Pediatria

Hipertensão em adolescentes com doença renal crônica: usar definição de adultos ou de crianças?

Tempo de leitura: 2 min.

Em 2017, a Academia Americana de Pediatria (AAP) publicou uma diretriz que traz mudanças de classificação e novas tabelas normativas de pressão arterial (PA) para crianças e adolescentes de 1 a 17 anos. Entretanto, ela indica que, caso o paciente esteja na puberdade (a partir de 13 anos de idade), os níveis de PA de adultos já podem ser adotados. Essa recomendação simplifica o diagnóstico de hipertensão em adolescentes e facilita a transição de cuidados.

Todavia, uma vez que as diretrizes de adultos usam limites fixos para as definições de hipertensão que não dependem da idade, sexo e estatura, como acontece em Pediatria, há diferenças nos valores de normalidade de PA entre as diferentes faixas etárias, o que desafia tanto o diagnóstico quanto o manejo da hipertensão durante a transição da adolescência para a idade adulta.

Quando falamos em adolescentes com doença renal crônica (DRC), essa questão é ainda mais importante, dada a alta prevalência de hipertensão arterial nessa população e o impacto da hipertensão na progressão da DRC.

Baseado nisso, foi realizado um estudo para determinar as diferenças na capacidade de definição de hipertensão pediátrica e nos adultos em evidenciar o risco de hipertrofia de ventrículo esquerdo (HVE) e falência renal, desfechos importantes em adolescentes com DRC.

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Método do estudo e população envolvida

Foi conduzida uma análise retrospectiva do “Estudo de Coorte de Doença Renal Crônica em Crianças” (CKiD), realizado com pacientes de 1 a 16 anos de idade com taxa de filtração glomerular estimada (TFGe) entre 30 e 90mL/min/1,73m² e cujo objetivo foi determinar fatores de risco para progressão da DRC e desfechos cardiovasculares. Para essa análise, foram incluídos pacientes que tivessem ecocardiograma, medida da pressão arterial ambulatorial (MAPA) ou clínica em qualquer visita em que tivessem, pelo menos, 13 anos de idade.

Dos 891 participantes do estudo, 363 adolescentes preencheram os critérios de inclusão. A mediana de idade foi de 15,5 anos, 15,2% eram negros e o tempo médio de acompanhamento foi de 2,8 anos.

Para a definição de hipertensão arterial, o estudo focou na pressão arterial sistólica (PAS), uma vez que a pressão arterial diastólica (PAD) pouco muda com a altura e a idade em adolescentes. Além disso, outros estudos anteriores já haviam mostrado maior importância diagnóstica da PAS com associação a HVE e falência renal em crianças com DRC.

Resultados principais

Em relação aos desfechos de interesse, 12% da coorte apresentou HVE e 24% desenvolveram insuficiência renal no tempo médio de seguimento.

Todas as definições de hipertensão foram associadas de forma estatisticamente significante à HVE, exceto para a definição ambulatorial de hipertensão em adultos. No geral, não houve uma diferença substancial nas definições de hipertensão pediátrica versus adulta na previsão de resultados renais, mas houve discriminação ligeiramente melhor do risco de HVE com a definição pediátrica ambulatorial de hipertensão.

Leia também: Qual o anti-hipertensivo ideal para pacientes com doença renal crônica avançada?

Mensagem prática

Na transição para os cuidados preconizados para adultos, a abordagem ideal dos adolescentes com DRC com relação ao diagnóstico de hipertensão ainda não está clara. Aguardamos novos estudos para confirmação adicional, além de ensaios que testem alvos alternativos de PA em adultos jovens com DRC para um melhor cuidado clínico dessa população.

Autora:

Referências bibliográficas:

  • Black E, Lee J, Flynn JT, McCulloch CE, Samuels JA, Seth D, Warady B, Furth S, Mitsnefes M, Ku E. Discordances between pediatric and adult thresholds in the diagnosis of hypertension in adolescents with CKD [published online ahead of print, 2021 June 25]. Pediatr Nephrol. 2021;10.1007/s00467-021-05166. doi:10.1007/s00467-021-05166-w
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Publicado por
Raniely Bullerjhan Schmidt

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