É possível calcular o risco de morte por Covid-19 após cirurgias ortopédicas eletivas?

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Após o pico do surto viral de Covid-19, o retorno às atividades habituais deve envolver planejamento específico, e o retorno às cirurgias ortopédicas eletivas merece atenção especial neste cenário.

Estudos anteriores reportaram elevadas taxas de complicações em pacientes que desenvolveram a infecção no período pós-operatório. O retorno às cirurgias eletivas tem envolvido protocolos de rastreio de infecção utilizando variados testes, sendo comum a execução de teste de RT-PCR (reverse-transcriptase polymerase chain reaction). Este teste tem taxa de sensibilidade variável, sendo considerada em alguns estudos a chance de até 29% de resultados falso negativos.

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Um estudo recente publicado na revista The Bone and Joint Journal, em junho de 2020, objetiva avaliar a probabilidade de um paciente ser admitido com um exame não detectado de infecção e o risco resultante de morte. O estudo levou em consideração a prevalência atual da doença no Reino Unido (país do estudo), a taxa de mortalidade e a acurácia dos testes.

O risco para pacientes e profissionais de saúde de retomar a cirurgia ortopédica eletiva após o pico da pandemia do Covid-19 tem sido difícil de quantificar. A falta de evidência torna impossível para os cirurgiões dar aos pacientes uma perspectiva informada das consequências da cirurgia eletiva na presença da infecção.

Metodologia

A probabilidade de infecção respiratória aguda pelo Covid-19 com um teste falso negativo foi calculada usando o limite inferior da sensibilidade do teste RT-PCR de 71%, especificidade de 95% e da prevalência da doença de 0,24% relatado em maio de 2020 no Reino Unido. Posteriormente, uma taxa de mortalidade de 20,5% foi aplicada como pior cenário conforme descrições prévias na literatura.

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Resultados

A probabilidade de infecção com teste pré-operatório falso negativo foi de 0,07% (cerca de 1 em 1.400). O risco de um paciente com uma infecção não detectada ser admitido por cirurgia e apresentar morte subsequente da doença é estimada em aproximadamente 1 em 7.000. Isso considerando a taxa de mortalidade de 20,5%.

Caso seja considerado que a taxa de mortalidade de pacientes em pós-operatório de cirurgias ortopédicas eletivas seja igual a da população normal, aplicando a taxa de mortalidade da infecção global (1,04%), o risco de morte seria de cerca de 1 em 140.000, no máximo.

Este cálculo não leva em consideração o risco de infecção hospitalar. O cálculo não considera também que os pacientes também serão avaliados clinicamente e solicitados a se autoisolarem antes da cirurgia, o que poderia minimizar as taxas de infecção.

Conclusão

A estimativa deste estudo sugere que o risco de pacientes serem inadvertidamente admitidos para uma cirurgia ortopédica eletiva apresentando doença não detectada é baixo. Adicionalmente, o risco de morte por Covid-19 após cirurgia ortopédica eletiva é baixo. Ainda que se aplique o índice de fatalidade do pior cenário reportado na literatura considerando a prevalência da doença no Reino Unido.

O estudo utiliza a prevalência da infecção por Covid-19 em maio de 2020 no Reino Unido. Os dados obtidos se aplicam ao retorno às cirurgias eletivas no país considerando informações epidemiológicos locais e assim não refletem a realidade do nosso país.

Estudos semelhantes podem ser executados considerando a prevalência da doença em populações diferentes sendo úteis para determinar riscos de maneira semelhante.

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Referências bibliográficas:

  • Kader N, Clement ND, Patel VR, Caplan N, Banaszkiewicz P, Kader D. The theoretical mortality risk of an asymptomatic patient with a negative SARS-CoV-2 test developing Covid-19 following elective orthopaedic surgery [published online ahead of print, 2020 Jul 6]. Bone Joint J. 2020;1-5. doi:10.1302/0301-620X.102B9.BJJ-2020-1147.R1
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