Psiquiatria

Fadiga do Zoom: o cansaço mental causado pelo home office

Tempo de leitura: 4 min.

Uma pesquisa da Universidade de Stanford revelou a existência de uma “fadiga de Zoom”, cujos sintomas envolvem cefaleia, cansaço físico e mental, estresse e crises de ansiedade dos profissionais em home office ao terem que lidar com muitas horas de reuniões durante uma semana de trabalho. O artigo foi publicado na revista Techology, Mind and Behaviour, da Associação Americana de Psicologia.

Existem muitos outros estudos que mostram como a relação entre as pessoas e os dispositivos tecnológicos pode ser prejudicial de forma exagerada, mas esse é o primeiro que relaciona essa questão especificamente com esse novo formato de trabalho, que exige a presença digital.

Leia também: Orientações sobre a saúde de casais durante a pandemia

Os pesquisadores explicam que o efeito ocorre por conta do excesso de contato visual, olhar o tempo inteiro para a própria imagem, falta de movimentação física e excesso de esforço para se fazer entender.

Esse novo fenômeno também foi notado pela equipe da plataforma GyMBrain, especializada em diagnósticos e tratamento em saúde mental localizada em Ipanema, zona sul do Rio de Janeiro, que viu a procura por atendimentos online dispararem no decorrer do ano passado.

“Inicialmente, com a imposição do isolamento do contato social, houve uma migração dos atendimentos presenciais para o digital. Já atendemos a essa demanda desde 2017 com uma captação de 4% do atendimento por via digital, mas com o isolamento social esse número saltou para 88%. Porém, o mais impactante foi realmente o aumento exponencial da base em mais 250%, em sua grande maioria para o digital”, revelou o psiquiatra e professor Roberto Miotto, diretor técnico da GyMBrain, em entrevista para o Portal de Notícias da PebMed.

O especialista considera o isolamento social como a real pandemia de doenças mentais e que 95% das pessoas que migraram do seu trabalho para o home office sofreram, sofrem ou ainda sofrerão com os sintomas dessa descontrolada jornada sem rotinas.

“Essas mudanças de demandas desorganizam os sistemas de uma forma geral, do sistema hormonal aos de neurotransmissores e, consequentemente do sono, da memória, da cognição gerando comportamentos adaptativos disfuncionais como mais agressividade, irritabilidade, hipervigilância, insônia, ansiedade, burnout, depressão e outras muitas disfunções”, complementou o professor Miotto, que também é especializado em neurologia, psiquiatria geriátrica e medicina do sono.

Mulheres sofrem ainda com a pressão pela aparência

A pesquisa também busca compreender como a pandemia da Covid-19 atinge determinados grupos de pessoas. De acordo com o estudo, uma a cada sete mulheres diz se sentir muito ou extremamente exausta (13,8%), enquanto apenas 5,5% dos homens (1 a cada 20) entrevistados disseram o mesmo. Participaram da pesquisa 10.322 pessoas entre fevereiro e março, que foram entrevistadas através de uma escala de fadiga e exaustão desenvolvida pelos pesquisadores.

Os cientistas descobriram que o que contribui para a exaustão entre as mulheres é a questão da “atenção autocentrada”, que consiste na preocupação social excessiva com a aparência durante as chamadas de vídeo.

Como lidar com a situação

De acordo com os pesquisadores de Stanford, acabar com a “fadiga do Zoom” não exige grandes esforços, mas é preciso entender a gravidade da situação para conseguir fazer as mudanças necessárias na rotina de trabalho em casa.

Algumas empresas já estão implementando regras para reuniões online, como tempo máximo da reunião, horários completamente livres e evitar reuniões desnecessárias para que os seus colaboradores consigam produzir melhor, com menos pressão e estresse.

Sugestões para amenizar e tratar dos sintomas da “fadiga do zoom” não faltam.  Desde a orientação em procurar um psicólogo, até alternativas como meditação e técnicas de mindfulness no trabalho.

“A programação de pausas para “limpar” a cabeça, para respirar, meditar, se exercitar e até breves cochilos durante a longa jornada melhora substancialmente a produtividade, entrega e afastam das doenças mentais. A prática de atividade física aeróbica regular, pelo menos 150 minutos por semana, mesmo que seja nas escadas de casa, ou pulando corda, não tem como ser sabotada, por mais difícil que possa parecer é a mais eficaz forma não farmacológica de resgate dessa fadiga cansaço e sofrimento mental”, ressaltou o diretor técnico da GyMBrain.

Saiba mais: Educação virtual pode trazer mais riscos à saúde mental que as aulas presenciais?

*Esse artigo foi revisado pela equipe médica da PEBMED

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Publicado por
Úrsula Neves

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