Pediatria

Fatores de risco cardiovascular em crianças e disfunção diastólica na vida adulta

Tempo de leitura: 3 min.

A obesidade e a redução de atividade física têm atingido níveis preocupantes em crianças e adolescentes, especialmente no contexto atual da pandemia de Covid-19. Fatores como obesidade, resistência insulínica e hipertensão arterial sistêmica têm sido associados com insuficiência cardíaca com fração de ejeção de ventrículo esquerdo preservada, mas essa associação tem sido demonstrada em adultos, não existindo estudos que demonstrem os fatores de risco cardiovascular associados em crianças que levem à essas alterações na vida adulta.

A insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada é uma síndrome clínica caracterizada por sintomas de disfunção cardíaca sem uma redução da função sistólica do ventrículo esquerdo. Alterações relacionadas a esse quadro incluem redução do enchimento ventricular esquerdo e aumento da rigidez diastólica do ventrículo esquerdo. As alterações ecocardiográficas costumam ser observadas em estágios mais tardios da doença, e por não existirem medidas terapêuticas adequadas para o tratamento dessa condição, a prevenção é um dos pilares mais importantes no combate à essa situação.

Leia também: Covid-19: OMS alerta para uma nova síndrome inflamatória em crianças e adolescentes

Sendo assim, é fundamental o conhecimento dos fatores de risco presentes na infância que levem à essa condição na vida adulta, de forma a propiciar intervenção precoce.

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Novo estudo

O estudo “Cardiovascular Risk Factors in childhood and left ventricular diastolic function in adulthood”, publicado na revista Pediatrics em março de 2020, traz resultados de um estudo longitudinal que visa trazer dados inovadores a respeito dessa situação. O trabalho, que é parte do estudo longitudinal Cardiovascular Risk in Young Finns Study (YFS), foi focado num estudo multicêntrico de base populacional realizado na Finlândia iniciado em 1980, e que avaliou 3.596 crianças e adolescentes nas idades de 3, 6, 9, 12, 15 e 18 anos.

As crianças foram avaliadas com relação aos seus riscos cardiovasculares na entrada no estudo, e acompanhadas com relação aos mesmos fatores nos anos de 1983, 1989, 2001, 2007 e 2011. Além disso, houve avaliações ecocardiográficas de 1994 participantes em 2011. Após retirada de participantes com doenças cardiovasculares graves, como acidentes vasculares encefálicos e infarto agudo do miocárdio, diabetes tipo 1 e ausência de dados ecocardiográficos, foram incluídos no estudo 1.871 participantes, sendo 859 homens e 1012 mulheres, com média de idade de 41,8 anos.

Resultados

Após avaliação dos dados das crianças e dados ecocardiográficos na vida adulta, o estudo encontrou associação entre adiposidade cumulativa (em todos os anos avaliados) e pressão arterial sistólica com a redução da função diastólica de VE na vida adulta. A realização de atividades físicas cumulativas (em todos os anos avaliados) esteve associada com melhora da função diastólica de ventrículo esquerdo na vida adulta. Não houve associação entre a função diastólica de VE na vida adulta e outros fatores cardiovasculares conhecidos, como insulina sérica, triglicerídeos, colesterol total e níveis de HDL ou LDL.

Quando excluídos os fatores de confundimento do modelo, ou seja, excluídas as participações da obesidade, pressão arterial sistólica e atividade física realizada na vida adulta, os fatores de obesidade e atividade física na infância continuaram a ter impacto na função diastólica na vida adulta, enquanto o fator da pressão arterial sistólica na infância deixou de ter relevância na função diastólica de ventrículo esquerdo na vida adulta. Esses resultados indicam que o aumento da adiposidade e a redução da atividade física na infância são elementos que interferem independentemente com a disfunção diastólica de ventrículo esquerdo na vida adulta.

Saiba mais: Você sabe avaliar uma criança com sopro cardíaco?

Além disso, os resultados também indicaram um aumento no risco de disfunção diastólica de ventrículo esquerdo na vida adulta em crianças com maior número de fatores de risco. Comparado com as crianças sem fatores de risco, os participantes que se apresentaram com 2 ou 3 fatores de risco cardiovascular tiveram risco aumentado de disfunção diastólica do ventrículo esquerdo (p = 0,047 e p = 0,0066, respectivamente).

Novas perspectivas

O estudo vem somar a uma quantidade de estudos na literatura no que diz respeito aos benefícios da atividade física e da redução do peso em crianças, enfatizando nos benefícios de longo prazo, além disso, a redução do risco cardiovascular é mais intensa quando dois ou mais fatores são manejados conjuntamente.

De forma igualmente importante é o fato de que os marcadores laboratoriais e a pressão arterial sistólica durante a infância parecem não ser bons preditores de disfunção diastólica na vida adulta.

Esses dados nos dão um melhor direcionamento sobre como abordar esse tipo de risco na infância, inclusive com um melhor manejo dos recursos disponíveis, uma vez que a avaliação da obesidade e da atividade física e o incentivo para melhoria desses fatores é mais acessível e menos custoso do que avaliações laboratoriais extensas em crianças.

Autor(a):

Referências bibliográficas:

  • Heiskanen JS, Ruohonen S, Rovio SP, et al. Cardiovascular Risk Factors in Childhood and Left Ventricular Diastolic Function in Adulthood. 2021;147(3):e2020016691. doi: 10.1542/peds.2020-016691
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Publicado por
Dolores Henriques

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