Evolução da displasia em esôfago de Barrett

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A doença do refluxo gastroesofágico (DRGE) é extremamente frequente no mundo ocidental e por diversas vezes o paciente realiza tratamentos sintomáticos por conta própria e nem procura auxílio. Daqueles pacientes que procuram auxílio, muitos serão submetidos a uma avaliação por endoscopia digestiva para avaliar o grau de dano na mucosa esofágica. Uma das complicações da DRGE é a metaplasia da mucosa esofágica e a sua posterior evolução para displasia de baixo grau e depois para alto grau.

Já é conhecido que a evolução da displasia num esôfago de Barrett (BE) é maior quanto maior for o segmento do epitélio de Barrett, sendo o acompanhamento mais restrito quando este for longo (> 3,0 cm). Alguns protocolos, inclusive, relatam que epitélios de Barrett menores que 1 cm devem ser ignorados e não classificados como Barrett.

A hipótese deste trabalho foi tentar relacionar o tamanho do esôfago de Barrett com a localização e distância da junção esofagogástrica (JEG) das lesões displásicas ou neoplásicas encontradas.

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Métodos e desenho do estudo

Foi realizado um estudo retrospectivo com banco de dados regionais de um centro de câncer do Reino Unido. Assim foram selecionados os dados de pacientes para comporem três grupos:

  1. Esôfago de Barrett com displasia (baixo ou alto grau).
  2. Adenocarcinoma de esôfago.
  3. Barrett não displásico.

Resultados

Grupo 1— Devido à raridade de pacientes com associação de Barrett e displasia, foram incluídos todos os pacientes dos últimos cinco anos, que resultou em um total de 160 pacientes, sendo 99 com displasia de baixo grau e 61 com displasia de alto grau. O tamanho médio do esôfago de Barrett foi de 4,0 cm. Aproximadamente, 19% dos casos eram em BE menores que 1 cm. A maior parte das displasias foram encontradas na primeira endoscopia do paciente por sintomas de refluxo e destes, 65% não possuíam lesões visíveis que sugerissem alguma displasia.

Grupo 2 – Foram incluídos 100 diagnósticos consecutivos de adenocarcinoma esofágico realizados na instituição de junho de 2018 a agosto de 2019. Destes, 23 possuíam BE visível e acredita-se que quando não visualizado é porque houve um crescimento do tumor sobre a área de Barrett.

Grupo 3 — 100 casos consecutivos de BE sendo 22 > 3 cm, dos BE curtos 53 casos menores que 1 cm e 25 entre 1 e 3 cm.

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Discussão

Esse estudo focou a associação entre o tamanho do BE e os comprometimentos de displasia e adenocarcinomas. Os resultados evidenciaram que aproximadamente 1/5 das displasias ocorrem em até 1 cm da JEG. Da mesma forma, os adenocarcinomas também surgem em posições de até 1 cm da JEG em similares 1/5 dos casos.

As sociedades internacionais orientam um maior controle dos BE longos maiores que 3 cm, e se os estudos continuarem a não incluírem segmentos curtos de Barrett, continuará a existir um viés de seleção. Além disso, já foi reconhecido que a determinação de tamanhos pode variar bastante entre dois endoscopistas.

Devido à alta prevalência de BE curtos, alguns estudos sugeriram que seriam necessários de 3 a 12 mil endoscopias de controle para detectar um câncer esofágico. Isto pode gerar um grande custo operacional e até mesmo colapso.

Na análise da amostra do estudo, em torno de 70% das displasias em BE < 1 cm foram encontradas na endoscopia índice mesmo sem nenhum sinal sugestivo. De forma semelhante, a maior parte dos adenocarcinomas não foram diagnosticadas durante o acompanhamento e sim por endoscopias isoladas.

Conclusão

Propõe que qualquer tamanho de epitélio colunar acima da JEG seja determinado como Barrett e seguir os protocolos de biópsias.

Para levar para casa

Esse artigo, apesar de questionar a rotina proposta por sociedades reconhecidas, não pode ser ignorado, pois nos relembra que mesmo lesões pequenas podem evoluir. O importante nessas situações é individualizar o tratamento a ser dado ao seu paciente.

Autor(a):

Referência bibliográfica:

  • Barrie J, Yanni F, Sherif M, et al. Length of Barrett’s esophagus in the presence of low-grade dysplasia, high-grade dysplasia, and adenocarcinoma. Surg Endosc. 2020. doi: 10.1007/s00464-020-07950-5
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