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Febre do Oropouche: porque e o que você precisa saber

Tempo de leitura: 4 minutos.

Nos últimos anos algumas arboviroses (doenças causadas por vírus transmitidos por artrópodes, como os mosquitos) vêm ganhando importância no âmbito da saúde pública brasileira. Além das epidemias de dengue enfrentadas desde a década de 1990, nos últimos anos também se observou a introdução e disseminação do vírus Chikungunya a partir de 2013 e do vírus Zika a partir de 2015. Por último, desde 2017 vivemos o maior surto de febre amarela já reportado no país 1,2. Nesse contexto, o vírus do Oropouche, outro arbovírus, também surge em destaque como doença candidata para a próxima epidemia não apenas no Brasil, mas nas Américas 3.

Embora o vírus tenha sido descoberto em 1955 e já estivesse presente na América do Sul e Central há muito tempo (no Brasil, por exemplo, há descrições de infecções em humanos na Amazônia desde a década de 1960), em julho de 2017, quando dois casos foram identificados no estado da Bahia, houve um alerta de uma potencial ampliação de seu território, inclusive para grandes centros urbanos do país. Lembrando que, anteriormente, em 2002, pesquisadores já haviam diagnosticado 128 pessoas infectadas pelo vírus em Manaus (AM) 4,5.

Estudos sorológicos recentes em humanos e mamíferos selvagens também encontraram o vírus Oropouche na Argentina, Bolívia, Colômbia e Equador, dando mais substrato para uma disseminação de nível continental. De fato, em 2016, o sul do Peru informou a presença de uma nova epidemia de febre do Oropouche 5,6.

Segundo o último Boletim Informativo da Secretaria Municipal de Saúde de Salvador, aqueles dois primeiros casos não foram confirmados como adquiridos em Salvador, ou seja, não eram confirmados como autóctones, visto que aquelas pessoas tinham história de viagem recente. Porém, em dezembro de 2017, a Vigilância Epidemiológica foi notificada sobre mais um indivíduo infectado residindo em Salvador. Após essa notificação, procederam-se ações de vigilância, prevenção e estratégias de controle do vetor.

Durante as investigações epidemiológicas, confirmou-se o novo caso como autóctone e foram identificados mais oito casos suspeitos que se encontravam, até a liberação do Boletim Informativo, em investigação laboratorial.

O vírus Oropouche é transmitido principalmente pelo mosquito da espécie Culicoides paraensis (conhecido como maruim) e é importante ressaltar que esse mosquito está presente em todo o continente americano. Também já foi identificado na espécie Culex quinquefasciatus (conhecido como muriçoca ou pernilongo) 4,5.

Febre do Oropouche: diagnóstico e tratamento

A Febre do Oropouche apresenta um quadro clínico bem parecido com o de outras arboviroses. Seus principais sintomas são febre e cefaleia seguido de mialgia, artralgia, falta de apetite, rash cutâneo, fotofobia, dor nos olhos, hiperemia conjuntival, náuseas, diarreia, calafrios, bronquite e sensação de queimação no corpo. Casos raros de meningite asséptica também foram descritos. Os sintomas duram de quatro a cinco dias, mas em um terço dos casos pode haver recaída e os sintomas durarem mais cinco dias 4,5.

Adaptado de Romero-Alvarez, D., & Escobar, L. E. (2017).

Laboratorialmente o paciente apresenta leucopenia. O líquido cefalorraquidiano de indivíduos com meningite (documentada inclusive com isolamento do vírus nesse material) mostrou níveis normais de glicose, pleocitose e aumento da proteinorraquia 5,7.

O diagnóstico pode ser feito por isolamento do vírus em culturas de células e por técnicas moleculares (RT-PCR) ou por testes sorológicos, estes últimos devem ser coletados após cinco dias do início dos sintomas 5.

O tratamento, como em outras arboviroses emergentes, com exceção da febre amarela, é focado no controle dos sintomas (manejo da febre e alívio da dor), mas sempre precedido de uma cuidadosa classificação de risco. Lembrar que por se atribuir a dengue o maior risco de complicações, novamente excluindo a febre amarela, os protocolos de conduta para pacientes com suspeita de arboviroses que vêm sendo propostos recomendam fortemente o manejo clínico desses casos como, antes de tudo, suspeitos de dengue 8.

A febre do Oropuche tem bom prognóstico, mesmo entre pacientes hospitalizados, e nenhum caso fatal foi descrito desde a sua primeira epidemia registrada em 1960 5.

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Referências:

  1. Fauci, A. S., & Morens, D. M. (2016). Zika Virus in the Americas — Yet Another Arbovirus Threat. New England Journal of Medicine, 374(7), 601–604.
  2. Paules, C. I., & Fauci, A. S. (2017). Yellow Fever — Once Again on the Radar Screen in the Americas. New England Journal of Medicine, 376(15), 1397–1399.
  3. Rodríguez-Morales, A. J., Paniz-Mondolfi, A. E., Villamil-Gómez, W. E., & Navarro, J. C. (2017). Mayaro, Oropouche and Venezuelan Equine Encephalitis viruses: following in the footsteps of Zika?. Travel medicine and infectious disease, 15, 72-73.
  4. Secretaria Municipal da Saúde. Diretoria de Vigilância em Saúde Centro de Informações Estratégicas em Vigilância à Saúde. Informe para situação epidemiológica da febre do oropouche em Salvador-BA. Boletim Informativo SMS/DVIS/CIEVS N. 13/2017 de 18 de dezembro de 2017.
  5. Romero-Alvarez, D., & Escobar, L. E. (2017). Oropouche fever, an emergent disease from the Americas. Microbes and infection.
  6. Tilston-Lunel NL. Oropouche virus: poised for headlines? [Internet]. [Accessed 14 Jan 2018].
  7. de Souza Bastos, M., Figueiredo, L. T. M., Naveca, F. G., Monte, R. L., Lessa, N., de Figueiredo, R. M. P., … & Mourao, M. P. G. (2012). Identification of Oropouche Orthobunyavirus in the cerebrospinal fluid of three patients in the Amazonas, Brazil. The American journal of tropical medicine and hygiene, 86(4), 732-735.
  8. Centro de Vigilância Epidemiológica, Coordenadoria de Controle de Doença, Governo do Estado de São Paulo. 2017. “Orientação de atendimento para casos suspeitos de dengue, chikungunya e Zika”.

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