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Disfunção cognitiva é indício importante em casos de esclerose múltipla

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De acordo com a National Multiple Sclerosis Society, mais da metade dos pacientes com esclerose múltipla poderão desenvolver problemas com a cognição. Aliás, esse pode ser o primeiro sintoma de esclerose a aparecer.

“Combinando a clínica, exames de imagem tradicionais e neuropsicológicos, é possível avançarmos no diagnóstico precoce, garantindo uma melhor qualidade de vida para os pacientes – dado que hoje temos à disposição tratamentos transformadores do curso natural da doença”, explica Carina Spedo, neuropsicóloga, PhD em neurociências pela FMRP-USP.

Nas doenças desmielinizantes, as lesões cerebrais características podem ser sutis no primeiro momento, e o paciente pode não apresentar qualquer comprometimento físico e motor. Porém, é possível que já haja algum prejuízo cognitivo.

É importante lembrar que durante muito tempo foi pensado que a esclerose múltipla não afetava a cognição. Mas hoje sabemos que sim, mas de uma maneira mais sutil, que o Alzheimer e outras demências.

Segundo a especialista, os pacientes podem vivenciar dificuldades no planejamento e organização, além de problemas de memória, sentir-se lento para pensar ou raciocinar. “Esses sintomas devem ser objetivamente mensurados através de testes específicos e associados às dificuldades enfrentadas no dia a dia”, complementa Carina Spedo, que também é pós-doutora na FMRP-USP e coordenadora do Seguimento de Neuropsicologia do Serviço de Neurologia Cognitiva-Comportamental da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

Sinais de alerta

Além da disfunção cognitiva, outros primeiros sinais da esclerose múltipla podem ser alterações de humor, diminuição da velocidade de processamento de informações, falta de atenção/memória, e habilidade reduzida de recordar sequências numéricas e organizar materiais. Esses sinais são, geralmente, imperceptíveis por grande parte dos pacientes e familiares, principalmente no início da enfermidade.

Os primeiros sinais de disfunção cognitiva podem ser sutis – quando notados, primeiro pode ser pela pessoa com esclerose múltipla ou por um membro da família ou colega. Geralmente, a fadiga, as dificuldades cognitivas e emocionais podem comprometer o emprego, o desempenho de certas atividades sociais e diárias.

Para Carina Spedo, apesar do comprometimento cognitivo na esclerose múltipla possuir taxas de prevalência de 43% a 70%, e ser um importante aliado no diagnóstico precoce e na qualidade de vida para o paciente, mais estudos são necessários.

Estudo inédito avalia as funções cognitivas dos pacientes

Uma breve bateria de testes foi desenvolvida para avaliar as funções cognitivas mais frequentemente comprometidas dentro da esclerose múltipla.

“Esse estudo consistiu na tradução, adaptação e normatização de uma bateria neuropsicológica criada pela Sociedade Nacional Americana de Esclerose Múltipla para que esses testes pudessem ser usados também na amostra populacional brasileira”, explica Luciana Azevedo Damasceno, psicóloga, terapeuta cognitivo-comportamental e colunista da PebMed.

A especialista foi treinada pelo professor Benito Damasceno, do Departamento de Neurologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) para captar sujeitos e colaborar com o estudo multicêntrico representando o departamento de pós-graduação em Neurologia e Neurociências da Universidade Federal Fluminense (UFF).

Foram recrutados 285 indivíduos saudáveis de dez estados brasileiros que passaram por avaliações com neuropsicólogos treinados. Graças a esse estudo, os pesquisadores conseguiram uma bateria de testes com maior especificidade para o rastreio de deficiências cognitivas nos pacientes portadores de esclerose múltipla.

Os dados normativos obtidos permitiram um uso mais amplo da Breve Bateria Repetitiva de Testes Neuropsicológicos na prática e na pesquisa, fornecendo normas para os dados discretos e contínuos.

Dificuldades no diagnóstico

A categoria médica afirma que é difícil diagnosticar uma enfermidade como a esclerose múltipla, que pode ter altos e baixos, com surtos e remissões. Mas, com a ressonância magnética, os exames laboratoriais e do liquor, é possível excluir outras doenças que podem simular a esclerose múltipla. 

