Coronavírus

Duas doses da CoronaVac neutralizam ação da variante Ômicron? 

Tempo de leitura: 6 min.

Segundo um estudo preliminar divulgado pelo Instituto Butantan, que produz a vacina no Brasil em parceria com a chinesa Sinovac e publicado no periódico científico Emerging Microbes and Infections no dia 10 de janeiro, apenas duas doses da vacina CoronaVac seriam capazes de neutralizar a ação da variante Ômicron, com capacidade igual ou superior à da vacina da Pfizer para a mesma linhagem. 

O estudo foi conduzido por cientistas da Universidade Fudan e da Universidade de Medicina Tradicional Chinesa, ambas de Xangai, da Universidade Jinan, em Guangdong, e da Universidade de Hong Kong. 

A divulgação repercutiu negativamente entre integrantes da comunidade científica, que apontam que os dados são insuficientes e estão sendo mal interpretados. 

Como foi realizado o estudo 

Para a análise foram geradas partículas semelhantes ao vírus (chamada de pseudovírus) contendo a proteína Spike das sete cepas do novo coronavírus: as variantes de preocupação: Ômicron, Alfa, Beta, Gama e Delta, além das duas de interesse Lambda e Mu. 

Foram avaliadas a sensibilidade dessas variantes aos anticorpos neutralizantes induzidos por infecções prévias e duas doses de vacina inativada (CoronaVac). 

Dezesseis amostras de plasma convalescentes foram coletadas de pacientes recuperados de Covid-19 no dia da alta de janeiro a março de 2020 em Xangai. 

O ensaio de neutralização revelou que todas as amostras mostraram reduções médias de 10,5 vezes da neutralização contra a variante Ômicron, 2,2 vezes contra a Alfa, 5,4 vezes contra a Beta, 4,8 vezes contra a Gama, 2,6 vezes contra a Delta, 1,9 vez contra a Lambda e 7,5 vezes contra a variante Mu. 

Para comparar a sensibilidade do parental e das variantes aos anticorpos neutralizantes induzidos pela vacinação, os cientistas analisaram depois plasmas de 20 outros voluntários que tinham tomado as duas doses da vacina CoronaVac. Todas as amostras foram coletadas no dia 14 após as segundas doses de ConoVac de maio a junho de 2021. 

A análise identificou a redução de neutralização média de 12,5 vezes sobre a Ômicron; de 2,9 vezes contra a Alfa; 5,5 vezes contra a Beta; 4,3 vezes contra a Gama; 3,4 vezes contra a Delta; 3,2 vezes contra a Lambda; e 6,4 vezes contra a variante Mu. 

“Os testes indicaram que a neutralização pela Ômicron é 12,5 vezes pior do que a neutralização da cepa original de Wuhan, para a qual a vacina foi desenvolvida. Essa diferença de 1 para 12 é pouca, sendo considerado um índice pequeno de perda de efetividade”, explicou o pesquisador José Eduardo Levi, da Universidade de São Paulo (USP), em entrevista à CNN Brasil. 

De acordo com o especialista, a Ômicron tem apresentado uma maior capacidade de escape da resposta imunológica induzida pelas vacinas, que se reflete em um maior percentual de infectados que foram imunizados. No entanto, os imunizantes permanecem eficazes na prevenção de casos graves, hospitalizações e óbitos pela enfermidade. 

Segundo os autores do trabalho, a redução de neutralização média de 12,5 vezes da CoronaVac diante da variante Ômicron, é melhor do que os trabalhos publicados sobre duas doses de vacinas de RNA mensageiro, nas quais foi observada uma diminuição de 22 vezes e de 30 até 180 vezes da neutralização em imunizados com a Pfizer, citando outros estudos realizados. 

Mesmo assim, os autores destacam que a comparação dos estudos da CoronaVac com a Pfizer pode ter problemas, uma vez que a diferença encontrada entre eles pode ser atribuída a ensaios diferentes ou amostras diferentes. 

“As vacinas inativadas induzem um repertório maior de imunidade contra a Covid-19. Recentemente, há evidências científicas de que a capacidade de neutralização da CoronaVac contra a variante Ômicron é maior do que a capacidade das vacinas baseadas em proteína S. E a consequência é que as vacinas inativadas, como a CoronaVac, resistem mais às variantes”, disse Dimas Covas, presidente do Instituto Butantan, em entrevista à Agência Brasil.

Saiba mais: Covid-19: A dose de reforço da vacina como aposta contra a variante Ômicron

Repercussão 

Segundo especialistas da área, os dados não estão completos por se tratar de um estudo preliminar e o número de amostras não apresentar significância estatística, com alcance limitado. 

Outra observação é que, ainda que registre boa neutralização do vírus, não compensaria o número total de anticorpos produzidos pela vacina da Pfizer. 

Além disso, não existe uma ligação direta entre as análises em ambiente controlado de um laboratório com a vida real e a efetividade das vacinas no mundo real para a prevenção de doenças, em especial para a prevenção de formas graves. 

Na opinião da infectologista do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF/UFRJ), Isabel Cristina Melo Mendes, é preciso ter cautela  para comparar a eficácia das vacinas entre as diferentes variantes e entre os diferentes tipos de imunizantes. Embora sejam úteis por auxiliar a determinar plausibilidade para uma hipótese, os estudos in vitro não podem ser “diretamente extrapolados para a vida real”.  

“Diversos fatores devem ser levados em conta quando consideramos o impacto de uma vacina na população. Para o caso da Covid-19, não somente o papel na redução da infecção, mas nas hospitalizações e óbitos também deve ser considerado. Tais efeitos não estão diretamente relacionados aos resultados de ensaios de neutralização de anticorpos, mesmo que esses sejam, até o atual momento, tidos como correlatos de imunidade”, esclareceu a especialista, que também é colunista da PEBMED.  

Isabel Mendes também ressaltou a questão da comparabilidade entre os estudos. Diferentes metodologias, tamanhos de amostra, população selecionada, entre outros aspectos podem fazer com que diferentes ensaios, apesar de poderem ter os mesmos objetivos, sejam muito heterogêneos entre si e, com isso, não permitem uma comparação direta adequada. 

“Os dados do estudo citado mostram redução da neutralização pelos anticorpos dos indivíduos vacinados em comparação com a cepa selvagem, mas que, exceto para a Ômicron, é uma redução semelhante entre as diferentes variantes. Como já discutido acima, comparações com resultados de outros imunizantes são difíceis de serem realizadas quando se considera diferenças metodológicas. Além disso, o impacto que essas diferenças podem ter na redução de hospitalizações e óbitos só pode ser adequadamente avaliado em estudos de vida real”, concluiu a infectologista.

*Esse artigo foi revisado pela equipe médica da PEBMED 

Referências bibliográficas:

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Publicado por
Úrsula Neves

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