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Há diferenças no cérebro de homens e mulheres?

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Buscar justificativas biológicas que expliquem as diferenças entre homens e mulheres é objeto de estudo há muito tempo. Assim que resultados de pesquisas são publicados, independente dos inúmeros vieses que contém, programas de televisão, jornais e até mesmo conferências sobre liderança polemizam o assunto. Certa ocasião, em 2010, um programa da televisão norte-americana declarou que os homens teriam “seis vezes e meia mais massa cinzenta” do que as mulheres, enquanto as mulheres teriam “dez vezes mais matéria branca” do que os homens.

A partir daí, surgiram argumentos sobre o talento dos homens na matemática e a capacidade das mulheres em realizar multitarefas. Para que tal assertiva fosse verdade, seria necessário que as cabeças das mulheres fossem 50% maiores. Porém esse raciocínio lógico não surgiu quando gerar audiência, a partir de falsas inferências de um estudo questionável, era mais rentável.

Como se pode perceber, a história da pesquisa acerca das diferenças entre os sexos é repleta de interpretações errôneas, inferências falaciosas, vieses de publicação, intervalos de confiança fracos. A neurocientista Gina Rippon, uma das principais vozes nesse assunto, aponta muitos desses exemplos em seu livro, The Gendered Brain. A autora afirma que se cria um ciclo eterno de falsas explicações. Essa caça por diferenças cerebrais tem resistido eras, explodindo nos últimos 30 anos com o uso da ressonância magnética. No entanto, como revela o livro de Rippon, não se identificou até o momento diferenças significativas entre o cérebro de homens e mulheres.

Um pequeno estudo da Nature (BA Shaywitz et al. Nature 373, 607-609; 1995) declarou que o processamento da linguagem não é distribuído tão uniformemente nos hemisférios cerebrais das mulheres como o é nos homens, porém uma grande meta-análise de 2008 (IE Sommer et al., Brain Res. 1206, 76-88, 2008) prova que a declaração não é válida. Em 2014, pesquisadores da Universidade da Pensilvânia elaboraram um estudo de ressonância magnética que imprimiu uma imagem comparativa dos cérebros de homens e mulheres e os relacionava a linhas do metrô: as conexões nas mulheres são em sua maioria entre os hemisférios e nos homens dentro de cada hemisfério (M. Ingalhalikar et ai. Proc. Natl Acad. Sei. USA 111, 823-828; 2014). O estudo, entretanto, omitiu a grande maioria das conexões que não diferiram entre os participantes adolescentes. Alguns vieses também não foram controlados, como o volume do cérebro entre os gêneros e as diferenças com idade e desenvolvimento.

Observam-se sim algumas diferenças, porém não quanto ao gênero. De fato, o volume da massa cerebral aumenta com o tamanho do corpo; além disso, a proporção de substância cinzenta para a substância branca ou a área da secção transversal do corpo caloso aumenta de forma não linear com o tamanho do cérebro. A mensagem central de Rippon em seu livro é de que “um mundo de gênero produzirá um cérebro de gênero”. Segundo a neurocientista, procurar diferenças constitucionais entre homens e mulheres é o que se espera de uma sociedade em que o machismo perdura pelos séculos.

Se já em 1985, um psicólogo social, Gustave Le Bon, declarava que “as mulheres são as formas mais inferiores da evolução ‘humana'” e, que em pleno século XXI, um engenheiro do Google, James Damore, publica em sua conta virtual sobre as causas biológicas pela falta de mulheres em cargos de tecnologia e liderança;  o que de bom podemos esperar? A busca por provas de inferioridade da mulher foi substituída por tentativas de se comprovar a complementaridade entre os gêneros. Nesse pensamento, mulheres não seriam menos inteligentes que os homens, apenas diferem com base em seu papel exercido na sociedade. Assim, enquanto os cérebros das mulheres estariam ligados à empatia e à intuição, os cérebros masculinos à razão e ação.

Se não há diferença estrutural, como podemos então explicar as diferenças no comportamento e nos interesses entre homens e mulheres? A Dra Rippon explica isso através dos diferentes caminhos culturais que são construídos. Ela escreve em seu livro que, desde o nascimento, as crianças são saturadas com as diferenças de um mundo rosa ou azul. Para ela, isso perpassa com o crescimento do indivíduo, e quando na fase adulta, mulheres talentosas são consideradas trabalhadoras e homens grandes são gênios. Isso contribui para construção de expectativas diferenciadas, compromete a autoestima e interfere na tomada de confiança; levando meninos e meninas a diferentes trajetórias.

O livro cumpre seu objetivo inicial de desmascarar o conceito construído de um cérebro diferente para cada gênero. É estabelecido em suas páginas que esse órgão não tem mais diferenças masculino ou feminino que o fígado, os rins ou o coração tenham. Para ela, a maior parte da população permanece presa a conceitos retrógrados que “desvirtuam um cérebro unissex”.

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Referências:

  • Eliot, L. Bad science and the unisex brain. Nature, Vol 566: 453-4. 2019.

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