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profissional de saúde e a empatia

Empatia, compaixão e o profissional de saúde

Colunistas, Medicina Interna
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A prática do cuidado junto à outra pessoa pode ser geradora de experiências positivas garantidoras da satisfação por compaixão, assim como também pode ser potencialmente negativa quando gera a sensação de esgotamento e fadiga por compaixão. A partir de revisão bibliográfica sobre o tema, este artigo visa discorrer, sobre como a fadiga por compaixão pode ser uma ameaça à qualidade dos serviços prestados pelo profissional de saúde afetando também sua qualidade de vida.

Trabalhar continuamente com a dor e sofrimento alheio envolve um custo emocional para os profissionais envolvidos no cuidado. Se é a empatia que nos convoca à ação diante do sofrimento percebido, imagine como seria lidar com sofrimento e não sentir nada, tal como se estivéssemos anestesiados? No outro extremo, imagine se nos afetássemos pelo sofrimento do outro continuamente, quais efeitos teríamos a longo prazo na saúde dos profissionais envolvidos no cuidado de pessoas com experiência de dor ou sofrimento?

A empatia

A empatia é comumente citada como a capacidade de se colocar no lugar do outro, sendo impactado pelas emoções de outros indivíduos. Assim, o indivíduo percebe o sofrimento do outro e, sendo impactado pelas emoções que observa, não faz distinção entre o eu e o outro, vivenciando-as como se fossem suas. O estresse gerado pela experiência de empatia associado à dificuldade do profissional de saúde em elaborar tais vivências constantes em sua rotina – e intensas no impacto causado -, pode acarretar mecanismos de defesa psíquica de autopreservação.

Neste caso, o profissional que testemunha o sofrimento do outro não possui recursos amplos para se engajar em um comportamento de ajuda, deixando de focar no sofrimento do outro para focar no seu próprio sofrimento. Comportamentos de autoproteção, tristeza e/ou evitamento de contato social são exemplos de resposta ao estresse empático (LAGO, 2013).

Em sua pesquisa sobre a compaixão e os profissionais de saúde, Lago (2013) refere que estudos indicam que indivíduos que relatam habilidades de regular suas emoções, em situações em que são expostos ao sofrimento alheio, estão mais propensos a sentir compaixão ao invés de estresse. Do mesmo modo, outros estudos indicam que quanto maior o sentimento de autoeficiência, no que tange à capacidade de ajudar pessoas em sofrimento, maior é a possibilidade de que o indivíduo sinta compaixão. Mas o que é compaixão?

A compaixão

De forma concisa, pode-se afirmar que a compaixão se caracteriza por ser uma emoção que gera comportamentos que têm como objetivo a interrupção do sofrimento alheio, todavia ela só é possível entre os indivíduos capazes de fazer a distinção entre o eu-outro, ou seja, requer a capacidade de distinguir o sofrimento alheio de seu próprio sofrimento e vicissitudes.

Reconhecendo-se capaz de lidar com esta realidade e sentindo-se apto (física e emocionalmente) para empregar esforços na remissão da dor alheia, o profissional de saúde permite que a compaixão possa emergir. O aspecto positivo da compaixão é a denominada satisfação por compaixão, que diz respeito aos afetos positivos vivenciados no âmbito do trabalho; por exemplo, sentir-se capaz de ajudar, de fazer a diferença, sendo efetivo, atencioso e recompensado em seus esforços no trabalho (BARBOSA et. al., 2014).

Porém, é uma constante a sensação de capacidade e aptidão para solucionar a dor e/ou sofrimento daquele que nos convoca?

O profissional de saúde e suas vicissitudes

Culturalmente é difundida a ideia de que o profissional de saúde é o indivíduo capacitado, detentor de todos os conhecimentos e recursos para socorrer qualquer tipo de pessoa em qualquer contexto. Lago (2013) refere que em nome da sustentação desta identidade profissional, o indivíduo gasta todos os seus recursos internos até que eles se esgotem na tentativa de prestar socorro a outrem, ainda que sabidamente reconheça que, em alguns casos, não possui os recursos suficientes para prestar este socorro ou aliviar este sofrer.

Ao analisar o comportamento de um grupo de nova iorquinos voluntários após os ataques de 11 de setembro, o psicólogo Charles Fingley percebeu o distúrbio no qual denominou Fadiga por Compaixão referindo-se ao processo no qual o profissional ligado ao atendimento de pessoas em sofrimento, torna-se fatigado, em exaustão física e mental, devido ao constante contato com o estresse provocado pela compaixão (LAGO; CODO, 2013).

A fadiga por compaixão

Lago e Codo (2013) referem que a fadiga por compaixão ocorre quando o profissional não consegue mais lidar de uma forma saudável com os sentimentos negativos que emergem do sofrimento dos pacientes que ele atende, apresentando respostas somáticas e/ ou defensivas em relação ao seu trabalho. Neste sentido estão mais vulneráveis à fadiga por compaixão; médicos, enfermeiros, auxiliares de enfermagem, assistentes sociais, psicólogos, e outros profissionais que tenham como parte do seu oficio o contato com a dor e o sofrimento, como bombeiros e policiais. Alguns estudos sugerem que a fadiga por compaixão é a principal ameaça à saúde mental dos profissionais de saúde (Abendroth, 2005; Collins & Long, 2003; Huggard, 2003 apud LAGO; CODO, 2013).

