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Dieta com restrição de FODMAP: uma estratégia no manejo da Síndrome do Intestino Irritável

Tempo de leitura: 3 minutos.

A Síndrome do Intestino Irritável (SII) é uma doença crônica do trato gastrointestinal caracterizada por episódios recorrentes de dor abdominal relacionados às evacuações e alteração do hábito intestinal (frequência das evacuações) e/ou alteração na forma das fezes – critérios de Roma IV.

A fisiopatologia da SII é complexa e multifatorial, incluindo hipersensibilidade visceral, alteração da sinalização intestino-sistema nervoso central e da microbiota intestinal, desregulação imune e fatores psicossociais. Apesar de ser uma das doenças mais comuns da gastroenterologia, a terapia tem sido insatisfatória devido a esse mecanismo multifatorial.

A maioria dos pacientes relatam que a alimentação é um dos gatilhos para os sintomas. Sendo assim, os estudos têm mostrado que a dieta com melhor eficácia no manejo dos pacientes com SII é a com restrição de carboidratos de cadeia curta de baixa fermentação (FODMAP – Fermentable oligosaccharide, disaccharide, monosaccharide and polyol).

Os carboidratos são extremamente importantes para a dieta humana e consistem em uma variedade de moléculas com diversas estruturas e funcionalidades. A sua digestão varia de acordo com a presença ou não de enzimas denominadas hidrolases. Os carboidratos não digeríveis incluem: polissacarídeos não amiláceos (PNA), amidos resistentes, oligossacarídeos e polióis. O grau de digestão e absorção dos carboidratos pode ser interferido pela presença de doenças do trato gastrointestinal (distúrbios de má absorção), variação interpessoal, tempo do trânsito intestinal e doses consumidas de carboidratos.

A dieta com restrição de FODMAP envolve a restrição de múltiplos oligossacarídeos fermentáveis ​​(frutanos, galacto-oligossacarídeos), dissacarídeos (lactose), monossacarídeos (frutose quando em excesso de glicose) e polióis (por exemplo, sorbitol, manitol).

A implementação clínica dessa dieta envolve um aconselhamento dietético aprofundado seguido de exclusão dietética de FODMAP por 4-8 semanas para testar a resposta individual à dieta. Quando a resposta sintomática for alcançada, esses carboidratos são então reintroduzidos gradativamente, um de cada vez, para determinar a tolerância e monitorar os sintomas, com o objetivo final de conseguir uma dieta diversificada e nutricionalmente adequada ao lado do controle de sintomas de longo prazo.

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Mas, como a dieta com restrição de FODMAP ajuda no controle dos sintomas? Para responder a essa pergunta é necessário saber o mecanismo de ação dos FODMAPs. Um dos dois mecanismos mais estabelecidos pelo qual os FODMAPs podem provocar sintomas é o aumento da água no intestino delgado, que foi claramente demonstrado em estudos com ressonância magnética e em ileostomizados.

O aumento da água intraluminal poderia induzir dor abdominal e edema, principalmente naqueles com hipersensibilidade visceral. O segundo mecanismo seria o acúmulo de gás no cólon. A disponibilidade de carboidratos de cadeia curta não digeríveis e / ou não absorvíveis leva ao acúmulo de gás, incluindo hidrogênio e metano, provocando distensão abdominal e contribuindo para os sintomas da SII. Outros mecanismos também foram propostos, entretanto ainda merecem mais estudos devido resultados conflitantes:

1) Os FODMAPs reduziriam o tempo de trânsito intestinal, o que diminuiria a absorção intestinal, aumentando a disponibilidade para fermentação colônica.
2) Redução da produção de ácidos graxos de cadeia curta, com controle da hipersensibilidade visceral.
3) Normalização da densidade de células produtoras de serotonina no cólon com 3-9 meses de dieta, o que estaria relacionado a modulação do tempo de trânsito e da sensibilidade visceral.

Um estudo randomizado, controlado, realizado pelo King’s College e publicado em 2017 avaliou os efeitos da dieta com restrição de FODMAP em pacientes com SII. Eles concluíram que essa dieta se associa com redução significativa dos sintomas em comparação ao placebo. Em contrapartida, a dieta com restrição de FODMAP mostrou reduzir a quantidade de espécies de bifidobacterias da flora intestinal, o que é particularmente ruim na SII devido a associação inversa com dor abdominal. Dessa forma, a suplementação de probióticos ricos em bifidobacterias potencializam os efeitos da deita.

Existem evidências convincentes para a eficácia clínica da dieta com restrição de FODMAP na SII, que representa um marco terapêutico para uma condição que historicamente tem sido difícil de tratar, seja com tratamento medicamentoso ou dietético. Há evidências crescentes na literatura do efeito positivo da dieta com restrição de FODMAP sobre o controle dos sintomas na SII. Entretanto, ainda precisamos de estudos adicionais, sobretudo relacionados aos efeitos da dieta a longo prazo.

Sendo assim, é importante administrar a dieta por um tempo curto estabelecido, monitorando o paciente de perto para avaliação dos sintomas e reintroduzindo determinados alimentos, a fim de se evitar a limitação desnecessária naqueles pacientes menos propensos a responder e evitar também deficiência de micronutrientes, não esquecendo da suplementação com probióticos sempre que possível.

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Autora:

Referências:

  • Staudacher HM, Whelan K. The low FODMAP diet: recent advances in understanding its mechanisms and efficacy in IBS. Gut 2017;66:1517-1527.
  • Staudacher, Heidi Maria et al. A Diet Low in FODMAPs Reduces Symptoms in Patients With Irritable Bowel Syndrome and A Probiotic Restores Bifidobacterium Species: A Randomized Controlled Trial. Gastroenterology , October 2017, Volume 153 , Issue 4 , 936 – 947
  • Gibson, Peter R. et al. Easing Concerns About the Low FODMAP Diet in Patients With Irritable Bowel Syndrome. Gastroenterology , October 2017, Volume 153 , Issue 4 , 886 – 887
  • Halmos, Emma P. et al. A Diet Low in FODMAPs Reduces Symptoms of Irritable Bowel Syndrome. Gastroenterology , January 2014, Volume 146 , Issue 1 , 67 – 75.e5

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