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É mito ou verdade: dieta vegetariana como fator protetor na doença renal crônica

Tempo de leitura: 5 minutos.

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Já se sabe, e não é de hoje, da relação entre a quantidade de proteínas ingeridas na dieta vegetariana e a evolução da doença renal crônica (DRC). Porém, o que se discute de novo nesse trabalho é como os diferentes tipos de dieta, ou melhor, a qualidade do que se come desencadeia (ou não) esse quadro.

Uma alimentação baseada em verduras, legumes e carboidratos está associada à diminuição de fatores de risco relacionados a doença renal, a saber, componentes inflamatórios e de estresse oxidativo, além de toxinas urêmicas. Por conseguinte, em um aforismo bem básico, apesar da falta de estudos que discutam diretamente esse tópico em especial, se a dieta vegetariana reduz o risco de hipertensão, diabetes tipo 2 e síndrome metabólica; as consequências renais dessas doenças devem ser menos prevalentes entre essa população.

Atenção ao fato de que esse trabalho utiliza o termo “vegetariano” para incluir todas as formas de dieta vegetariana, desde o ovo-lacto-vegetariano ao estrito vegano. 

Vamos entender na sequência os motivos que fundamentam o raciocínio supracitado:

Vegetarianismo e a Pressão Arterial (PA)

Estudos recentes demonstram o impacto da dieta vegetariana na redução de valores de pressão sistólica (até cerca de 5 mmHg) e diastólica (até cerca de 3 mmHg). Essa relação pode ser explicada pela redução de peso promovida na dieta vegetariana, já que a PA é sabidamente associada ao peso. Porém, não podemos esquecer de outros diferentes componentes da dieta em questão que também, individualmente, contribuem na redução da PA:

Vegetarianismo e a Diabetes Mellitus (DM)

Estudos comprovam a maior sensibilidade a insulina dos ovo-lacto-vegetarianos comparado aos onívoros. Esse comportamento como fator protetor é tão verdade que os indivíduos que seguem essas dietas têm menos de 50% de chance de desenvolver diabetes se comparado aos não-vegetarianos. Essa assertiva pode ser atribuída ao baixo índice glicêmico de grãos integrais e legumes. Esse efeito é potencializado quando à dieta se associa a atividade física, implicando inclusive na diminuição do uso de hipoglicemiantes orais para quem já é diabético e dos valores de glicemia de jejum. Vale ressaltar o menor impacto na hemodinâmica renal das proteínas vegetais se comparado às animais, ao diminuir a hiperfiltração renal, a proteinúria e, em tese, o risco de desenvolver insuficiência renal a longo prazo. 

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Vegetarianismo e a Síndrome Metabólica (SM)

Além da HAS e da DM, a SM é fator de risco independente para o desenvolvimento de DRC. Vários estudos comprovam a redução de cerca de duas vezes na prevalência ou risco de desenvolver a SM mediante adoção de dieta vegetariana.

Dietas vegetarianas e os eventos adversos da DRC

Além do provável impacto sobre a prevalência das principais fatores causais de DRC, como supracitado, as dietas vegetarianas também devem ser potencialmente benéficas para os eventos adversos da DRC, a saber: 

Toxinas Urêmicas

Proteínas alimentares e endógenas não digeridas e absorvidas no intestino delgado servem de substrato para produção de alguns solutos no cólon pela ação da microbiota intestinal. O sulfato de indoxilo e o sulfato de p- cresilo resultantes do metabolismo bacteriano do triptofano e da tirosina constituem alguns exemplos. 

Pacientes com DRC apresentam mudança na microbiota e no tempo de trânsito colônico, implicando em várias mudanças na fermentação bacteriana e na geração de proteínas tóxicas. Estas se acumulam no plasma dos pacientes, contribuindo para a síndrome urêmica, e como efeito na progressão da DRC, em mediadores pró-inflamatórios e estresse oxidativo, no risco cardiovascular e na resistência insulínica.

Foi demonstrado que a produção desses solutos é influenciada por modificações nos hábitos alimentares, uma vez que dietas vegetarianas ricas em fibras não digeríveis podem reduzir em cerca de 60% a excreção urinária de p- sulfato de sulfato e indoxil sulfato.

