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Disfagia secundária à clozapina: uma relação negligenciada

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Disfagia é a sensação subjetiva de dificuldade de deglutir. Do grego dys: com dificuldade; phagia: comer. Várias são as causas de disfagia, entre elas desordens neurológicas, neuromusculares, obstrução esofágica ou anatômica e disfagia induzida por drogas.

O quadro abaixo mostra possíveis causas de disfagia (quadro 1).

Quadro 1: Etiologias das disfagias

Desordens neurológicas

Desordens neuromusculares Obstrução esofágica ou anatômica

Induzida por drogas

Acidente Vascular cerebral

Doença de Parkinson

Esclerose múltipla

Paralisia cerebral

Tumores  cerebrais

Distrofia muscular

Doenças do colágeno

Distúrbios motores primários

Miastenia gravis

Polimiosite

Bócio tireoidiano

Divertículo de Zenker

Osteófito

Pós-radiação

Tumores

Disfagia como complicação da ação terapêutica

Disfagia por lesão direta dos medicamentos

Disfagia como efeito colateral

 

Os três primeiros tipos são bem conhecidos, porém a disfagia causada por drogas normalmente é esquecida. Drogas com ação sobre a musculatura estriada têm potencial de causar disfagia, em especial as usadas em anestesia. Drogas que leva a xerostomia, também podem levar a disfagia, entre elas citam-se os inibidores seletivos de serotonina e os antidepressivos tricíclicos.

Vários medicamentos podem levar a disfagia por lesão direta na mucosa esofágica. Neste grupo devem-se destacar os medicamentos contendo ácido (clidamicina, doxaciclina, tetraciclina, ácido ascórbico, ácido acetilsalicílico), os contendo ferro e os anti-inflamatórios não esteroides. Disfagia como efeito colateral pode ocorrer com drogas com ação anticolinérgica ou antimuscarínica, tais como atropina, homatropina ou escopolamina.

Leia também: Disfagia: veja os sintomas, complicações e dicas para prevenir

Disfagia secundária à clozapina

Neste artigo, gostaríamos de destacar os antipsicóticos ou neurolépticos que bloqueiam receptores dopaminérgicos, que podem resultar em síndrome extrapiramidal (similar ao Parkinson) ou discinesia tardia.

O que motivou o presente artigo foi o retardo diagnóstico de dois pacientes que usaram clozapina e desenvolveram sintomas de disfagia e sialorreia. Quadro clínico que era justificado pelo quadro esquizofrênico de base. Estes pacientes evoluíram para aperistalse esofágica. É fundamental destacar o desconhecimento por parte dos clínicos, gastroenterologistas e dos psiquiatras desta relação.

O uso da clozapina pode estar associado a distúrbios de deglutição, constituindo em um achado raro, porém que pode ter curso dramático. Esta droga atua como antagonista em receptores serotoninérgico (5-HT2A), dopaminérgicos (D1, D4), alfa-adrenérgicos, colinérgicos e histamínicos. A clozapina é considerada um antipsicótico atípico, sendo um dos fármacos mais utilizados no tratamento da esquizofrenia por atuar no controle tanto dos sintomas positivos, quanto negativos; resultando em redução de mortalidade e em manejo de ideações suicidas.

Mais da autora: Candidíase de repetição: uso de probióticos como terapia complementar

A esquizofrenia é um dos transtornos psiquiátricos mais graves e, muitas vezes, de complexo manejo terapêutico. Alucinações, delírios, embotamento afetivo e déficits psicossociais são os sintomas mais frequentes.

Em dois casos clínicos por nós atendidos, a associação entre disfagia, aperistalse e a terapêutica com clozapina foi aventada. Em ambos, a manometria esofágica confirmou o diagnóstico de aperistalse e o fármaco foi substituído. Em um deles houve regressão da disfagia e da sialorreia. A peristalse retornou a normalidade após um ano da retirada da droga. O outro paciente foi a óbito por asfixia por obstrução mecânica por alimento após três meses do diagnóstico.

A figura 1 mostra a aperistalse em uso de clozapina e a figura 2 melhora da peristalse com a retirada do medicamento.

Figura 1: aperistalse em uso de Clozapina | Fonte: banco de imagens da autora.
Figura 2: peristalse com a retirada da clozapina | Fonte: banco de imagens da autora

Concluímos que a aperistalse secundária ao uso de clozapina é rara e pouco conhecida por psiquiatras ou gastroenterologistas, demonstrando a relevância deste relato. O conhecimento desse efeito colateral é de extrema importância para que o diagnóstico seja precoce e para que as complicações e a mortalidade sejam evitadas. A formulação de um plano terapêutico com equipe multidisciplinar é necessária para a melhor abordagem do paciente esquizofrênico.

Autores:

Em conjunto com: Lucas Brandão Damasceno Góes. Acadêmico do 9° período de Medicina da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais.

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Um comentário

  1. Avatar
    Christiane Bonoto Baptista

    Eu como fonoaudióloga, atuante na área da disfagia fico imensamente grata pela pesquisa e divulgação do seu trabalho. Obrigada!

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