Quando nascemos somos expostos a uma pluralidade de microrganismos comensais ou patogênicos que passam a colonizar, entre outras áreas, nosso intestino, pele e cavidade oral, constituindo uma relação de simbiose e formando a nossa microbiota.1 A microbiota humana normal está diretamente relacionada aos processos de saúde e doença, uma vez que atua na proteção e defesa do organismo contra patógenos, além de operar na digestão, no metabolismo de fármacos, na síntese de vitaminas, no desenvolvimento e maturação do sistema nervoso e na regulação da imunidade.1
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Microbiota e cavidade oral
Na cavidade oral é possível identificar várias espécies de bactérias, vírus, fungos, arqueas, e protozoários comumente comensais que não causam prejuízos ao organismo.1 Essa infinidade de microrganismos interage entre si e com o hospedeiro, formando uma relação de simbiose essencial para a manutenção da saúde dos indivíduos como um todo.1 Normalmente, esses seres microscópicos não causam prejuízos ao nosso organismo, no entanto, podem torna-se agentes etiológicos ou agravadores de doenças orais e sistêmicas sob determinadas condições de imunossupressão ou diante de alterações na composição e tamanho das populações microbianas por algumas mudanças ambientais. Nessas situações ocorre a disbiose, levando a modificação da barreira da mucosa oral,3 desequilíbrio entre as bactérias benéficas e patogênicas, e consequentemente prejudicando a saúde do hospedeiro.
Doenças da cavidade oral X disbiose
Cárie e disbiose
As principais condições patológicas da cavidade bucal associadas a disbiose são doenças periodontais, como gengivite, periodontite e cárie dentária.1 A cárie dentária é uma das condições patologias orais mais comuns. Etiologicamente está relacionada a elevada ingestão de hidratos de carbono, associada a excessiva produção de ácidos por bactérias da microbiota oral,2 principalmente pelos Streptococcus mutans, considerado o principal agente envolvido no desenvolvimento dessa condição.1 Entretanto, estudos não descartam outras espécies e mostram que os gêneros Lactobacilos, Propionibacterium, Bifidobacterium e Scardovia também podem agir na sua formação.1
Doenças periodontais e disbiose
Doenças periodontais são distúrbios inflamatórios multifatoriais infecciosos advindos da apresentação do tecido periodontal à ação de bactérias aderidas à superfície dentária.4 Os principais agente patológicos são Porphyromonas gingivalis e a Porphyromonas intermedia, produtoras de toxinas que desencadeiam reações inflamatórias nas regiões adjacentes.1 A gengivite e a periodontite são as doenças periodontais mais comuns,4 sendo a primeira reversível e caracterizada por inflamação, edema e rubor gengival como resultado da resposta inflamatória do organismo diante do biofilme que vai sendo formado na margem da gengiva.2 Se não tratada prontamente, a gengivite pode progredir para periodontite, uma inflamação crônica, por sua vez irreversível,2 oriunda de modificações no microbioma oral que desencadeiam desregulações imunitárias4 e acometem os tecidos de suporte do dente,2 podendo ocasionar perda progressiva de tecido ósseo periodontal.4
Outras condições patológicas X disbiose
A disbiose oral também pode estar relacionada a outras condições não tão comuns, tais como: actinomicose, estomatite aftosa oral, mucosite oral, eritema linear gengival, angiomatose bacilar e celulites pela ação de bactérias.1 Também, a disbiose oral pode provocar desordens sistêmicas quando os microrganismos atingem a corrente sanguínea, causando complicações em outros locais2 pela lesão da mucosa bucal por traumas, cirurgias ou doenças periodontais e a disseminação desses patógenos oportunistas através do corpo podem acabar desencadeando infecções respiratórias, cardíacas e cerebrais.1
Tratamento
O tratamento da cárie consiste na remoção da mesma e restauração do esmalte dentário. O tratamento das doenças periodontais consiste no debridamento mecânico para eliminação dos patógenos. Entretanto, quando a recolonização ocorre, a terapia periodontal de suporte é necessária, as vezes durante toda a vida. O problema é que pode haver necessidade de antibioticoterapia recorrente, o que suscita a preocupação com a resistência microbiana aos antibióticos.
Para manter a saúde bucal, uma variedade de produtos probióticos têm sido estudados, alguns dos quais ajudaram a diminuir as contagens de S. mutans, reduzir placas dentárias e melhorar a saúde gengival. A viabilidade e estabilidade de probióticos disponíveis comercialmente precisam ser melhor estudados para ser regulamentado.
*Artigo escrito em parceria com: Izabella Lívian dos Santos Filho – estudante do 6º período de Medicina na FAMINAS-BH.
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