Oftalmologia

Gravidez: o que o oftalmologista deve saber sobre alterações oculares?

Tempo de leitura: 3 min.

A gravidez afeta todo e qualquer sistema do corpo humano. Sendo assim, alterações oculares também são comuns. Grande parte das alterações são transitórias e não necessitam de tratamento, enquanto algumas poucas são permanentes. Podem ser divididas em alterações fisiológicas, que ocorrem normalmente na gravidez e patológicas, que podem surgir pela primeira vez na gravidez ou relacionadas a doenças preexistentes que são afetadas pela gravidez. Um artigo publicado ano passado no Indian Journal of Ophthalmology revisou a literatura sobre alterações oculares induzidas pela gestação e distinguiu entre as condições benignas e patológicas.

Leia também: Pacientes com queixas oculares em tempos de Covid-19 

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Quais seriam as alterações oculares fisiológicas? 

  1. Aumento da pigmentação ao redor das bochechas e dos olhos (cloasma gravídico) causado pelo aumento da progesterona, estrogênio e hormônios estimuladores de melanócitos;
  2. Ptose uni ou bilateral associado a retenção de líquido e alterações hormonais que podem causar defeito na aponeurose do músculo elevador da pálpebra superior;
  3. Síndrome do Olho seco relacionada a interação dos níveis de estrogênio e testosterona, aumento da imunoreatividade da prolactina, aumento da viscosidade da lágrima e estado de desidratação que pode ocorrer no primeiro trimestre;
  4. Aumento da curvatura corneana e aumento da espessura (por edema corneano). Sensibilidade corneana começa a diminuir com mais ou menos 31 semanas de gestação;
  5. Diminuição da pressão intraocular por causa da flutuação hormonal e aumento no fluxo de saída do aquoso com redução da produção do mesmo. A pressão intraocular é maior no primeiro trimestre e no período puerperal do que no terceiro trimestre;
  6. Perda transitória da acomodação devido a mudanças de curvatura do cristalino. A retenção líquida afeta o poder refrativo pelo shift miópico. Não se recomenda trocas as prescrições dos óculos antes de algumas semanas pós parto;
  7. Alterações no campo visual que variam entre hemianopsia bitemporal, redução concêntrica no campo visual e hemianopsia homônima associadas ao enlargamento da pituitária;
  8. Aumento da espessura da coroide, principalmente no segundo trimestre;
  9. Pressão diminui, volume sanguíneo aumenta e existe um estado de hipercoagulabilidade. Tudo isso pode refletir em alterações na vasculatura retiniana.

Quais seriam as alterações patológicas?

  1. Pré-eclâmpsia e eclâmpsia: Pacientes em risco de desenvolver disfunção na retina e na coroide que pode levar a perda de visão. O estreitamento arteriolar focal pode se tornas generalizado e é o achado mais comum na retinopatia relacionada a eclâmpsia. Além desse os achados hipertensivos são de hemorragias, papiledema e acúmulo de fluido subretiniano. Outros achados associados podem ser hemorragia vítrea, cegueira cortical, descolamento seroso da retina e oclusão de veia central da retina. Os pacientes podem se queixar de borramento visual, flashes de luz e perda de campo visual. Cegueira cortical pode ocorrer no final da gravidez ou logo após depois do parto pelo envolvimento do lobo occipital;
  2. Coriorretinopatia serosa central: geralmente resolve de forma espontânea depois do parto com mínimas ou sem sequelas.  Se inicia em geral no terceiro trimestre com quadro de metamorfopsia, piora da visão, escotoma central e perda da cor e sensibilidade ao contraste. Ocorre aumento de catecolaminas durante a gravidez que causa um aumento do cortisol no terceiro trimestre. O estresse vasomotor na gravidez também pode levar a disfunção da coroide que pode ter um papel na desordem;
  3. Oclusão de veia e artéria da retina: Caso a paciente tenha eclâmpsia ou pré, pode haver um risco aumentado de oclusões. Isso ocorre pelo baixo fluxo placentário resultando em disfunção endotelial e anormalidades vasculares retinianas. Fora esses casos, a incidência de oclusão na gravidez ainda é bem menor que na população feminina não grávida da mesma idade;
  4. Retinopatia de Purtscher pode ocorrer no pós-parto imediato com manchas algodonosas difusas com ou sem hemorragias intrarretinianas;
  5. O estado de hipercoagulabilidade ainda pode levar a PTT, coagulopatia intravascular disseminada, embolismo fluido amniótico, síndrome do anticorpo antifosfolipídio. Estas condições podem estar associadas a oclusões principalmente venosas.

Autor(a):

Referências bibliográficas:

  • Morya AK, Gogia S, Gupta A, Prakash S, Solanki K, Naidu AD. Motherhood: What every ophthalmologist needs to know. Indian J Ophthalmol. 2020;68(8):1526-1532. doi:10.4103/ijo.IJO_2033_19
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Publicado por
Juliana Rosa

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