Escassez de profissionais na APS influencia nos índices de contágio e mortalidade por Covid-19?

Tempo de leitura: 2 min.

Os serviços de Atenção Primária à Saúde (APS) possibilitam à população um maior acesso a cuidados médicos, como a testes diagnósticos e tratamentos. Da mesma maneira, conseguem organizar melhor seus territórios do ponto de vista de vigilância em saúde, atuando com maior eficácia com ações preventivas e de promoção. Por isso, imagina-se que as regiões com serviços de APS apresentem melhores índices relacionados à Covid-19, por ajudarem na diminuição de sua transmissão e por tratarem os pacientes antes do agravamento do quadro.

Para investigar essa correlação, pesquisadores dos Estados Unidos analisaram os índices de contágio e de mortalidade por Covid-19, comparativamente entre regiões com e sem escassez de profissionais de APS em seu país, que apresenta uma distribuição desproporcional dos impactos da pandemia.

Leia também: Covid-19: quais as recomendações sobre as ações de Vigilância à Saúde pela APS?

Método do estudo

A partir de dados extraídos de bases oficiais sobre a população dos EUA e sobre novos casos e mortes por Covid-19, o estudo definiu o período de 8 semanas, entre 22 de março e 16 de maio de 2020, para a análise. As regiões analisadas (condados) foram então também vinculadas a 6 variáveis socioeconômicas, incluindo pobreza, desemprego, idade superior a 65 anos e baixo grau de escolaridade, de modo a avaliar o possível viés de confundimento. Os condados com um número reduzido de profissionais médicos generalistas proporcionalmente à sua necessidade por serviços de APS foram classificados como regiões com escassez de profissionais de saúde de APS (Health Professional Shortage Areas).

Durante o período estudado, 1.381.197 pessoas foram diagnosticadas com Covid-19 e 85.097 morreram pela doença. Dos condados, 170 (13,2%) foram considerados como tendo escassez de profissionais de APS e 1121 (86,8%) como não tendo. Os índices de contágio e de mortalidade foram maiores nos condados com escassez (30.9 vs 18 e 1.1 vs 0,7 por 100 mil habitantes, respectivamente). O estudo demonstra que essa associação entre pouca oferta de serviços de APS e maiores índices de Covid-19 se mantém mesmo em modelo ajustado às características sociodemográficas.

Saiba mais: Qual é o papel da APS com o aumento da violência doméstica na pandemia de Covid-19?

Conclusão

Mesmo com as limitações da pesquisa, levando-se em conta que se trata de um estudo observacional transversal, com a possibilidade de influência de outros fatores de vulnerabilidade médicos e sociais desconhecidos, a relação entre a dificuldade de acesso à APS e um maior impacto da Covid-19 na comunidade se evidencia. Ainda que sem uma determinação causal definida, essa associação, por si só, deve ser levada em consideração.

Através da educação e da promoção em saúde, das orientações e medidas preventivas — individuais e comunitárias, do diagnóstico precoce, do manejo dos casos leves e da identificação oportuna de casos graves e de pacientes com fatores de risco, a APS ajuda a organizar o sistema de saúde diante da pandemia, bem como a, naturalmente, reduzir seus impactos. O fortalecimento desse nível de atenção é, mais do que nunca, premente para a garantia da qualidade do cuidado em saúde da população; seja nos EUA ou no Brasil.

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Referências bibliográficas:

  • Ku BS, Druss BG. Associations Between Primary Care Provider Shortage Areas and County-Level Covid-19 Infection and Mortality Rates in the USA [published online ahead of print, 2020 Aug 21]. J Gen Intern Med. 2020;1-2. doi:10.1007/s11606-020-06130-4
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Publicado por
Renato Bergallo

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