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Ibalizumab no tratamento para HIV-1 multirresistente

Tempo de leitura: 4 minutos.

O tratamento do HIV deu mais um passo. No início do mês março, o FDA aprovou uma nova medicação com ação distinta das demais classes presentes no mercado: o Trogarzo ou ibalizumab-uyik, um fármaco desenvolvido para o tratamento de HIV multirresistente ou MDR-HIV. Sendo um anticorpo monoclonal humano IgG4 anti-CD4, esta molécula apresenta alta seletividade e especificidade ligando-se aos receptores de linfócitos T CD4. Essa ligação gera alterações conformacionais em moléculas de superfície viral e dos linfócitos T helper.

O ibalizumab é um inibidor de entrada, porém difere-se de outros medicamentos, como o maraviroc, antagonista específico do receptor CCR5, ao realizar mudanças conformacionais tanto no complexo gp 120 quanto no próprio receptor de linfócitos T CD4, ampliando, assim, o espectro de ação desta droga aumentando a barreira genética e impedindo os processos de fusão e entrada do vírion na célula hospedeira.

Por sua ligação ser no domínio 2 (D2) dos sítios de ligação do receptor de CD4, ele não impede a ligação do vírus à célula hospedeira, realizada pelo domínio 1 (D1), mas as alterações  na molécula do complexo gp 120 do receptor de CD4 impedem a exposição de outros receptores essenciais para a fusão do vírion na célula hospedeira, como o CCR5 e o CXCR4. Em especial, esse tipo de ligação não interfere no funcionamento normal da célula T, o desenvolvimento de imunidade adaptativa frente a outras infecções mediadas pelo complexo de histocompatibilidade (MHC-2).

Com baixos efeitos colaterais e ação sinérgica com outros antirretrovirais (ARV), o ibalizumab demonstrou segurança terapêutica e eficácia em um ensaio clínico com 40 infectadas com MDR-HIV e que já haviam realizado diversos tratamento com falha em supressão virológica. Por apresentar uma meia vida longa, a terapia deve ser realizada a cada 14 dias por via endovenosa, visto que a molécula apresenta baixa absorção gastrintestinal, associada a outros antirretrovirais.

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E o Brasil, como fica?

Apesar de promissora, essa terapia não tem previsões de ser incluída no esquema terapêutico brasileiro. De acordo com o ministério da saúde, o tratamento antirretroviral (TARV) inicial deve ser constituído de três classes diferentes de ARV, sendo duas delas um ITRN e um ITRNt, associado a um ITRNN, IP ou INI. Como protocolo terapêutico, recomenda-se iniciar a TARV com TDF/3TC + DTG exceto se contraindicações, como em funções renais prejudicadas, onde o TDF pode ser substituído pelo ABC.

Pacientes co-infectado com o VHB se beneficiem deste primeiro esquema terapêutico. Entretanto, pacientes co-infectados com mycobacterium tuberculosis (HIV-TB) devem receber um esquema sem DTG. Aos pacientes virgens de tratamento e com boa contagem de CD4, o esquema proposto é TDF/3TC + EFZ em uma dose única diária. Caso haja intolerância ou resistência ao EFZ ou então, em pacientes com critérios de gravidade, como CD 4 < 100 céls/mm3, infecções oportunistas, internação hospitalar ou TB disseminada, demanda-se o esquema TDF/3TC + RAL, este último em duas doses diárias. Após o término do tratamento, deve-se realizar a troca do RAL pelo DTG em até 3 meses.

O que aprendemos com essa matéria?

  • O tratamento para o HIV vem apresentando novidades terapêuticas promissoras, objetivando maior conforto posológico, maior barreira genética e eficácia em supressão viral.
  • O Brasil é um centro importante na terapêutica contra HIV/AIDS e seu esquema terapêutico inicial com um INI demonstra isso. O DTG apresenta menor barreira genética e, por conseguinte, menor desenvolvimento de resistência e de falha terapêutica.
  • Pacientes co-infectado com TB merecem uma atenção especial, devendo receber um esquema diferenciado dos demais, com atenção à escolha do esquema terapêutico durante e inclusive após o término do tratamento para tuberculose.

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Legendas:

• HIV: Human immunodeficiency virus
• FDA: U.S Food & Drugs administration
• MDR: Multidrug Resistant
• ARV: Antirretroviral
• TARV: Tratamento Antirretroviral
• TB: Tuberculose
• ITRN: Inibidor da transcriptase reversa análogo de nucleosídeo
• ITRNt:  Inibidor da transcriptase reversa análogo de nucleotídeo
• ITRNN:  Inibidor da transcriptase reversa não análogo de nucleosídeo
• IP: Inibidor da Protease
• INI: Inibidor da Integrase
• PVHIV: Pessoa vivendo com HIV
• VHB: vírus da hepatite B
• TDF: Tenofovir
• 3TC: Lamivudina
• EFZ: Efavirez
• ABC: Abacavir
• DTG: Dolutegravir
• RAL: Raltegravir

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Referências:

Um comentário

  1. Belo artigo. Há muito o ibalizumab estava sob fases de teste e parecia até que nunca seria aprovado.

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