← Voltar

Ideação suicida em visita domiciliar e dificuldades com o SAMU

Renato Bergallo

Medicina de Família e Comunidade · CRM: 52966622/RJ

Denuncie

No encejo do Setembro Amarelo, tive uma experiência desagradável com o SAMU ao identificar risco de suicídio durante uma visita domiciliar. Fui atender o paciente em casa, idoso, com limitação de deambulação e, quando sua esposa saiu do quarto onde eu o atendia, ele me confessou que queria se matar se jogando pela janela (moram no oitavo andar de um prédio). Já em tratamento para depressão, mas com ideação suicida presente no momento do atendimento e plano traçado. Ou seja, possuía indicação de ser avaliado em unidade de emergência e talvez de ser internado. Como estávamos em seu domicílio, o fluxo para remoção do paciente era através do SAMU. Liguei para o 192, expliquei o caso e eles mandaram a ambulância, que demoraria ainda um tempo para chegar. Conversei com a esposa dele e a deixei ciente da gravidade do caso. O paciente concordou em ser levado ao hospital para ser avaliado. Como eu tinha agenda para atender na unidade e o caso estava sob controle aguardando a ambulância, troquei telefones com a esposa do paciente voltei para a clínica.

Para minha surpresa, ela me liga cerca de duas horas depois explicando que o SAMU chegou, "mediu a pressão" do paciente e "disseram que estava boa" e que, por isso, não haveria necessidade de removê-lo. Foram embora e deixaram o idoso com ideação suicida lá.

Imediatamente, liguei de volta para o SAMU, revoltado, e expliquei novamente a situação e a indicação clínica de remoção do paciente, ressaltando inclusive sobre a responsabilidade de quem decidisse pela não remoção no caso se o paciente, eventualmente, de fato, cometesse o suicídio. Eles, então, mandaram outra ambulância. E dessa vez orientei a esposa que me ligasse no momento da chegada deles. Consegui a remoção do paciente, após conversar com os profissionais, mas não sem muito aborrecimento (e risco para o paciente).

Confesso que as minhas experiências (e as que ouço de colegas) de remoção de pacientes em domicílio pelo SAMU, quando solicitadas pelo médico da Atenção Primária, são geralmente desagradáveis. Mais alguém já passou por uma situação dessas? Dicas? Fariam alguma coisa diferente? É assim que funciona o fluxo de remoção de pacientes atendididos em visitas domiciliares no seu município também?

Susana Soledade:

Não se aplica · CRM: 415135/BA
Data do comentário: 16/09/2021 - 23h37

Sim. Não houve o resgate pelo SAMU, inclusive. Notei na visita de paciente em depressão que ele estava muito agitado, com dilatação de pupilas. Nos expulsou de sua casa. De repente, iniciou vômitos de vários fragmentos de comprimidos. Acionei o SAMU, e a resposta foi "não somos táxi". 

Colocamos o paciente contra a sua vontade no carro com ajuda da família, e fomos na emergência. O paciente chegou desacordado. Eu e o colega do plantão fizemos a lavagem gástrica e demais cuidados, salvamos o paciente. Eu nem trabalho nesse hospital, mas fiquei lá o tempo necessário. 

Hoje, o paciente tratado para depressão está com uma vida plena e produtiva. Trabalho, família, faculdade, sonhos. Sempre que me vê, me agradece por não ter desistido de ajudá-lo a viver.

O SAMU me decepcionou mais duas outras vezes. Pena...

Belkzedek Vaz Pereira:

CRM não verificado
Data do comentário: 17/09/2021 - 03h13

Se foi necessário acionar o serviço de urgência/emergência através do SAMU192 para realizar o transporte e medidas complementares de atenção ao paciente, o fato de ter "outras visitas agendadas" não justifica o profissional haver abandonado um paciente em eminente possibilidade de suicídio. Ou o paciente nao possuía esse risco ou quem realizou o primeiro atendimento assumiu esse risco ao ir embora. O Samu realmente não é um serviço de delivery, visto q o primeiro atendimento foi dado, o médico que assistiu deveria passar o caso aos profissionais que viessem realizar o atendimento, isso até como um ato de educação e respeito.

 

Indira Prado:

CRM: 30404/BA
Data do comentário: 17/09/2021 - 07h58

Sou plantonista do SAMU e vejo como falava a triagem inicial ao telefone, falta orientações aos pacientes, somos enviados para ocorrências relevantes, enquanto quem realmente precisa não tem atendimento. Infelizmente falta preparo dos colegas para tal tarefa e quem realmente precisa de cuidado e assistência, fica sem atendimento. 

