Gastroenterologia

Doença de Crohn: novo escore para predição de terapia biológica precoce

Tempo de leitura: 3 min.

A doença de Crohn é uma doença inflamatória intestinal, a qual pode acometer qualquer segmento do tubo digestivo, de etiologia ainda não definida, recidivante, caracterizada por diarreia, dor abdominal e perda de peso. A cicatrização da mucosa em resposta à terapêutica é a meta a ser alcançada na doença de Crohn, sendo os tratamentos mais utilizados corticosteroides, imunomoduladores e biológicos. A identificação precoce de pacientes que irão atingir a remissão endoscópica com a terapia imunossupressora convencional, sem necessidade de terapia biológica é um dos temas mais estudados e controversos entre especialistas em doenças inflamatórias intestinais. Recentemente, Con e colaboradores desenvolveram um escore clínico capaz de guiar a seleção do tratamento inicial de portadores de doença de Crohn e predizer a necessidade de terapia biológica precoce.

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Metodologia

Foi construído um escore preditivo de falha a imunomodulador a partir de um modelo derivado de análise multivariada de dados de uma coorte retrospectiva de 2 centros terciários da Austrália, todos os pacientes com doença de Crohn virgens de biológico, ≥ 18 anos, que iniciaram terapia com imunomodulador entre 01/01/2014 e 31/12/2016, foram incluídos. A falha a terapia imunossupressora foi definida como: desenvolvimento de nova estenose, abscesso ou fístula; necessidade de cirurgia; necessidade de escalonamento de tratamento para terapia biológica.

Resultados

Foram incluídos 410 pacientes (idade média 37 anos, 47% homens, com duração média da doença de 4,7 anos), sendo observada falha a terapia imunomoduladora em 229 (56%) deles (tempo médio até falha de 16 meses). Fatores preditores independentes de falência terapêutica a terapia convencional foram: proteína C reativa ≥ 5 mg/L (HR 3,96), albumina < 3,5 g/dL (HR 1,90), comportamento complexo da doença (HR 1,82), idade < 40 anos (HR 1,38), localização ileal (HR 1,59) e uso de corticosteroides ao diagnóstico (HR 1,35). Após ajuste estatístico, apenas PCR e albumina aferidos nos três meses anteriores ao imunomodulador permaneceram no modelo, resultando no índice CICA (Crohn’s Immunomodulator CRP-Albumin index). Esse índice demonstrou boa performance discriminativa em 12, 24 e 36 meses, com área sob a curva de 0,84, 0,83 e 0,81, respectivamente.  O modelo teve melhor desempenho entre pacientes com doença colônica ou ileocolônica versus doença ileal (0,87 x 0,79). Pacientes classificados em baixo risco de falha pelo índice CICA apresentaram somente 2% de falha em 1 ano e 18% em 3 anos. Esses indivíduos poderiam, assim, se beneficiar do uso de imunomoduladores em monoterapia no início do seu tratamento. Por outro lado, aqueles pacientes classificados como alto risco pelo índice CICA falharam em 47% dos casos com 12 meses e 85% com 36 meses, sugerindo então que poderiam usufruir de terapia biológica mais precocemente.

Saiba mais: Escore de avaliação nutricional ajuda a prever complicações de cirurgias hepatobiliopancreáticas?

Esse índice pode ser facilmente aplicado na prática clínica, uma vez que utiliza parâmetros laboratoriais aferidos rotineiramente em pacientes com doença de Crohn. Dessa forma, pode-se direcionar melhor o tratamento desses indivíduos, conforme demonstrado no fluxograma abaixo, proposto pelos autores do artigo.

Risco de falha à terapia imunossupressora convencional de acordo com o índice CICA

Meses Baixo risco Moderado risco Alto risco
12 2% 10% 47%
24 7% 27% 72%
36 18% 47% 85%

Autor(a):

Referências bibliográficas:

  • Con D, Parthasarathy N, Bishara M, et al. Development of a Simple, Serum Biomarker-based Model Predictive of the Need for Early Biologic Therapy in Crohn’s Disease. J Crohns Colitis. 2021; 15(4):583-593. doi: 10.1093/ecco-jcc/jjaa194
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Publicado por
Guilherme Grossi Cançado

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