a diarreia funcional e a fictícia. As duas primeiras são as causas mais comuns de diarreia no ocidente. A SII é definida pelos critérios de Roma como dor abdominal que melhora após a evacuação, sendo mais comum em mulheres (3:1). A diarreia funcional é definida por passagem recorrente ou contínua de diarreia líquida sem dor abdominal ou desconforto; tem um volume menor e sem diarreia à noite. Já a fictícia trata-se de ingestão intencional de substâncias que provocam diarreia ou alteração de amostras de fezes para modificar o volume da amostra.

Como é possível perceber, nem todas as diarreias são iguais. Cabe ao médico assistente avaliar os melhores exames complementares para o diagnóstico. Devemos sempre lembrar que exames solicitados de forma desnecessária são desgastantes aos pacientes, tanto física quanto psicologicamente, e aumentam os custos do sistema de saúde pública e privada. Então, no nosso próximo texto, teremos os exames complementares e suas indicações.

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Autora:

Referências:

  1. Gastro 2013 APDW/WCOG Shanghai Working Party Report: Chronic diarrhea: Definition, classification, diagnosis. Lawrence R Schiller,* Darrell S Pardi,† Robin Spiller,‡ Carol E Semrad,§ Christina M Surawicz,¶ Ralph A Giannella,** Guenter J Krejs,†† Michael J G Farthing‡‡ and Joseph H Sellin§§
    Journal of Gastroenterology and Hepatology 29 (2014) 6–25
  2. Does colectomy predispose to small intestinal bacterial (SIBO) and fungal overgrowth (SIFO)? Satish S. C. Rao, MD, PhD1, George Tan, MD1, Hamza Abdulla, MD1, Siegfried Yu, MD1, Sebastian Larion, MD1 and Pornchai Leelasinjaroen, MD1. Rao et al. Clinical and Translational Gastroenterology (2018)9:146 DOI 10.1038/s41424-018-0011-x

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