Cirurgia

É necessário converter cricotireoidostomia de emergência em traqueostomia?

Tempo de leitura: 2 min.

A manutenção de via aérea pérvia no cenário de emergência constitui um dos pilares do atendimento às vítimas de trauma, sendo frequentemente necessário instituir via aérea definitiva, que consiste em um tubo inserido na traqueia com balonete insuflado abaixo das cordas vocais, para manter ventilação do paciente. Na falha ou impossibilidade de uso do tubo endotraqueal, máscara laríngea ou tubo laríngeo há indicação de se instituir uma via aérea cirúrgica, sendo a cricotireoidostomia (CTM) preferível por ser mais fácil, rápida e apresentar menos risco de complicações durante sua execução no cenário de emergência comparada à traqueostomia (TQT).

Leia também: Traqueostomia: Qual o melhor método para decidir sobre o momento da decanulação?

Após garantir a via aérea por meio da CTM há tendência de se realizar conversão para TQT em até 24-72 horas justificada pelo risco de estenose subglótica caso seja mantida a CTM. Essa prática é respaldada principalmente em um estudo de 1921 realizado com 200 pacientes com estenose subglótica crônica, em que 79% haviam sido submetidos à traqueostomia alta eletiva, definida por incisões na membrana cricotireoidea, cartilagem tireoide, cricoide e parede lateral da laringe.

Análise recente

Essa indicação tem sido questionada visto que tem-se ponderado se a potencial redução do risco de estenose subglótica supera os riscos inerentes à cirurgia de conversão. Foi objetivando elucidar essa questão que uma meta-análise recente avaliou literatura publicada entre 2008 e 2021, analisando resultados de cricotireoidostomia (CTM) e traqueostomia (TQT) de emergência, além de complicações inerentes à sua conversão. A incidência de sangramento significativo, estenose subglótica e outras complicações foi de 3%, 0% e 12% versus 3%, 0% e 13% para casos de CTM e TQT, respectivamente. Dos 67 pacientes submetidos à conversão foram reportados 3 casos de sangramento intenso/falência respiratória que culminaram na suspensão do procedimento.

Em resumo, o presente estudo ratifica outros dados recentes que reportam incidência de estenose subglótica associada à CTM de 1 a 2%. Por ser o procedimento cirúrgico de escolha para garantir via aérea na emergência e levando em consideração a baixa incidência de complicações precoces relacionadas à sua manutenção, devemos considerar a possibilidade de mantê-la como via aérea até que seja possível a decanulação, principalmente em pacientes que necessitarão da mesma por curto período de tempo (estima-se que períodos inferiores à 10-14 dias não necessitem de conversão para TQT).

Saiba mais: Análise de crianças nascidas com extremo baixo peso com necessidade de traqueostomia

O que levar para casa

A individualização da conduta cirúrgica, considerando particularidades dos pacientes e ponderando riscos e benefícios inerentes à indicação de procedimentos, deve continuar sendo o melhor conselheiro do cirurgião. Tal preceito deve ser aplicado à indicação rotineira de procedimentos como a conversão de cricotireoidostomia (CTM) de emergência em TQT, visto que nos pacientes que serão decanulados precocemente (antes da alta hospitalar) o risco de estenose subglótica parece não justificar os riscos inerentes à cirurgia de conversão.

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Publicado por
Nathália Ribeiro Pinho de Sousa

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