Pediatria

Há qualidade nutricional nos produtos de café da manhã das crianças espanholas?

Tempo de leitura: 3 min.

Um estudo realizado na Espanha mostrou que os produtos de café da manhã direcionados a crianças contêm o um valor nutricional baixo ou muito baixo. O estudo foi publicado no jornal Nutrients.

Há muito tempo, o café da manhã é recomendado como a refeição mais importante do dia. Na Espanha, apenas 3,36% da população costuma pular o café da manhã, enquanto o restante da população costuma fazer uma refeição completa. Um café da manhã espanhol completo é composto, normalmente, por produtos lácteos, como leite e cereais, e pão. Dados recentes mostram que o pão é o principal contribuinte para a ingestão total de energia em todas as faixas etárias na Espanha (11,6%), juntamente com outros produtos de panificação e doces (6,8%). Em segundo lugar estão as carnes (15,2%) e em terceiro, óleos e gorduras (12,3%). O leite e seus derivados contribuem com 11,8% do consumo total de energia, sendo maior em crianças (15,9%) do que em adultos (11,8%). Infelizmente, a presença de frutas e hortaliças nas residências espanholas durante o café da manhã é quase imperceptível (4,7%), exceto na população idosa (8,7%). Consequentemente, na Espanha, observa-se que um terço de todas as crianças e dois terços dos adultos sofrem de excesso de peso, o que gera custos anuais em torno de dois bilhões de euros.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), a prevalência de obesidade em crianças na Espanha é a mais alta da Europa. Diversos estudos apontam para a existência de um contexto que promove a obesidade, resultado da relação entre o tempo de assistir à televisão (TV) e a ingestão de alimentos hipercalóricos. Alguns desses estudos também observaram que o ato de comer enquanto se assiste à TV está associado a uma maior ingestão de energia e a um índice de massa corporal (IMC) aumentado. Além disso, embora muitos desses produtos penetrem nos lares como café da manhã das crianças, o resto da família acaba adotando esses produtos altamente calóricos como parte de sua rotina nutricional.

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Campanhas publicitárias e sua relação com o café da manhã

Apesar da ascensão dos novos meios e plataformas de comunicação, a TV continua a ser a principal forma de informação nos lares espanhóis, atingindo a maior percentagem de audiência da população total. Ademais, também é o canal mais usado pelos anunciantes para comercializar alimentos e bebidas.

Sendo assim, as pesquisadoras Mireia Montaña Blasco e Mònika Jiménez-Morales objetivaram analisar as campanhas de alimentos para todos os tipos de mídia, no período entre 2015 e 2019, que recorreram à hora do desjejum, levando em consideração a qualidade nutricional desses produtos anunciados e as estratégias discursivas utilizadas nas propagandas. A análise se concentrou em três questões de pesquisa:

  1. Quais foram as campanhas de alimentos que apelaram para a hora do café da manhã?
  2. Qual era a qualidade nutricional desses produtos anunciados?
  3. Que tipo de discurso foi usado nessas campanhas?

Uma metodologia quantitativa foi usada para compilar os dados publicitários de 2015 a 2019 para todas as mídias. O valor nutricional foi calculado a partir do sistema Nutri-score, um sistema de avaliação da qualidade de alimentos industrializados que permite classificá-los em letras (A – E), cada uma com sua cor, do vermelho ao verde, como um semáforo. Cada produto recebe uma pontuação com base em um algoritmo científico. Esta fórmula leva em consideração os nutrientes a serem evitados (valor energético e o número de açúcares, gorduras saturadas e sal) e os positivos (quantidade de fibras, proteínas, frutas, vegetais e nozes, óleo de colza, óleo de noz e azeite).

Os resultados

Os resultados mostraram que:

  • Das 355 campanhas de alimentos para o café da manhã, entre 2015 e 2019, apenas 13,8% correspondiam a produtos com alto valor nutricional (A);
  • Um total de 9,0% dos alimentos tinha valor médio-alto (B) e 34,9% tinham valor nutricional médio (C);
  • O valor nutricional de 31,8% dos alimentos anunciados era baixo (D) e 10,4% era muito baixo (E);
  • Em relação aos anos, 10,53% dos produtos que apareceram nessas campanhas tinham rótulo verde nutricional elevado (A) em 2015, 3,75% em 2016, 12,0% em 2017, 22,37% em 2018 e 20,55% em 2019;
  • Em relação aos produtos com escore nutricional médio-alto com rótulo verde claro (B), os pesquisadores descreveram que 27,63% dos alimentos anunciados tinham esse valor em 2015, 5,00% em 2016, 0,00% em 2017, 1,32% em 2018 e 8,22% em 2019;
  • Produtos de baixo e muito baixo valor nutritivo (rótulos D e E) aumentaram sua pressão publicitária no período estudado. As campanhas de produtos das etiquetas D e E representaram 32,9% do total em 2015, 36,3% em 2016, 62,0% em 2017, 39,5% em 2018 e 47,9% em 2019. A média do período foi de 42,2%.

Observa-se, portanto, que a publicidade de produtos espanhóis para o café da manhã, de 2015 a 2019, é dominada por alimentos classificados como processados, com baixo ou muito baixo valor nutricional devido ao alto teor de açúcar, gordura ou sal. Nesse sentido, as pesquisadoras destacaram que esses tipos de produtos (rótulos D e E), aumentaram sua pressão publicitária no período estudado, ano após ano.

De fato, o café da manhã é uma refeição extremamente importante e, portanto, deve ser estimulado pelos pais. No entanto, alimentos ricos em gorduras e açúcar devem ser evitados. Isso porque seu consumo está associado a complicações, como diabetes, obesidade e níveis elevados de colesterol. Assistir à TV enquanto se come é um hábito muito nocivo, que deve ser retirado, gradualmente, do cotidiano de toda a família.

Autora:

Referência

  • Montaña Blasco, M.; Jiménez-Morales, M. Breakfast Food Advertising and Prevention of Obesity: Analysis of the Nutritional Value of the Products and Discursive Strategies Used in the Breakfast Ads from 2015 to 2019. Nutrients 2021,13, 231. https://doi.org/10.3390/nu13010231

 

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Publicado por
Roberta Esteves Vieira de Castro

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