Indira Prado:

CRM: 30404/BA
Data do comentário: 17/09/2021 - 08h00

Corrigindo: " falha a triagem inicial ao telefone"

adolfo André Mendes De Lima:

CRM: 01153382/RJ
Data do comentário: 17/09/2021 - 08h05

A discussão é valida. Como  medico regulador do SAMU fico com a pergunta para a equipe do  psf que abriu o chamado: 1 - porque foram embora? porque não fizeram uma carta relatando o que ocorreu para o medico que irá receber o paciente no hospital? 2 - porque não esperou a equipe do SAMU chegar na residencia? 3 - porque não ferificou sinais vitais e passou para o medcico regulador do SAMU? 4- o medico ou enfermeiro do PSF que viu o paciente em visita domiciliar tem que ficar no local e se descolocar junto com a equipe do SAMU até o hosptal para passar a equipe da unidade recebedora o casa ( isso está previsto em lei, desde que a VTR nao estaja com medico).  O que fica evidente foi a passagem de responssabilidade de atendomento do PSF para o SAMU, a equipe do PSF tem que ser melhor orientada

Carlos Alberto Figueiredo Miranda:

CRM: 64078/SP
Data do comentário: 17/09/2021 - 14h30

CONCORDO EM NUMERO E GRAU COM COLEGA ANTERIOR.. PRESSUPONHO SIM UM RUIDO DE COMUNICAÇÃO DO COLEGA VISITADOR COM 192.. NÃO SE REPORTANDO DIRETAMENTE O MEDICO REGULADOR QUE TERIA REALIZADO TODAS ESSAS ORIENTAÇOES E PERGUNTAS AO SOLICITANTE ASSIM COMO FORMALIZAR POR ESCRITO A SOLICITAÇÃO E A SUA PERMANENCIA NO LOCAL .. 

SAMU É SERVIÇO MEDICO DE ATENDIMENTO A URGENCIA E EMERGÊNCIA.. INFELIZMENTE NO BRASIL POR SER GRATUITO E SEM MULTAS POR USO INDEVIDO ..É INTERPRETADO COMO SERVIÇO DE ACIONAMENTO SEM QQ CRITÉRIO PELA MAIORIA DA POPULAÇÃO..E INFELIZMENTE ALGUNS GOVERNANTES ..

SUGIRO A LEITURA DAS PORTARIAS ABAIXO QUE REGULAM O ATENDIMENTO E CARACTERIZAÇÃO ADEQUADA DA URGÊNCIA EM URGENCIA PSIQUIATRICAS DE SUICIDIO E AUTO MUTILAÇÃO..

PORT. 3819/2019

PORT  10225/2020

 

 

CARLOS A F MIRANDA

CRM SP 64078

SAMU SP 

INTERVENÇÃO E REGULAÇÃO MÉDICA 

Carlos Alberto Figueiredo Miranda:

CRM: 64078/SP
Data do comentário: 17/09/2021 - 14h46

SUGIRO AO COLEGA DA ASSISTÊNCIA REVER ESTE "EQUIVOCADO ESTIGMA" DO SAMU .. INFELIZMENTE NEM SEMPRE NOS CURSOS DE MEDICINA HÁ O CUIDADO DE MOSTRAR AO DOUTORANDO O REAL E CORRETO FUNCIONAMENTO DESTE ESSENCIAL SERVIÇO MÉDICO PRESTADO À POPULAÇÃO EM QQ. PAIS QUE ELE EXISTA..

Andre Yudi Azuma:

CRM: 50791/RS
Data do comentário: 18/09/2021 - 08h04

Júlia D'El Rei Fernandes:

CRM: 35101/BA
Data do comentário: 19/09/2021 - 15h36

Acredito que na verdade haja uma deficiência na identificação do que é uma emergência psiquiátrica pelo SAMU. Trabalho na área e recebemos diversos casos que não competem a emergência psiquiátrica, e sim clínica, ou então pacientes que estão em tentativa de internamento há dias não conseguem chegar até a emergência porque a SAMU não atende e não faz contenção. Na regulação, dificilmente repassam informações que de fato caracterizem a situação, ou são insuficientes, então quando o paciente chega para nós acaba sendo uma caixinha de surpresas e temos que rever toda a condução do paciente. Acredito que um treinamento básico na área para técnicos e reguladores fizesse toda a diferença. Um paciente psiquiátrico descompensado também compromete a saúde de seus cuidadores, familiares e outros de sua convivência.

Enviar comentário

Loading...

Esse conteúdo é exclusivo para médicos.

Para ter acesso, identifique-se através do login ou cadastre-se gratuitamente!

Entrar | Cadastrar