Ginecologia e Obstetrícia

Conduta no abuso sexual [Especial de Carnaval]

Tempo de leitura: 3 min.

Seguindo nossa série de reportagens sobre condutas de aconselhamento e terapêutica de condições que podem surgir no atendimento médico no Carnaval, selecionamos a conduta no “abuso sexual”, que infelizmente ocorre mesmo no contexto da festividade do feriado.

Diante de um quadro de abuso sexual, devemos ter em mente os seguintes conceitos de atendimento:

  • Deve ser definido um local específico, preferencialmente fora do espaço físico do pronto-socorro ou da triagem, a fim de garantir a privacidade durante a entrevista e os exames.

  • É desejável que a equipe de saúde seja composta por médicos, psicólogos, enfermeiros e assistentes sociais.

  • A Lei 10.778, de 24 de novembro de 2003, estabelece a notificação compulsória, no território nacional, dos casos de violência contra a mulher, atendidos em serviços de saúde públicos ou privados de saúde.

  • Nas situações de violências contra adolescentes e crianças, uma cópia da ficha de notificação deve ser encaminhada ao Conselho Tutelar da Criança e do Adolescente.

  • A mulher violentada não tem o dever legal de noticiar o fato à polícia, por isso a exigência de apresentação destes documentos para atendimento nos serviços de saúde é incorreta e ilegal.

Prevenção de Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST) Não-virais

O recomendado para mulheres adultas e adolescentes é composto por penicilina benzatina, ceftriaxona e azitromicina, para profilaxia de sífilis, gonococo e clamídia, respectivamente:

  • Penincilina G benzatina 1,2 milhão UI: IM 2,4 milhões UI (1,2 milhão em cada nádega), dose única;

  • Ceftriaxona 250 mg: IM 250 mg em dose única;

  • Azitromicina 500 mg: VO 2 comprimidos, dose única.

Para gestantes, crianças e adolescentes com < 45 kg:

  • Penincilina G benzatina Frasco-amp. com 150 mil UI, 300 mil UI, 400 mil UI: IM 50 mil UI/kg (dose máxima: 2,4 milhões UI), dose única;

  • Ceftriaxona 250 mg (acompanha diluente de 2 ml): IM aplicar 125 mg (1 ml);

  • Azitromicina 600 mg/15 ml ou 900 mg/22,5 ml: VO 20 mg/kg (dose máxima: 1 g), dose única.

Em caso de hipersensibilidade, alternativas:

  • Estearato de eritromicina (alergia a penicilina): 500 mg, VO, 6/6h por 15 dias (sífilis) ou 7 dias (clamídia);

  • Ciprofloxacino: 500 mg VO dose única.

Prevenção da Hepatite B:

  • Mulheres não imunizadas ou que desconhecem seu status vacinal devem receber a primeira dose da vacina e completar o esquema posteriormente (0, 1 e 6 meses), além de Imunoglobulina humana anti-hepatite B, na dose de 0,06 ml/kg, IM, em sítio de aplicação diferente da vacina (até, no máximo, 14 dias após a violência sexual, embora seja recomendada a aplicação nas primeiras 48 horas após a violência).

  • Mulheres imunizadas contra hepatite B, com esquema vacinal completo, não necessitam de reforço ou do uso de imunoglobulina humana anti-hepatite B.

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Prevenção da Infecção pelo HIV

A quimioprofilaxia antirretroviral está recomendada em todos os casos de penetração vaginal e/ou anal nas primeiras 72 horas após a violência, inclusive se o status sorológico do agressor for desconhecido. No caso de penetração oral com ejaculação, deve-se individualizar a decisão.

  • Exames: A testagem para HIV do agressor não deve retardar o início da profilaxia ARV, mas deve ser feita sempre que possível. Caso o resultado seja negativo, a quimioprofilaxia antirretroviral não deve ser realizada ou deve ser interrompida.

  • Profilaxia: Deve ser iniciada imediatamente após a violência, ainda nas primeiras 24 horas (máximo de 72h) e deve ser mantida por quatro semanas.

  • Esquema: O esquema de primeira escolha deve combinar três antirretrovirais, por sua maior potência na redução da carga viral plasmática: dois inibidores nucleosídeos da transcriptase reversa, combinados com um inibidor da protease adicionado de ritonavir como adjuvante farmacológico (booster). Entre as reações estão sintomas gastrointestinais, cefaleia e fadiga.

    • 1ª escolha: Zidovudina (AZT) + Lamivudina 300/150mg de 12/12h + Lopinavir/Ritonavir 200/50 mg 2cps 12/12h;

    • 2ª escolha: Tenofovir (TFD) + Lamivudina (3TC) 300 + 300 mg/cp, VO 1x/dia + Atazanavir/ritonavir (ATV/r) 300 + 100 g/cp VO 1 cp 1x/dia por 28 dias.

Anticoncepção de Emergência: A anticoncepção de emergência (AE) deve ser prescrita para todas as mulheres e adolescentes expostas à gravidez através de contato certo ou duvidoso com sêmen, independente do período do ciclo menstrual em que se encontrem, que tenham tido a primeira menstruação e que estejam antes da menopausa.

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Referências:

  • Este conteúdo foi formulado a partir do Whitebook, com base na publicação: BRASIL. Ministério da Saúde. Norma técnica – Prevenção e Tratamento dos Agravos Resultantes Da Violência Sexual Contra Mulheres E Adolescentes. 3ª edição. Brasília, 2012.
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Publicado por
Eduardo Cardoso de Moura

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