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médico supervisionando paciente fazendo tomografia

Exposição à radiação diagnóstica aumenta o risco de câncer de tireoide?

Tempo de leitura: 5 minutos.

O câncer de tireoide é uma das neoplasias mais comuns e sua incidência vem aumentando progressivamente em todo o mundo. Os fatores de risco incluem consumo de iodo, estilo de vida ocidental, exposição a poluentes ambientais, doença benigna da tireoide (tireoidite de Hashimoto) e obesidade.

Estudos com sobreviventes de bombas atômicas, vítimas de acidentes nucleares e pacientes irradiados para o tratamento de doenças benignas e tumores primários revelaram que a exposição a doses moderadas e altas de radiação aumentam o risco de câncer de tireoide. Apesar de grande parte dos exames diagnósticos usarem doses de radiação relativamente baixas, fica a dúvida: a exposição repetida a exames diagnósticos com baixas doses de radiação poderia aumentar o risco de câncer de tireoide?

Com o aumento do uso de exames radiológicos a população fica mais exposta à radiação emitida por diversos procedimentos diagnósticos, como, por exemplo, raios-x de tórax ou dentários, varreduras de tomografia computadorizada (TC) ou exames de perfusão miocárdica por tomografia com emissão de pósitrons (PET-CT).

Alguns estudos sugerem uma relação entre o risco de câncer de tireoide e a exposição à radiação diagnóstica, mas os efeitos específicos da exposição à radiação diagnóstica sobre o risco de câncer de tireoide são controversos.

O objetivo do estudo aqui descrito foi realizar uma revisão sistemática e meta-análise para avaliar os efeitos da exposição à radiação diagnóstica no risco de câncer de tireoide.

Os bancos de dados PubMed e EMBASE foram pesquisados ​​para identificar estudos elegíveis, sendo que o primeiro critério de inclusão era que o estudo tivesse sido realizado em humanos. As buscas revelaram um total de 8.748 estudos, sendo apenas nove incluídos na meta-análise.

Os autores demonstraram que a exposição geral à radiação diagnóstica foi associada a um risco aumentado de câncer de tireoide.

A análise de subgrupos foi realizada levando-se em conta fatores como: tipo de exame radiológico, região corporal exposta, desenho do estudo, métodos de avaliação da exposição e período de latência. Exposição à radiação diagnóstica de cabeça e pescoço (OR = 1,31 [CI 1,02-1,69]) e tórax (OR = 1,71 [CI 1,09-2.69]) foi associada ao risco de câncer de tireoide, mas exposições de outras regiões do corpo não o foram.

Tomografia computadorizada e risco de câncer de tireoide:

– Exposição a TC (OR = 1,46 [CI 1,27-1,68]) foi associada a um risco aumentado de câncer de tireoide.

O uso de exames de TC tem aumentado muito desde 1990, sendo cabeça e pescoço as regiões mais examinadas. Uma TC é um procedimento de dose relativamente alta. A dose de radiação absorvida pela tireoide é maior quando o exame é multifase ou usa um meio de contraste.

Um estudo anterior foi usado para estimar a dose tireoidiana e o risco associado para câncer de tireoide após uma TC de cabeça e pescoço. A absorção de uma dose de 15.2-52.0mGy durante uma TC de pescoço pode aumentar o risco de câncer de tireoide em até 390 casos por milhão de pacientes.

Outro estudo foi realizado para estimar o risco de câncer de tireoide a partir de TC em pacientes pediátricos. As estimativas de risco para câncer de tireoide durante a vida foram:
– TC de cabeça: 1.1 casos por 100.000 para meninos e 8.7 casos por 100.000 para meninas.
– TC de tórax: 2.1 casos por 100.000 para meninos e 14.1 casos por 100.000 para meninas.

Radiografia dental e risco de câncer de tireoide:

– Exposição à radiografia dental foi associada a um risco aumentado de câncer de tireoide (OR = 1.69 [CI 1.17-2.44]).

Os resultados foram consistentes com os resultados de estudos prévios que encontraram que a exposição ao raio-x dental está associada a tumores de cabeça e pescoço.

