Medicina Laboratorial

Hemograma: Discordâncias da análise automatizada e microscopia óptica convencional

Tempo de leitura: 3 min.

O hemograma é, certamente, um dos exames mais solicitados na prática médica do dia a dia, de interesse comum a praticamente todas as especialidades. Nas últimas décadas, devido ao grande avanço tecnológico experimentado na área diagnóstica, a sua análise por meio de aparelhos totalmente automatizados é realidade, já a algumas décadas, nos mais diversos tipos e níveis de complexidade de laboratórios clínicos. 

Essa intensa mecanização, através de aparelhos e metodologias modernas, proporcionou um enorme ganho em termos de escala, fidedignidade e reprodutibilidade dos resultados reportados. A maioria dos laboratórios faz uma análise crítica dos resultados dos contadores hematológicos, utilizando critérios pré determinados (sexo, idade, indicação clínica, alertas “flags” emitidos pelo aparelho, últimos exames, etc.) para se avaliar a necessidade da revisão microscópica das extensões sanguíneas em lâmina.

Entretanto, algumas alterações clinicamente relevantes podem não ser apropriadamente obtidas pelos analisadores hematológicos, podendo até mesmo “escapar” do sistema automático de alertas do aparelho. Dessa maneira, mesmo utilizando-se de uma análise bem criteriosa, alguns laudos podem não ser revisados à microscopia óptica, o que faz com haja a possibilidade de que algumas alterações significativas não sejam devidamente reportadas no laudo.

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Estudo sobre o hemograma 

Para se determinar a prevalência de alterações à hematoscopia, em comparação com o resultado do hemograma automatizado, foi realizado um estudo com 1.000 pacientes. Foi observada uma prevalência total de 57,3% (n = 572) de testes discordantes, sendo que em 43,7% (n = 220) destes, as discrepâncias encontradas foram na série eritrocitária (macrocitose, microcitose ou hipocromia). Os autores relatam que essa maior prevalência se deve, provavelmente, ao fato dos glóbulos vermelhos sofrerem influência tanto do estado patofisiológico quanto do estado adaptativo.

Os índices hematimétricos são calculados automaticamente pelo software do aparelho, reportando assim resultados médios. Dessa forma, em algumas situações patológicas, embora a média possa estar dentro dos valores de referência para aquele determinado parâmetro, na análise microscópica podem ser observadas alterações significativas.

Em 220 casos, a discordância foi encontrada na série leucocitária, onde linfócitos atípicos, células imaturas, hipersegmentação de neutrófilos ou granulações grosseiras deixaram de ser aferidas pelo aparelho. Essas alterações são vistas em importantes em vários estados patológicos, como no monitoramento de infecções, anemias e neoplasias. 

Já na série plaquetária, houve resultados divergentes ao se avaliar parâmetros como macroplaquetas e agregados plaquetários, observados em 102 casos. O achado de macroplaquetas, por exemplo, pode ser um indicativo de um estado de hipercoagulabilidade, ao promover a possibilidade da formação de trombos. 

Conclusão

A automatização revolucionou o setor laboratorial, gerando um grande e positivo impacto na redução do tempo de execução e confiabilidade dos exames laboratoriais, mitigando sensivelmente os erros da fase analítica. Apesar de todo o avanço tecnológico, uma simples hematoscopia em paralelo à análise automatizada do hemograma ainda é muito importante, dada a grande proporção de discrepância entre os resultados obtidos no estudo.

Leia também: Covid-19: vacinação e doação de sangue

Devido a grande importância que os exames laboratoriais possuem ao complementar o raciocínio clínico, é necessário que seus resultados sejam os mais precisos e fidedignos possíveis. Um laudo final com uma eventual omissão de uma alteração pode, em última análise, impactar na conduta médica, gerando graves prejuízos à saúde dos pacientes.

Autor: 

Referências bibliográficas: 

  • Santos FJ, Figueira DO, Souza JEO. Prevalência de alterações microscópicas discordantes com análise automatizada do hemograma. J. Bras. Patol. Med. Lab.2014;50(6):398-401. doi: 10.5935/1676-2444.20140047

 

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Publicado por
Pedro Serrão Morales

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