Obstetrícia

Efedrina x fenilefrina para hipotensão arterial em cesárea

Tempo de leitura: 4 min.

A cirurgia cesariana é um procedimento na maioria das vezes realizada sob bloqueio raquidiano, pois este, além de apresentar muito menos chances de complicações do que a anestesia geral, contribui para uma diminuição significativa de comorbidades materno fetal, porém, em 80% dos casos ocorre hipotensão arterial por um rápido bloqueio do sistema simpático. Essa hipotensão, caso não tratada em tempo hábil com medidas de suporte como aumento da hidratação, desvio do útero para a esquerda ou uso de vasopressores, pode levar a efeitos deletérios ao feto pela diminuição do débito cardíaco materno e consequente diminuição do fluxo sanguíneo uteroplacentário com comprometimento da oxigenação fetal.

O fármaco vasopressor mais comumente utilizado em cesarianas, apesar de não ter sua superioridade comprovada, é a efedrina, um agente simpaticomimético que estimula os receptores alfa-beta adrenérgicos, liberando norepinefrina nas terminações nervosas. Alguns fatores adversos relacionados a essa droga é a promoção de taquicardia supraventricular, taquifilaxia e acidose fetal por diminuir o pH do sangue umbilical fetal. A fenilefrina é um agonista alfa adrenérgico que promove constrição venosa e melhora o retorno venoso após o bloqueio simpático. Estudos relatam que ela não modifica o fluxo sanguíneo uteroplacentário, tampouco seu pH, não ocasionando acidose fetal.

Esse estudo visa comparar a eficácia farmacológica de ambas as drogas em situações de hipotensão arterial após bloqueio raquidiano em cirurgia de cesarianas, principalmente em relação a vitalidade do recém-nascido.

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Método

Esse estudo foi realizado após aprovação de todos os comitês e sociedades disponíveis e sob o consentimento de todas as pacientes envolvidas. O estudo foi duplo cego, aleatório com o total de 60 pacientes envolvidas e divididas em dois grupos de 30 pacientes de forma aleatória. Os critérios de inclusão foram pacientes acima de 18 anos, ASA 1 e 2, gestação a termo com feto único. Pacientes com comorbidades prévias, anomalias fetais, hipertensão prévia ou DHEG foram excluídas do estudo.

Os grupos foram denominados Grupo E onde foi realizado 10 mg de efedrina profilática e Grupo F, onde realizou-se 80 microgramas de fenilefrima profilático. Todas as pacientes foram monitorizadas com ECG, pressão arterial não invasiva e oximetria. O bloqueio raquidiano foi realizado em decúbito lateral esquerdo, nível L2-L3 ou L3-L4 com 10 mg de bupivacaína hiperbárica e 3 microgramas de sufentanil. Após o bloqueio, foi desviado o útero para a esquerda e realizado hidratação vigorosa com 2 L de Ringer Lactato antes da incisão. Após o bloqueio ter atingido nível T5, as pacientes foram liberadas para início do procedimento.

Hipotensão arterial foi considerada quando pressão menor ou igual a 80% da medida basal e tratada com 50% da dose profilática inicial. Bradicardia foi definida como frequência cardíaca abaixo de 50 bpm e foi tratada com 0,75 mg de atropina. Outros parâmetros como hipertensão materna reativa, incidência de náuseas e vômitos e dose total utilizada de vasopressor também foram avaliados.

Saiba mais: Injeção acidental de ácido tranexâmico no bloqueio espinhal: um erro catastrófico

Resultados

Demograficamente falando as pacientes de ambos os grupos não diferiram em relação a idade (27 anos),idade gestacional (39) e índice de massa corpórea e a maioria das pacientes atingiu um nível sensitivo T4 .A dose média de efedrina foi de 14 mg no grupo E e a de fenilefrina 186 microgramas no grupo F.

Em relação aos efeitos colaterais ocorreu: 7 episódios de náuseas e vômitos no Grupo E contra 10 episódios no Grupo F; incidência de hipertensão reativa igual em ambos os grupos; 1 episódio de bradicardia no Grupo F que foi prontamente resolvido e 21 casos de hipotensão arterial no Grupo E (70%) contra 28 casos no Grupo F (93,3%).Sendo que no Grupo F houve muito mais episódios de hipotensão (80) contra 29 episódios no Grupo E.

Em relação ao score de Apgar, o Grupo E apresentou menores scores estatisticamente falando no primeiro minuto em comparação com o Grupo F, sendo que no quinto minutos, os scores não se diferenciaram.

Em relação aos valores de pH do sangue do cordão umbilical houve diferença estatisticamente significativa no valor médio entre os grupos. Grupo E pH arterial de 7,22 e grupo F de 7,27.

Discussão

Nesse estudo em questão evidenciou-se que a fenilefrina apresentou controle menos eficaz da pressão arterial materna, uma vez que o grupo relacionado a ela apresentou mais casos de hipotensão com maior número de episódios, provavelmente pela duração de ação mais fugaz desse vasopressor e pela forma de administração em bolus que proporcionou oscilações na concentração plasmática do mesmo. Apesar de se ter demonstrado menos eficácia, não houve aumento da incidência de efeitos colaterais como náuseas e vômitos, possivelmente porque a hipotensão não tenha sido tão intensa. Em relação a acidose fetal, o presente estudo demonstrou que a efedrina associou-se a um pH mais baixo que a fenilefrina com scores de Apgar mais baixos no primeiro minuto, evidenciando alterações de caráter transitório nos recém nascidos. Essas repercussões deletérias analisadas pelo score de Apgar e gasometria foram bem inferiores no grupo que utilizou fenilefrina.

Ainda existe a necessidade de maiores estudos em relação a essas drogas, uma vez que essa análise abrangeu uma população pequena. Porém, apesar da efedrina ainda ser considerada a droga de escolha para uso em tratamento de hipotensão em cesarianas com raquianestesia, sabe-se que esta está relacionada a uma maior incidência de acidose fetal transitória em comparação com a fenilefrina.

Autor(a):

Referências bibliográficas:

  • Magalhães E, et al. Efedrina versus fenilefrina: prevenção de hipotensão arterial durante anestesia raquídea para cesariana e efeitos sobre o feto. Rev. Bras. Anestesiol. 2019;59(1):11-20.
  • Aragão FF, et al. Avaliação comparativa entre metaraminol, fenilefrina e efedrina na profilaxia e no tratamento da hipotensão em cesarianas sob raquianestesia. Brazilian Journal of Anesthesiology. 2014 Set-Out;64(5):299-306.
  • Sia ATH, et al. Closed-loop double vasopressor automated system to treat hypotension during spinal anaesthesia for caesarean section: a preliminary study. Anaesthesia. 2012;67:1348-55.
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Publicado por
Gabriela Queiroz

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