Uma meta-análise que avaliou a associação entre raios-x dentários e risco de meningioma encontrou que a associação era diferente por tipo de raio-X dental (por exemplo, oclusal, panorâmica, etc) e que a dose de radiação variou por tipo de raio-x dental. A maioria dos artigos incluídos nessa meta-análise não relatou o tipo de raio-x dental, então os resultados não incluíram associações de acordo com o tipo de raio-x.

Mamografia e raio-x de tórax e risco de câncer de tireoide:

– Os resultados para as exposições ao raio-x do tórax e mamografia indicaram que eles não estiveram associados ao risco de câncer de tireoide.

Existe uma dose segura de radiação diagnóstica?

O risco individual de câncer após a realização de um único exame diagnóstico que envolva radiação é extremamente pequeno, no entanto, a exposição à radiação diagnóstica total aumentou substancialmente nas últimas décadas.

Como o uso de radiação diagnóstica pode contribuir para um diagnóstico preciso e tratamento precoce, provavelmente continuará a aumentar, o que torna fundamental avaliar o risco de câncer por exposição à radiação diagnóstica.

É fato que a exposição à radiação diagnóstica pode ser um fator de risco para o câncer de tireoide, e não se pode presumir que exista um limite de dose em que o risco de câncer seja mínimo ou ausente.

Quanto tempo costuma levar para o câncer de tireoide se desenvolver após a exposição à radiação?

O período de latência mínima é maior para tumores sólidos do que para o câncer hematológico. Costuma variar de 10 anos até muitos anos após a exposição inicial à radiação.

Estudos têm encontrado períodos de latência inferiores a quatro anos para os casos de câncer de tireoide. Sabemos que sua incidência aumentou dramaticamente quatro anos após o acidente na instalação nuclear de Chernobyl. De acordo com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA, o tempo de latência mínimo para o câncer de tireoide é de 2,5 anos.

Nem todos os estudos relatam o intervalo de tempo entre a primeira exposição e o diagnóstico, no entanto, a maioria dos estudos reporta mais de cinco anos de período de latência.

Como se explica a relação entre a exposição à radiação e o câncer de tireoide?

A causalidade reversa pode explicar a associação entre a exposição à radiação diagnóstica e o risco de câncer observado neste estudo. Os sintomas precoces do câncer não detectado ou as condições médicas que predispõem um indivíduo ao câncer indicam que exames com radiação diagnóstica, em vez da dose de radiação per se, são a principal causa dessa associação.

Como minimizar os efeitos da radiação diagnóstica sobre a tireoide?

Equipamentos de proteção contra radiação (por exemplo, aventais de chumbo) podem diminuir a carga de radiação corporal durante a realização de exames radiológicos com radiação. Novos estudos são necessários para investigar as diferenças no risco de câncer de tireoide de acordo com a idade na exposição à radiação diagnóstica e ao uso de equipamentos de proteção.

Os profissionais de saúde têm um papel crítico no uso de exames diagnósticos que envolvem radiação. As desvantagens da radiação diagnóstica devem ser consideradas, porém o desenvolvimento desses exames tem sido crucial para a detecção precoce de doenças e diagnósticos mais precisos, o que pode contribuir para a redução da morbidade, a escolha do tratamento mais adequado e o aumento da expectativa de vida, mostrando que uma indicação bem feita com base na avaliação clínica individualizada trará mais benefícios do que riscos a nossos pacientes.

Recomenda-se proteger a tireoide e reduzir as doses de radiação durante os procedimentos diagnósticos sempre que possível. As estratégias incluem preferir exames de imagem sem radiação ionizante, evitar ou reduzir a exposição da tireoide durante exames diagnósticos e evitar o uso de contraste para reduzir a absorção da radiação.

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Autora:

Referências:

  • Diagnostic X-Ray Exposure and Thyroid Cancer Risk: Systematic Review and Meta-Analysis. THYROID Volume 28, Number 2, 2018. Mi Ah Han e Jin Hwa Kim.

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