Infectologia

Hepatite A: diagnóstico, transmissão e prevenção

Tempo de leitura: 4 min.

Desde 2019, comemora-se no Brasil, o “Julho Amarelo”, uma forma de reforçar as ações de vigilância, prevenção e controle das hepatites virais no Brasil. Podendo ser aguda ou crônica, a infecção por um vírus de hepatite pode variar de assintomática a quadros de hepatite fulminante, dependendo de fatores como tipo de vírus, idade no momento da infecção e fatores do hospedeiro.

Para os casos sintomáticos, os sintomas são indistinguíveis entre os diferentes tipos de vírus. O pródromo com sintomas gripais são comuns, podendo incluir fadiga, mialgia, astenia, cefaleia, artralgia, anorexia, náuseas e vômitos, tosse, coriza, faringite e febre baixa. Esses sintomas constitucionais tendem a melhorar com o início da fase ictérica, que geralmente é acompanhada de colúria, aumento de transaminases e dor no quadrante superior direito.

Saiba mais: O combate à hepatite na Atenção Primária à Saúde

Mais informações sobre a hepatite A.

Dentre as hepatites virais, a infecção pelo vírus A (HAV) é a mais comum. Classicamente, é uma doença autolimitada, mas com curso variável. Em crianças, especialmente as menores de 5 anos, costuma ser assintomática, com a frequência de doença sintomática aumentando em crianças maiores e adultos. Estima-se que cerca de 2/3 dos indivíduos com infecção sintomática recuperam-se ao final de 2 meses, 85% recuperam-se em 3 meses e quase todos, em 6 meses. Diferente de outros vírus causadores de hepatite, o HAV não causa doença crônica e não tem potencial oncogênico.

A hepatite fulminante – definida como insuficiência hepática que se desenvolve em até 8 semanas após o início dos sintomas – é uma complicação rara da hepatite A, mais comum em adultos. Além de elevação marcada das transaminases, pode cursar com encefalopatia, ascite e edemas periférico e cerebral. É uma condição de alta mortalidade, podendo exigir transplante hepático como tratamento.

A forma de transmissão mais comum é por via fecal-oral, por meio de água e alimentos contaminados. Por esse motivo, surtos de fonte comum são frequentes, com vários casos ocorrendo em um curto espaço de tempo e que podem ser associadas a uma mesma fonte. Mais recentemente, casos de transmissão por contato íntimo vem aumentando, principalmente em homens que fazem sexo com homens. Diversos surtos nessa população já foram descritos em países como Itália, EUA, Japão e Inglaterra.

Vacinação contra a hepatite A

No Brasil, um estudo epidemiológico mostrou que, após a incorporação da vacina contra hepatite A no Programa Nacional de Imunização infantil em 2014, os casos de hepatite A tiveram uma queda de 92,6% em indivíduos menores de 20 anos. Entretanto, a partir de 2017 observou-se um aumento de casos entre indivíduos adultos, com números expressivos em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, configurando surtos que interromperam a tendência de queda. Como visto em outros países, homens que fazem sexo com homens foram uma das populações mais afetadas.

A vacinação é a principal forma de prevenção da hepatite A. Atualmente, é disponibilizada no Sistema Único de Saúde para crianças acima de 12 meses e menores de 5 anos, fazendo parte do Programa Nacional de Imunização. Trata-se de uma vacina inativada, com esquema de duas doses com 6 meses de intervalo. Por sua alta taxa de soroconversão na primeira dose, o calendário nacional de vacinação infantil recomenda vacinação com dose única aos 15 meses de idade.

Indivíduos com mais de 5 anos podem receber a vacina contra hepatite A pelo SUS nos Centros de Referência de Imunobiológicos Especiais (CRIEs) se possuírem alguma das seguintes condições:

  • Hepatopatias crônicas de qualquer etiologia, incluindo HCV e HBV;
  • Coagulopatias;
  • Pacientes com HIV/AIDS;
  • Imunodepressão terapêutica ou por doença;
  • Doenças de depósito;
  • Fibrose cística;
  • Trissomias;
  • Candidatos a transplante de órgão sólido, cadastrados em programas de transplantes;
  • Transplantados de órgão sólido ou de células tronco hematopoiéticas (TMO);
  • Doadores de órgão sólido ou de células-tronco hematopoiéticas (medula óssea), cadastrados em programas de transplantes;
  • Hemoglobinopatias.

Vale lembrar que, como a hepatite A é frequentemente assintomática em crianças, indivíduos adultos devem ter seu status sorológico avaliado antes de recomendar a vacinação. Para esse fim, a dosagem de anticorpos anti-HAV IgG é suficiente, diferente da situação de suspeita de infecção aguda ativa, em que anticorpos IgM são os principais para o diagnóstico. Indivíduos com anti-HAV IgG positivos são considerados imunes e não têm indicação de vacinação.

A vacina também pode ser usada como profilaxia pós-exposição, devendo, com esse objetivo, ser administrada o mais precocemente possível após a exposição e em até 2 semanas. Preparações de imunoglobulina também são uma opção como profilaxia pós-exposição, sendo preferida em menores de 12 meses, imunocomprometidos e hepatopatas crônicos. Identificar a exposição em tempo oportuno, entretanto, pode ser desafiador, o que torna essa estratégia de difícil aplicação na prática.

Leia também: Hepatite B – As abordagens utilizando os guidelines europeu, americano e PCDT

Por suas vias de transmissão, medidas de saneamento básico, preparação e conservação adequadas de água e alimentos, higienização das mãos e uso de preservativos nas relações sexuais são outras formas de prevenção da doença.

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Publicado por
Isabel Cristina Melo Mendes
Tags: hepatite A

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