O trabalho em saúde envolve estar em contato direto com dor, sofrimento, frustração, queixas, gemidos, gritos, odores, cansaço físico e psicológico, irritabilidade, etc. A irritabilidade, por sua vez, sinaliza o desgaste que essas vivências causam no âmbito físico e mental destes profissionais, demonstrando que os recursos internos existentes e que seriam capazes de ajudar o profissional a lidar melhor com essa realidade adversa já foram esgotados:

“Sentimento de tristeza, incômodo e tensão são reações normais de qualquer humano exposto a esse tipo de contexto, em que são abundantes situações dramáticas – as histórias que os pacientes carregam consigo – e episódios de sofrimento explícito. ” (LAGO, 2013, p.47)

Contudo, Lago (2013) chama atenção para as implicações decorrentes da crença difundida de que o profissional de saúde deve se adaptar a este contexto, evitando se compadecer com o sofrimento de seus pacientes. Isto implica a manutenção da expectativa de que, sendo capaz de operacionalizar este cuidado distanciado, resista aos desafios impostos pelo ambiente; estratégia que é muito adotada pelos profissionais de saúde, mas que cada vez mais tem trazido consequências indesejáveis tanto para a qualidade do serviço prestado quanto para a saúde dos profissionais.

Deste modo, fica evidente que a capacitação dos profissionais de saúde no lidar com o corpo do paciente não os capacita para lidar com o sofrimento, com o reconhecimento da própria impotência diante do sofrimento envolvido na sua prática profissional e com a morte; assim como também não contempla o cuidado com os desdobramentos psíquicos advindos destas experiências junto aos seus pacientes.

Conclusão

A prática em saúde requer vínculo empático, pois é a partir do contato afetivo que o profissional consegue perceber, entender e atuar sobre os sintomas e queixas de seu paciente. O paradoxo reside justamente no fato de que é essa abertura afetiva que possibilita a ocorrência de um contágio emocional, que pode ser desencadeador de sofrimento ao profissional de saúde, afetando tanto a qualidade dos seus serviços como sua própria qualidade de vida (LAGO, 2008).

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Tornam-se necessárias estratégias de cuidado em saúde mental que contemplem os profissionais de saúde, uma vez que como cuidadores também demandam cuidado para que possam se reconhecer diante do sofrimento, percebendo suas potencialidades e limitações, garantindo assim um cuidado possível e compartilhado àqueles que padecem de ajuda para aliviar suas dores e angústias.

Artigo escrito em coautoria com a psicóloga Susana Medeiros Ramos

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Autor:

Referências:

  • BARBOSA, Silvânia da Cruz; SOUZA, Sandra; MOREIRA, Jansen Souza. A fadiga por compaixão como ameaça à qualidade de vida profissional em prestadores de serviços hospitalares. Rev. Psicol., Organ. Trab.,  Florianópolis ,  v. 14, n. 3, p. 315-323, set.  2014 . Disponível em http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-66572014000300007&lng=pt&nrm=iso. Acesso em  14  jun.  2019.
  • LAGO, Kennyston Costa. Compaixão e Trabalho: Como sofrem os profissionais de saúde. 2013. Tese (Doutorado em Psicologia Social, do Trabalho e das Organizações). Universidade de Brasília, Brasília, 2013. Disponível em: http://repositorio.unb.br/bitstream/10482/14514/1/2013_KennystonCostaLago.pdf. Acesso em: 13 jun. 2019.
  • LAGO, Kennyston Costa. Fadiga por compaixão: Quando ajudar dói. 2008. Dissertação (Mestrado em Psicologia Social, do Trabalho e das Organizações) – Universidade de Brasília, Brasília, 2008. Disponível em: http://repositorio.unb.br/bitstream/10482/1291/1/DISSERTACAO_2008_KennystonCostaLago.pdf. Acesso em: 14 jun. 2019.
  • LAGO, Kennyston ; CODO, Wanderley. Fadiga por compaixão: evidências de validade fatorial e consistência interna do ProQol-BR. Estudos de Psicologia, [S. l.], abril- jun. 2013. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/epsic/v18n2/v18n2a06.pdf. Acesso em: 14 jun. 2019.

One comment

  1. Avatar
    Júnior Gonçalves Araújo

    Prezadas Wanessa e Susana,

    Escrevo para parabenizá-las pelo artigo. Esclarecedor e acessível a profissionais de outras categorias. Milito em área que pode ser enquadrada como “outros profissionais que tenham como parte do seu oficio o contato com a dor e o sofrimento”. Até chegar nessa leitura não compreendia totalmente a mudança de comportamento de colegas após longos períodos de contato com pacientes de enfermidades variadas.

    Reitero, parabéns.

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