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Evitando uma “segunda tragédia”: desastres naturais e a equipe de Saúde da Família

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O papel da equipe de Saúde da Família (eSF) diante de desastres naturais – como o ocorrido em fevereiro de 2022, em Petrópolis – pode ser fundamental e já discutimos aqui sobre algumas das atribuições que os profissionais de saúde da Atenção Primária devem assumir nessas situações. Tendo a responsabilidade de acompanhar a saúde da comunidade, prevenindo e tratando doenças, a eSF precisa ficar atenta para evitar também “segundas tragédias”. Estas envolvem as consequências diretas e indiretas dos desastres naturais, a diferentes prazos – como as doenças infecto-contagiosas e os problemas relacionados à saúde mental.

Os dias e semanas seguintes a uma tragédia, como as causadas por enchentes e temporais, podem ser caóticos. As pessoas estão fora de suas casas, muitas vezes em abrigos, e a situação de higiene pode ser comprometedora para a saúde. Nesse sentido, é muito importante que a eSF reforce a Vigilância à Saúde – algo que normalmente já é atribuição dela – e adapte as suas ações ao contexto de desordem sanitária. O objetivo é evitar as doenças infecto-contagiosas, que podem acabar causando ainda mais mortes. Após o terremoto de 2010 no Haiti, por exemplo, a cólera surgiu de maneira epidêmica, matando também milhares de pessoas.

Por isso, é essencial saber trabalhar com os cuidados relacionados à distribuição e ao armazenamento de água e ao preparo e ao fornecimento de alimentos. Os abrigos devem ter reservatórios fechados e em locais altos (para evitar o alcance de animais e a utilização como tanques ou para outros fins). A água para consumo deve ser potável e higienizada com hipoclorito (duas gotas, ou 0,08 mL, de hipoclorito a 2,5%, para cada litro de água). A fervura também é um método considerado seguro, na falta de hipoclorito. Os reservatórios de água devem ser limpos com regularidade, também utilizando hipoclorito.

Em relação aos cuidados com os alimentos, a definição do espaço em abrigos para seu preparo pode ser um passo inicial importante. Vale verificar se há uma cozinha formal no local; se será improvisado um espaço para esse fim; ou se os alimentos serão preparados por cada núcleo familiar/social no seu próprio espaço onde dormem. Para melhor controle das condições de higiene, a cozinha comunitária é preferível quando comparada a múltiplos locais de manipulação de alimentos pelas famílias. Há casos em que a alimentação é organizada por voluntários ou em que alimentos prontos são distribuídos; de qualquer modo, é necessário manter a atenção com pessoas com restrições alimentares e necessidades de dietas específicas para manterem-se compensadas de doenças crônicas. Deve-se lavar as frutas e as verduras com água e sabão, desinfectar com hipoclorito (duas gotas, ou 0,08 mL, de hipoclorito a 2,5%, para cada litro de água) e deixar secar naturalmente. Essas orientações devem ser sempre reforçadas, principalmente pelos Agentes Comunitários de Saúde.

Além de doenças infecto-parasitárias, os problemas relacionados à Saúde Mental, de mesmo modo, se tornam ainda mais prevalentes após um desastre natural. A abordagem desses problemas também é atribuição das eSF e faz parte do cuidado a famílias vítimas de tragédias. Como geralmente os serviços encontram-se focados para atendimentos médicos mais imediatos, nos momentos logo subsequentes ao desastre, essa necessidade tão importante pode deixar de ser adereçada pelas equipes. No entanto, doenças como depressão, transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) e até mesmo sofrimentos psíquicos agudos podem ser responsáveis por grande carga de adoecimento e até causarem mortes.

Estudos apontam que uma comunidade atingida por tragédia pode apresentar uma prevalência até quatro vezes maior de transtornos de saúde mental – além dos citados Depressão Maior e TEPT, também de distúrbios do sono, ansiedade e irritabilidade. Torna-se essencial, portanto, que a eSF esteja preparada para a abordagem clínica dessas condições. O acolhimento e a escuta são primeiros passos importantes nesse sentido. Permitir que o paciente fale sobre suas emoções e seus problemas pode ajudá-lo a perceber maneiras de lidar com eles. Essa abordagem, em um momento inicial, pode ser feita em locais além da unidade de saúde, como igrejas, abrigos e ambientes de trabalho, quando identificada a necessidade. Os objetivos desse cuidado inicial são oferecer apoio emocional, reduzir o risco de morte e auxiliar o paciente com os recursos disponíveis da equipe. Por outro lado, é importante também evitar a hipermedicalização, entendendo que emoções como o luto, a tristeza e a raiva podem ser reações normais de uma pessoa em um contexto de tragédia.

Leia também: O que a situação de Petrópolis pode nos ensinar?

Por fim, atenção especial deve ser dada a crianças e adolescentes, principalmente a abrigos com um grande número deles. Momentos de crise aguda como o vivido em Petrópolis podem causar grande sofrimento entre eles, sobretudo quando há rompimentos da rede familiar por mortes ou realocações. Entre as crianças, as orientações sobre higiene são melhor assimiladas e a sensação de segurança tende a aumentar quando há a realização de atividades lúdicas (teatro, música, brincadeiras); na unidade, nos abrigos e, quando possível, na comunidade.

Referências bibliográficas:

  • Yang YK, Yeh TL, Chen CC, Lee CK, Lee H, Lee L, et al. Psychiatric morbidity and posttraumatic symptoms among earthquake victims in primary care clinics. Gen Hosp Psych. 2003
  • Neria, Y, Olfson, M, Gameroff JM, Wickramaratne P, Gross R, Daniel J, et al. The mental health consequences of disaster-related loss: findings from primary care one year after the 9/11 terrorist attacks. Psychiatry. 2008
  • Lopes DC; Barros FAC, Barros Filho MA, Silva MVO. Construindo comunidades mais seguras: preparando para a ação cidadã em defesa civil. Florianópolis: UFSC/CEPED; 2009.
  • Brasil. Ministério da Saúde. Saiba como agir em casos de enchentes [Internet]. Brasília: MS; 2010.
  • Organização Mundial de Saúde. Carta Humanitária e Normas Mínimas de Resposta Humanitária em Situação de Desastre, 2010.
  • Gusso G, Lopes JMC. Tratado de Medicina de Família e Comunidade – 2a edição. Editora Artmed, 2019.
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