Pediatria

Estudo não encontrou diferença entre CNAF e CPAP na prevenção da DBP

Tempo de leitura: 4 min.

A displasia broncopulmonar (DBP) ou broncodisplasia é uma doença pulmonar crônica que resulta de um desequilíbrio entre lesão pulmonar, inflamação, reparo e cicatrização no pulmão em desenvolvimento. A definição e classificação da DBP proposta pelo National Institute of Child Health and Human Development (NICHD) e pelo Network Vermont-Oxford baseava-se na necessidade do bebê prematuro de receber oxigênio suplementar às 36 semanas de idade pós-menstrual (PMA) ou por mais de 28 dias de vida. Essa definição foi preconizada até 2018 e meados de 2019. No entanto, várias atualizações e mudanças na definição da doença estão sendo propostas. Segundo a definição atual sugerida, a DBP é o resultado da combinação de imaturidade do desenvolvimento, lesão, inflamação, reparo e cicatrização do pulmão. Os prematuros com maior risco de desenvolver DBP são aqueles com nasceram com menos de 32 semanas de idade gestacional (IG), com doença pulmonar parenquimatosa confirmada por imagem radiológica e com necessidade de oxigênio suplementar por, pelo menos, 3 dias, para manter a saturação periférica de oxigênio (SpO2) entre 90 e 95%, 36 semanas após a PMA. 

Leia também: Eficácia da CNAF na pré-oxigenação durante a sequência rápida de intubação

Com o objetivo de reduzir a incidência de DBP, houve um aumento da utilização de medidas de suporte ventilatório não invasivo (VNI). Um exemplo é o uso de pressão positiva contínua nas vias aéreas (continuous positive airway pressure – CPAP), que proporciona estabilidade às vias aéreas do neonato, aumentando a área de trocas gasosas e diminuindo o trabalho respiratório, reduzindo assim a necessidade de ventilação mecânica invasiva. Todavia, novas modalidades de VNI também têm sido aplicadas, como a cânula nasal de alto fluxo (CNAF). Os benefícios da CNAF incluem diminuição da resistência das vias aéreas e melhor troca gasosa, reduzindo a sobrecarga respiratória. 

Uma revisão sistemática com metanálise realizada no Brasil e publicada recentemente no jornal BMC Pediatrics teve justamente como objetivo avaliar se o uso de CNAF reduz o risco de DBP em recém-nascidos (RN) prematuros, em comparação com o CPAP. 

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Metodologia

O estudo seguiu a metodologia PRISMA e foi registrado no Prospero (CRD42019136631). A revisão foi efetuada nas bases de dados MEDLINE, PEDro, Cochrane Library, CINAHL, Embase e LILACS e nos registros de ensaios clínicos até julho de 2020. Os pesquisadores incluíram ensaios clínicos randomizados comparando o uso de CNAF versus o uso de CPAP em RN prematuros nascidos com menos de 37 semanas de IG. Os principais desfechos foram o desenvolvimento de DBP, síndrome de escape de ar e lesão nasal. 

Resultados

Um total de 2.038 RN prematuros foram analisados neste estudo, sendo que 1.014 fizeram uso de CNAF e 1.024 utilizaram o CPAP. 

Em relação ao uso da CNAF comparado ao CPAP, a maioria dos estudos avaliou como desfecho primário a falha na extubação nas primeiras 72 horas. Os demais avaliaram doença pulmonar crônica após extubação, maior necessidade de oxigênio, tratamento da síndrome do desconforto respiratório primário, eficácia e segurança do CNAF e da alimentação por via oral. A lG da população estudada variou entre 26 e 33 semanas. As doenças mais prevalentes foram: sepse precoce, persistência do canal arterial, pneumotórax, hemorragia intraventricular, infecções, enterocolite necrosante e retinopatia da prematuridade. A maioria dos estudos definiu a DBP como o uso de oxigênio suplementar por 36 PMA, enquanto os outros usaram a definição proposta pelo NICHD ou não tiveram uma definição.

Saiba mais: CPAP reduz risco cardiovascular?

Os pesquisadores descreveram que a maioria dos estudos mostrou um alto risco de viés no domínio de avaliação de resultados cegos. O domínio que apresentou o maior risco de viés foi em relação ao cegamento da avaliação do desfecho, e o domínio com o menor risco de viés foi para dados incompletos de desfecho. Na literatura, os pesquisadores não encontraram nenhum ensaio clínico randomizado com DBP como o desfecho primário para apoiar possíveis resultados.

De modo geral, os resultados demonstraram que:

  • Não houve diferença entre o uso de CNAF e de CPAP no risco de DBP (risco relativo [RR] 1,10; intervalo de confiança de 95% [IC 95%] 0,90–1,34);
  • Não foi encontrada diferença significativa entre o uso de CNAF e CPAP em relação ao desenvolvimento da síndrome de escape de ar (pneumotórax) (RR 1,06; IC 95% 0,52–2,14) e lesão nasal (RR 2,00; IC 95% 0,64–6,25).

Conclusões

Esse estudo demonstrou que o uso de CNAF evoluiu com desfechos semelhantes quando comparado ao uso de CPAP em relação ao risco de DBP, síndrome de escape de ar e lesão nasal em RN prematuros. A prevenção efetiva da DBP, de acordo com esse estudo, permanece um grande desafio em Neonatologia, uma vez que os resultados encontrados não podem ser generalizados para a prática clínica. Dessa forma, a escolha do método de VNI, seja ele CNAF  ou CPAP, permanece uma questão de julgamento clínico da equipe, que deve analisar quais desfechos pretende encontrar com o dispositivo de escolha.

Autor(a):

Referências bibliográficas:

  • de Jesus Brito S, Tsopanoglou SP, Galvão EL, de Deus FA, de Lima VP. Can high-flow nasal cannula reduce the risk of bronchopulmonary dysplasia compared with CPAP in preterm infants? A systematic review and meta-analysis. BMC Pediatr. 2021;21(1):407. Published 2021 Sep 16. doi: 10.1186/s12887-021-02881-z
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Publicado por
Roberta Esteves Vieira de Castro

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