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Hipoglicemia no hospital: faz sentido tratar com glicose endovenosa todos os pacientes?

Tempo de leitura: 4 minutos.

A administração endovenosa de fluidos e de medicações é prática frequente em pacientes internados, mais comumente realizada através de acesso venoso periférico. Muitas medicações de uso endovenoso não têm alternativa para a administração, tais como as drogas vasopressoras e os quimioterápicos.  Devemos refletir bastante sobre a administração de medicações e soluções endovenosas em nossos pacientes hospitalizados, especialmente naqueles que dependem de acesso venoso para os seus tratamentos. Cada vez que agredimos uma veia, talvez uma veia a menos seja disponível para o uso.

A ocorrência de episódios de hipoglicemia no hospital é relativamente frequente, especialmente em pacientes com diabetes mellitus. A hipoglicemia é definida como qualquer glicemia abaixo de 70 mg/dL. Hipoglicemia grave é definida como glicemia abaixo de 40 mg/dL.

Vários estudos mostram que tanto a hiperglicemia quanto a hipoglicemia em pacientes hospitalizados estão associados a maior morbimortalidade hospitalar.

Devemos saber prevenir e reconhecer precocemente a hipoglicemia. O uso de muitas medicações antidiabéticas orais não é recomendado para uso hospitalar. Algumas delas têm grande potencial de levar a hipoglicemia.

Dentre os fatores de risco para hipoglicemia hospitalar, estão incluídos: a caquexia, a baixa ingestão nutricional, a gravidade das doenças de base, a idade avançada, insuficiência renal, insuficiência hepática, infecções e o esquema de insulinoterapia hospitalar.

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É recomendado que houvesse um protocolo institucional de hipoglicemia nos hospitais.

Embora a solução hipertônica de glicose (soro glicosado a 25% ou a 50%) seja muito utilizada por muitos médicos na correção da hipoglicemia hospitalar, este não é o tratamento preconizado pelos consensos e diretrizes. A administração endovenosa de solução hipertônica de glicose não é isenta de riscos. A infusão de glicose endovenosa pode causar tromboses, flebites e efeitos neurotóxicos pela hiperglicemia. O extravasamento da solução de glicose hipertônica também pode ocorrer, levando a lesões em pele e/ou de partes moles, flebites, perda de membros e até há relatos de morte.

O InsulinAPP é um aplicativo brasileiro que foi desenvolvido por médicos endocrinologistas do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP que auxilia no controle glicêmico hospitalar. Para o tratamento da hipoglicemia, ele se baseia nas recomendações de consensos de controle glicêmico hospitalar.

O  aplicativo  está  disponível  gratuitamente  para  smartphones  com  sistemas  iOS  (iPhone, iPad) e Android, além da versão web para desktops. Para acesso ao Facebook, clique aqui.

RECOMENDAÇÕES DO APLICATIVO INSULINAPP PARA O TRATAMENTO DA HIPOGLICEMIA HOSPITALAR:

1) Se paciente estiver CONSCIENTE e ALIMENTANDO-SE (ORAL ou SNE ou gastrostomia):

Conduta: G50% 30 mL em água filtrada ou uma colher de sopa de açúcar (ou equivalente a 15 g de carboidrato de rápida absorção) em água filtrada por boca (ou SNE ou gastrostomia). Repetir glicemia capilar após 15 min. Repetir o processo se mantiver hipoglicemia.

2) Se paciente estiver INCONSCIENTE e COM ACESSO VENOSO PRÉVIO:

Conduta: Realizar G50% 40 mL por via endovenosa. Repetir glicemia capilar após 5 min e checar nível de consciência. Ao acordar, oferecer alimento (se possível). Se não recobrar o nível de consciência, repetir o processo.

3) Se paciente estiver INCONSCIENTE e SEM ACESSO VENOSO PRÉVIO:

Conduta: Glucagon 1 ampola por via intramuscular ou subcutânea. Repetir glicemia capilar após 15 minutos e checar nível de consciência. Ao acordar, oferecer alimento (se possível). Se não recobrar o nível de consciência, continuar tentativa de acesso venoso periférico para realização de G50%.

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Sugere-se reservar o uso de solução hipertônica de glicose para pacientes em hipoglicemia e que estejam inconscientes e com acesso venoso pérvio. A maioria dos pacientes com hipoglicemia está consciente e a correção com glicose por via oral é mais sensata. É fundamental que o protocolo de hipoglicemia hospitalar envolva uma equipe multiprofissional (médicos, enfermeiros, nutricionistas, farmacêuticos). Cabe à equipe de Nutrição a padronização do equivalente a 15 g de carboidrato de rápida absorção a ser oferecido ao paciente em hipoglicemia e com nível de consciência preservado.

Como conclusão, é nosso papel tratar adequadamente a hipoglicemia hospitalar, evitando-se o mau uso do acesso venoso. Devemos lembrar que nossas veias são bastante valiosas e que a falta delas pode atrapalhar a administração de medicações, especialmente as de via exclusivamente endovenosas.

Autor:

Referências:

  • Toyoshima MT, de Souza AB, Admoni SN, Cukier P, Lottenberg SA, Latronico AC, Nery M. New digital tool to facilitate subcutaneous insulin therapy orders: an inpatient insulin dose calculator. Diabetol Metab Syndr. 2015 Dec 21;7:114.
  • Umpierrez GE, Hellman R, Korytkowski MT, Kosiborod M, Maynard GA, Montori VM, Seley JJ, Van den Berghe G; Endocrine Society. Management of hyperglycemia in hospitalized patients in non-critical care setting: an endocrine society clinical practice guideline. J Clin Endocrinol Metab. 2012;97(1):16-38.
  • Farrokhi F, Klindukhova O, Chandra P, Peng L, Smiley D, Newton C, Pasquel F, Fereira ME, Umpierrez G. Risk factors for inpatient hypoglycemia during subcutaneous insulin therapy in non-critically ill patients with type 2 diabetes. J Diabetes Sci Technol. 2012;6(5):1022-9.
  • Joint British Diabetes Societies – Inpatient Care Group (JBDS-IP). The Hospital Management of
    Hypoglycaemia in Adults with Diabetes mellitus (revisado em setembro/ 2013). Disponível em:
    https://www.diabetes.org.uk/Documents/About%20Us/Our%20views/Care%20recs/JBDS%20hypoglycaemia%20position%20(2013).pdf
  • Kiefer MV, Gene Hern H, Alter HJ, Barger JB. Dextrose 10% in the treatment of out-of-hospital hypoglycemia. Prehosp Disaster Med. 2014;29(2):190-4.
  • Lawson SL, Brady W, Mahmoud A. Identification of highly concentrated dextrose solution (50% dextrose) extravasation and treatment–a clinical report. Am J Emerg Med. 2013 May;31(5):886.e3-5.

Um comentário

  1. Janete da Siva Rabello Cardoso

    Super interessante as informações veiculadas nesta página, obgda.

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