Ginecologia e Obstetrícia

Estudo avalia a associação entre infecções urogenitais comuns e câncer de colo útero

Tempo de leitura: 2 min.

O câncer do colo do útero é uma doença de elevada morbidade e mortalidade em mulheres no mundo todo, com aproximadamente 570 mil casos novos e 311 mil óbitos por ano. Ele se desenvolve em quase todos os casos a partir de uma infecção cervical persistente pelo papilomavírus humano (HPV). Diversos fatores de risco das infecções por HPV são também fatores de risco para outras infecções urogenitais, como por exemplo, comportamento sexual e desequilíbrio na microbiota vaginal.

Sabe-se que infecções sexualmente transmissíveis, como herpes urogenital e clamídia, facilitam o desenvolvimento de neoplasia cervical pelo HPV, porém a relação de câncer de colo/infecção pelo HPV e as condições infecciosas urogenitais mais comuns permanece menos clara. assim, um estudo sueco foi explorar a possível relação entre infecções urogenitais comuns e câncer do colo do útero.

Metodologia

Trata-se de um estudo de coorte de abrangência nacional, de mulheres acima de 15 anos, seguidas pelo período de 2002 a 2018, desenvolvido pela Lund University, na Suécia.

Os desfechos desse estudo foram câncer de colo de útero e neoplasia intracervical in situ. Os preditores analisados foram vaginose bacteriana, candidíase genital e cistite aguda. Foram analisados possíveis confundidores da análise estatística: variáveis sociodemográficas (idade, escolaridade, procedência regional), paridade e outras infecções genitais (herpes, infecção da glândula de Bartholin, uretrite, doença inflamatória pélvica).

Os dados foram coletados de bancos de dados nacionais (Swedish Cancer Register, Nationwide Swedish primary healthcare data e National Patient Register), que possuem dados de mais de 90% da população sueca. Para análise estatística, foram realizados modelos de regressão de Cox e calculado a taxa de risco (hazard ratio, HR).

Leia também: Eliminando o câncer de colo de útero em tempos de Covid-19

Resultados

A população estudada foi composta por 4.120.557 mulheres. Cistite foi a infecção mais comum, respondendo por 13,2 milhões pessoas/ano, seguida de candidíase genital com 1,9 milhões pessoas/ano e vaginose bacteriana com 1,4 milhões pessoas/ano. A taxa de incidência de câncer de colo de útero foi de 1,2 (IC 95% 1,1 a 1,2) por 10.000 pessoas/ano, enquanto a taxa de incidência de carcinoma in situ foi de 13,4 (IC 95% 13,3 a 13,5) por 10.000 pessoas/ano.

Vaginose bacteriana (HR 1,3; IC95%: 1,15-1,48) e cistite (HR 1,22; IC95%: 1,16 – 1,29) estavam associados ao risco de câncer de colo de útero, enquanto a candidíase estava inversamente associada (HR 0,75; IC95%: 0,65 – 0,86).

Vaginose e cistite também estavam associadas ao risco de carcinoma in situ.

Conclusões e mensagem prática

Trata-se de um estudo de grande magnitude que sugere que certas condições infecciosas urogenitais muito comuns atendidas na atenção primária podem servir como preditores importantes na identificação de mulheres de risco para câncer do colo do útero. Tanto a vaginose bacteriana quanto a cistite parecem estar independentemente associadas à neoplasia, enquanto a candidíase foi inversamente associada à esta malignidade.

Saiba mais: Infecção do trato urinário na mulher: dose única, tratamento curto ou regime semanal?

A vacinação contra o HPV e os programas de rastreamento precoce permanecem críticos na prevenção de câncer do colo do útero em todo o mundo. Adicionalmente, esses resultados podem ser usados para identificar mulheres com maior risco de desenvolver essa neoplasia. Entretanto, mais estudos confirmando esses achados e sobre mecanismos causais são necessários antes que quaisquer recomendações gerais de saúde possam ser feitas.

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Publicado por
Ênio Luis Damaso

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