Pediatria

Doença de Kawasaki: podemos avaliar o risco de aneurismas coronarianos só a partir dos marcadores inflamatórios?

Tempo de leitura: 3 min.

A doença de Kawasaki, uma vasculite inflamatória sistêmica que pode complicar com o desenvolvimento de aneurismas de artérias coronárias, não é muito comum no Brasil, mas apresenta alta frequência nos países orientais. O risco de sequelas cardiovasculares graves leva pesquisadores do mundo todo a tentarem identificar quais são os fatores prognósticos envolvidos com essa entidade clínica. 

Um dos marcadores inflamatórios mais utilizados na avaliação da doença de Kawasaki é a proteína C reativa (PCR). Esse marcador costuma estar muito elevado nas crianças com a doença, e pode auxiliar no estabelecimento do diagnóstico quando todos os critérios não são preenchidos, ou seja, na doença de Kawasaki incompleta. Também é utilizada como preditor da refratariedade da doença ao tratamento, que é feito com a imunoglobulina humana (IVIG). 

Leia também: Uso da ciclofosfamida no tratamento de doença de Kawasaki (DK) refratária com AAC

Apesar disso, a PCR não está estabelecida como marcador prognóstico para a mais grave complicação da doença de Kawasaki, os aneurismas de coronárias, o que levanta dúvidas na comunidade científica sobre seu real valor como ferramenta prognóstica. 

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Resultados de um novo estudo sul-coreano

O artigo The occurrence of coronary artery lesions in Kawasaki disease based on C-reactive protein levels: a retrospective cohort study, publicado na revista Pediatric Rheumatology, tenta elucidar exatamente esses questionamentos. A partir de um estudo retrospectivo realizado com dados de crianças com doença de Kawasaki no período de 2015 a 2017 na Coreia do Sul, os autores conseguiram avaliar a relação entre a PCR e o desenvolvimento de aneurismas de artéria coronária, além de outros fatores prognósticos. 

Foram incluídos 9.131 pacientes, sendo estes divididos entre aqueles com baixa PCR (< 3 mg/dl) e alta PCR (≥ 3 mg/dL) logo antes da realização do tratamento. Foram avaliados também aspectos ecocardiográficos durante a fase aguda da doença (logo após o tratamento) e no período de pós-convalescença (cerca de 8 semanas após). 

Os autores encontraram que os pacientes com maiores níveis de PCR apresentaram maior período total de febre, maior quantidade de sintomas, maior leucocitose e maiores alterações de transaminases. Já o grupo com menor PCR apresentou um número maior de pacientes com doença incompleta e que receberam menos IVIG. 

A PCR não é fator decisivo para formação de aneurismas coronarianos

De forma bastante interessante, os autores encontraram uma ocorrência de aneurismas coronarianos maior no grupo de pacientes com critérios incompletos para Kawasaki, e nesse grupo, a ocorrência de aneurismas foi maior nos pacientes com menores índices de PCR. Outros fatores de risco para o desenvolvimento de aneurismas foram o período de febre (quanto maior o período, maior o risco de aneurismas) e a não responsividade ao uso da IVIG. 

Esse estudo traz uma importante mensagem: os aneurismas de artéria coronariana podem ocorrer em pacientes com doença de Kawasaki incompleta, e mesmo naqueles pacientes com baixos valores de PCR. O diagnóstico da doença de Kawasaki em pacientes com doença completa é relativamente fácil; já nos pacientes com doença incompleta, pode ser desafiador, principalmente quando os marcadores inflamatórios não mostram muitas alterações. Sendo assim, a chance desses pacientes não receberem tratamento adequado pode ser grande, o que influencia muito no prognóstico. 

Saiba mais: Uso de corticoide na doença de Kawasaki

Conforme os autores descrevem no artigo, “(…) nós acreditamos que o nível sérico da PCR antes do tratamento com IVIG é insuficiente para predizer complicações arteriais coronariana.” No entanto, isso não diminui a importância desse marcador para o diagnóstico e avaliação de pacientes com doença de Kawasaki. 

Autor(a):

Referências bibliográficas:

  • An HS, Kim GB, Song MK, et al. The occurrence of coronary artery lesions in Kawasaki disease based on C-reactive protein levels: a retrospective cohort study. Pediatr Rheumatol. 2021;19(78). doi: 10.1186/s12969-021-00566-6
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Publicado por
Dolores Henriques

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