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Existem evidências do benefício do tratamento para refluxo em lactentes com crises de choro?

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A situação é corriqueira: lactentes jovens, com até 3 meses de vida, apresentando episódios de choro e irritabilidade de forma persistente e acentuada. Essa situação, apesar de comum, gera grande ansiedade em pais, cuidadores e profissionais de saúde, uma vez que diferenciar situações de maior gravidade pode ser desafiador nesses casos. É possível que a maioria desses quadros de choro persistente sejam decorrentes do desenvolvimento neurológico normal dessa faixa etária. Apesar disso, muitas vezes esses episódios se confundem com refluxo gastroesofágico (tanto fisiológico quanto patológico), levando a um aumento na prescrição de medicamentos para o tratamento dessa condição.

Assim, crianças que apresentam episódios mais intensos e persistentes de choro são mais medicadas com inibidores de bombas de prótons e outras terapias voltadas para a doença do refluxo gastroesofágico. O benefício dessa abordagem, porém, é questionável.

Então, temos a seguinte questão: o refluxo gastroesofágico pode realmente ser um fator associado ao choro persistente dos lactentes? Essa questão é fundamental para podermos entender os benefícios e indicações do tratamento do refluxo gastroesofágico de forma a reduzir as tão temidas crises de choro.

Leia também: Crianças com doença do refluxo gastroesofágico consomem mais calorias e gorduras?

Será mesmo que o refluxo é o causador de choro persistente em lactentes?

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Estudo recente

Um estudo publicado em outubro de 2020 no Journal of Pediatric Gastroenterology and Nutrition traz exatamente essa discussão. Nesse artigo, os autores avaliaram a relação entre a irritabilidade dessas crianças, baseada na escala de dor FLACC (“Face, Legs, Activity, Cry, Consolability” — utilizada para lactentes e crianças pequenas), e nos episódios de refluxo gastroesofágico, avaliados através da pH-metria com bioimpedância de 24 horas.

A avaliação foi realizada com lactentes com indicação para realização de pH-metria devido à presença de sintomas de refluxo gastroesofágico sem melhora com tratamento conservador. Foram incluídas 62 crianças no estudo, com monitorização dos episódios de irritabilidade através da escala FLACC avaliada pelos cuidadores da criança, após treinamento específico. Foi avaliado também o número de episódios de refluxo gastroesofágico, tanto ácidos quanto alcalinos. Considerou-se que os episódios de irritabilidade estavam relacionados temporalmente ao refluxo quando ocorriam dois minutos antes ou depois do refluxo registrado pela pHmetria.

Saiba mais: Como identificar e tratar corretamente o refluxo gastroesofágico?

Os autores encontraram uma associação entre os episódios de refluxo e o choro em cerca de metade dos episódios de irritabilidade. Apesar disso, não houve diferença estatística no FLACC de crianças com e sem refluxo. Nos pacientes com refluxo, os valores do FLACC foram menores com refluxo ácido do que com refluxo alcalino (5 vs. 6), demonstrando que refluxos alcalinos são pelo menos tão dolorosos quanto os refluxos ácidos. Além disso, os refluxos precederam os episódios álgicos na maioria das vezes. A duração dos episódios e a extensão de lesões esofágicas causadas pelo refluxo não influenciaram significantemente os episódios de dor.]

Conclusão

Os resultados encontrados no estudo indicam que os episódios álgicos relacionados ao refluxo gastroesofágico provavelmente se devem mais à distensão esofágica causada pelo refluxo do que propriamente pela acidez relacionada. Sendo assim, o uso de inibidores de bombas de prótons de forma generalizada e irrestrita não traz benefícios para as crianças com episódios de choro e irritabilidade. Essas medicações devem ser iniciadas e mantidas em pacientes com doença do refluxo gastroesofágico comprovado e que apresentem lesões ou alterações mais graves relacionadas à doença. Não devem ser iniciadas em crianças que apresentam choro como única evidência da doença.

Autor(a):

Referências bibliográficas:

  • Salvatore S, et al. Distress in Infants and Young Children: Don’t Blame Acid Reflux. Journal of Pediatric Gastroenterology and Nutrition. 2020;71(4):465-469. doi: 10.1097/MPG.0000000000002841
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