“Além dos desafios enfrentados pelo clínico para diagnóstico, o próprio paciente enfrenta dificuldades para identificar que está com a doença. Isto porque, no começo, os sintomas podem se manifestar de forma sutil através de sintomas transitórios e de curta duração. Assim, o paciente não dá a devida importância aos sinais, pois não imagina que está doente.  A pessoa pode passar dois ou três anos apresentando pequenos sintomas, sem dar importância a esses sinais, porque em três ou quatro dias eles desaparecem. Com o passar do tempo, um sintoma de maior magnitude surge e só então um médico é procurado”, alerta Carina Spedo.

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É importante frisar em pacientes jovens que apresentam alterações cognitivas isoladamente, sem outros sintomas neurológicos, há vários outras causas possíveis para pensar antes da esclerose múltipla, como depressão, estresse e ansiedade.

“É muito mais fácil pensar em disfunção cognitiva na esclerose múltipla no paciente que já tem esse diagnóstico fechado. Isso porque é difícil para quem ainda tem ainda esse diagnóstico começar com um quadro de sintomas cognitivos, mais mentais, puro e simples. E não um outro sistema neurológico, com tontura, parestesia, etc. Normalmente, eles apresentam outros sintomas sim, juntamente com a disfunção cognitiva”, ressalta Henrique Cal, neurologista dos Hospitais Pró-Cardíaco e Copa D’or, coordenador do ambulatório de Neuroimunologia da UFF e colunista da PebMed.

A doença hoje

Estima-se que haja 2,5 milhões de pessoas com esclerose múltipla. No Brasil, a prevalência estimada é de 1,36 a 20/100 mil habitantes.

As manifestações iniciais da doença ocorrem predominantemente em adultos jovens. A média de idade na qual se inicia a doença é de 30 anos. Trata-se, portanto, de faixa etária na qual as pessoas estão economicamente ativas.

Embora a esclerose múltipla seja menos prevalente do que outras doenças crônicas, diversos estudos demonstraram que os custos com o seu tratamento são bastante elevados.

A idade média de aposentadoria por invalidez devido à esclerose múltipla no Brasil é de 39 anos. Cerca de 70% dos pacientes se aposentam mais cedo em decorrência da esclerose múltipla e 50% ficam desempregados após cinco anos do início da doença.

Aos 15 anos de doença, 67% desses pacientes estão desempregados ou aposentados por incapacidade. Tal fato ocorre devido à significativa piora na qualidade de vida, fazendo com que as taxas de desemprego aumentem devido à progressão e gravidade dos problemas motores e cognitivos. 

Sabe-se que 75% dos pacientes brasileiros com esclerose múltipla fizeram ou fazem uso do Sistema Único de Saúde (SUS). Os custos anuais diretos ao governo brasileiro são, em média, é de R$ 60 mil por paciente.

As terapias modificadoras de doença (TMDs) representam cerca de 90% dos custos totais por paciente. Essas TMDs não têm efeito no tratamento das sequelas e nem têm papel direto na prevenção do desemprego dos pacientes.

O tipo de intervenção recebida da parte da equipe multidisciplinar e o percentual dos centros que realizam o monitoramento da disfunção cognitiva no Brasil não são conhecidos e não existe ainda um consenso sobre a técnica. 

Vantagens da reabilitação cognitiva

A reabilitação cognitiva tem como vantagens o custo reduzido para o tratamento de sequelas, orientações para ajustes no ambiente de trabalho e nas atividades de vida diária. 

Estudos demonstraram que as estratégias de enfrentamento dos distúrbios cognitivos e treinamentos de estimulação cognitiva, associados ao monitoramento e ajustes no ambiente de trabalho, constituem-se medidas que se relacionam à redução das demissões, mantendo os pacientes ativos no emprego por mais tempo. 

A reabilitação cognitiva também promove ganhos significativos em estudos relacionados ao envelhecimento e ao desempenho neuropsicológico e das atividades de vida diária, com efeitos mantidos por espaços de tempo de até dez anos pós-tratamento.

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Referências:

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