Terapia Intensiva

Efeitos dos probióticos em pneumonia associada à ventilação mecânica

Tempo de leitura: 3 min.

Os entendimentos cada vez mais frequentes relativos ao microbioma despertam particular interesse pela disbiose, sobretudo no manejo de pacientes críticos. Estudos recentes demostram o papel dos probióticos em redução da chance de infecções. Em pacientes críticos, metanálises apontaram que o uso de probióticos gerou uma redução de pneumonia associada a ventilação mecânica (PAV) da ordem de 25 a 30%.

Leia também: Probióticos poderiam levar à melhora da imunidade na pandemia de Covid-19?

Métodos

Estudo randomizado, placebo controlado, com a participação de 44 UTIs, entre elas 41 UTI no Canadá, 2 nos EUA e 1 na Arábia Saudita. Foram incluídos 2.653 pacientes, todos acima de 18 anos, com expectativa de ventilação de pelo menos 72 horas. Os pacientes receberam 1×1010 unidades formadoras de colônias de Lactobacillus rhamnosus GG via enteral ou uma solução de placebo.  O produto foi administrado por 60 dias ou até a alta da UTI. O desfecho primário foi pneumonia associada a ventilação mecânica (PAV) identificada por infiltrado radiográfico novo associado a mais dois: febre (temperatura > 38 °C) ou hipotermia (< 36 °C), leucócitos inferior a 3×106/L ou superior a 10×106/L e expectoração purulenta. Os desfechos secundários incluíram outras formas de pneumonia e infecções por C. difficile.

Resultados

Entre 1.318 pacientes que receberam Lactobacillus rhamnosus GG, 289 (21,9%) desenvolveram PAV em comparação com 284 de 1.332 pacientes (21,3%) que receberam placebo (HR 1,03, 95% IC, 0,87-1,22, p = 0,73). Não houve diferença significativa em relação aos desfechos secundários. O uso de antimicrobianos não foi significante entre os grupos placebo e os que utilizaram probióticos. A média de dias de ventilação mecânica foi de 7, permanência na UTI de 12 dias e a internação 22 dias. Não houve diferença em relação aos dois grupos e também não houve diferença de mortalidade. Em relação aos eventos adversos, 12 pacientes tiveram a presença de Lactobacillus rhamnosus GG em locais previamente estéreis (1 no sangue, 1 abscesso  hepático, 1 abscesso intra-abdominal, 1 líquido peritoneal, 1 líquido pleural e 2 na urina).

Saiba mais: Probióticos: o que o médico precisa saber?

Discussão 

Neste estudo envolvendo pacientes criticamente enfermos, o probiótico L rhamnosus GG não reduziu significativamente o risco de PAV, C. difficile ou outras infecções. Além disso, não foram identificados efeitos na diarreia, uso de antimicrobianos, tempo de internação ou mortalidade. Esses resultados diferem das metanálises de estudos anteriores pequenos, predominantemente de centro único, sugerindo taxas diminuídas de PAV associadas a probióticos durante a doença crítica, incluindo esta cepa. Esses resultados indicam que, embora os pacientes criticamente enfermos exibam perda de microbiota comensal, crescimento excessivo de patógenos potenciais e, portanto, comunidades microbianas altamente perturbadas, os probióticos podem não melhorar os resultados clinicamente importantes associados à disbiose neste cenário.

Mensagens Práticas:

  • O trato respiratório, assim como o intestinal, não é estéril e sofre forte influência do microbioma gastrointestinal;
  • Processos infecciosos são caracterizados por grandes momentos de disbiose na flora local, favorecendo patógenos em relação à outros micro-organismos;
  • Dar probióticos em pacientes sob ventilação mecânica ainda não aparenta ter benefício na prática clínica.

Autor(a):

Referências bibliográficas:

  • Johnstone J, Meade M, Lauzier F, et al. Effect of Probiotics on Incident Ventilator-Associated Pneumonia in Critically Ill Patients: A Randomized Clinical Trial. JAMA. 2021;326(11):1024–1033. doi:10.1001/jama.2021.13355.
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Publicado por
Guilherme das Posses Bridi

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