Inflamação

Pacientes com DRC são inflamados cronicamente, o que está relacionado ao aumento das complicações da DRC , com perda de energia proteica e envelhecimento vascular acelerado. Foi verificado uma relação direta entre o tipo de dieta e a microbiota intestinal, bem como ao estado de inflamação crônica.

Dietas ricas em frutas, vegetais e fibras não digeríveis tem menor escore inflamatório, com níveis reduzidos de IL-6 e PCR. Além disso, verifica-se uma maior riqueza e diversidade da microbiota intestinal, resultando em melhor perfil metabólico e menor estresse oxidativo.

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Estresse oxidativo

Sabe-se que o estresse oxidativo está relacionado a progressão da lesão renal, das complicações cardiovasculares da uremia e das maiores taxas de morbimortalidade. Os vegetarianos tem a longo prazo melhor status antioxidante e perfil de doença coronariana. O aumento com a idade dos produtos de dano oxidativo ao DNA e diminuição de vitaminas antioxidantes não são observadas em pacientes que adotam essa dieta supracitada. Frutas e vegetais contêm fitoquímicos, poderosos antioxidantes, impedindo a geração de radicais livres. 

Acidose metabólica

A Acidose Metabólica, presente na maioria dos doentes quando a TFG reduz a valores inferiores a 30% do normal, está relacionada à progressão da DRC com perda muscular e óssea, menor sensibilidade à insulina e maior potencial inflamatório, desencadeando inclusive períodos da agudização da insuficiência renal. Esse distúrbio também aumentaria a incidência de DRC e não apenas estaria envolvido em potencializar seus efeitos e progressão. A carga diária de ácido está diretamente relacionada ao tipo de alimento ingerido, sendo superior em alimentos de origem animal, em especial às proteínas. Entre os veganos, a carga ácida está quase próxima a neutralidade. Isso porque as frutas e verduras são alimentos que induzem a base, de forma que podem reduzir a carga de ácido na dieta, com resultados semelhantes à terapia alcalina (2 a 4 xícaras de frutas e vegetais = administração de 0,5 mEq/kg/dia bicarbonato).

Hiperfosfatemia

A DRC está essencialmente relacionada a um balanço positivo de fósforo, o que é favorecido pela dieta ocidental, rica em laticínios, proteínas de origem animal e aditivos alimentares. A hiperfosfatemia está associada à progressão da doença renal, calcificação vascular e mortalidade, de forma que vemos mais uma vez o benefício da adoção de dietas vegetarianas em pacientes com DRC.

Entenda o porquê: A biodisponibilidade do fosfato das plantas é baixa em humanos quando comparado ao de fonte animal, mais facilmente hidrolisados e absorvidos. Isso se deve ao fato de que o fósforo de proteínas derivadas de plantas é ligado à moléculas maiores, como os fitatos, que não podem ser quebrados no trato digestivo pela ausência da enzima fitase humana. Logo, a absorção intestinal de fósforo não ultrapassa 40% em vegetarianos, quando comparado aos 70% entre os que comem proteína animal. Além disso, a dieta vegetariana é quase isenta de alimentos processados e aditivos alimentares, e já se sabe que o fósforo presente nesses alimentos apresentam maior biodisponibilidade do que em alimentos não processados, sendo quase completamente absorvidos no trato intestinal.

Um questionamento levantado diz respeito à tolerância nutricional de dietas vegetarianas em pacientes com DRC, já que as dietas baseadas em plantas estão associadas à menor ingestão de energia e proteína do que as dietas onívoras. Um bom estado nutricional pode ser mantido em pacientes renais crônicos com dieta vegetariana, desde que forneçam energia adequada na faixa normal a alta (30-35 kcal / kg / dia). Os benefícios da introdução de proteínas de fonte vegetal em DRC são tão notáveis, como balanço mais positivo de nitrogênio, maiores níveis de bicarbonato sérico ou até função renal mais estável, que esses são verificados mesmo quando não em dietas vegetarianas estritas. 

Estudos comprovam, por fim, o aumento significativo da longevidade mediante adoção das dietas baseadas em vegetais. Desta forma, destaca-se a importância da realização de ensaios clínicos randomizados em grande escala para avaliar o potencial das dietas baseadas em plantas para prevenção e gestão da DRC.

Autora: 

Referências:

  • Chaveau P et al. Dietas vegetarianas e doença renal crônica. Nephrol Dial Transplant. 2019; 34 (2): 199-207. 

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