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medico segurando uma prancheta durante o atendimento com paciente

Incontinência fecal: o que você precisa saber

Tempo de leitura: 3 minutos.

Há cerca de um mês vi um comercial na televisão sobre calcinhas absorventes descartáveis para pacientes incontinentes. Uma mulher jovem que relatava que não conseguia brincar com a filha por conta da incontinência. A minha pergunta foi: uma mulher jovem, bonita, com uma filha pequena, com incontinência… será que ela vive feliz? E quando essa mulher ficar mais velha? A calcinha será suficiente?

A incontinência fecal é um problema considerável na população. A incidência varia entre os estudos, de 1,4% a 18% da população americana. Em pacientes institucionalizados, a incidência sobe e chega a 50%. Esses números provavelmente são maiores, porque muitos pacientes, mesmo em consulta com um especialista, não relatam o problema, seja por vergonha ou por considerar que isso “é coisa de velho”. Em cerca de 5% dos pacientes está associada a incontinência urinária.

A maior parte dos acometidos são mulheres. Isso se deve ao fato da pelve feminina ter uma conformação diferente da pelve do homem (a musculatura apresenta três aberturas  – uretra, vagina e ânus), seja pelo canal anal funcional (porção mais hipertônica do canal anal) ser mais curto, seja por traumas (cirurgias anorretais ou parto vaginal – o mais comum). Não há idade para tais lesões se tornarem sintomáticas, isso depende da gravidade da lesão. É mais comum que ocorram no pós menopausa, quando a musculatura reduz sua tonicidade, pela redução dos hormônios femininos.

Mais da autora: ‘Sangramento anal – o que é e como diagnosticar corretamente’

Os sinais e sintomas são os mais variados: desde dificuldades para reter fezes na urgência ou em caso de diarreia, quanto apresentar perdas insensíveis. Mensuramos o quanto provoca alteração na qualidade de vida através do escore de Jorge – Werner (Dr. Jorge é brasileiro, da USP). O escore avalia a necessidade de protetores diários, qual o tipo de fezes ou gases há a perda, frequência da perda e alteração dos hábitos por conta da perda de fezes (alterações das atividades diárias). Esse escore é utilizado no mundo todo para uma avaliação inicial.

O diagnóstico é feito durante o exame físico do paciente, avaliando a tonicidade e forca de contração, em um exame de toque retal. Exames complementares devem ser solicitados: colonoscopia (avaliação de algum outro problema), manometria anorretal (avalia a força de contração dos músculos esfincterianos), ultrassom endoanal 2D ou 3D (avalia falhas na musculatura), defecografia ou defecorressonância (avaliam a dinâmica da evacuação em tempo real). Os principais diagnósticos diferenciais são com soiling ou mucorreia. O soiling em geral é associado a um fecaloma e a mucorreia pode ser proveniente de proctite ou mesmo de um adenoma.

O tratamento começa no acolhimento adequado desse paciente. Muitos só procuram ajuda quando o problema já causa sofrimento psíquico. Não deixe esse paciente sofrer mais. Inicialmente deve ser feita uma anamnese com os hábitos alimentares e evacuatórios, podendo ser corrigidos erros e trazendo conforto maior, associando com antidiarreicos. Dependendo da causa, essa terapia apresenta sucesso transitório. Caso haja lesões esfincterianas, pode ser avaliada a fisioterapia pélvica, chamada biofeedback, pela estimulação de nervo tibial posterior. As terapias mais invasivas são a esfincteroplastia e, mais recentemente, o implante do neuromodulador sacral. Este último, liberado pela Anvisa há cerca de 5 anos, apresenta uma taxa de sucesso alta.

Então não considere isso como “coisa de velho”. Busque ativamente pelo problema e encaminhe o paciente o quanto antes ao especialista. O problema é real e reduz consideravelmente a qualidade de vida do paciente, sejam os mais novos ou os mais velhos.

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Referências:

  • Fisiologia anorretal – Lucia Camara Castro Oliveira, 2 edição
  • Disturbios do assoalho pelvico – abordagem Multiprofissional e multiespecialidades – 1 edição
  • Effects of hysterectomy on pelvic floor disorders: a longitudinal study – Dis Colon rectum 2017; 60; 303-310
  • Perspectives from patients and care providers on the management of fecal incontinence: a needs assessment – Dis colon rectum 2017; 60; 408-415
  • The american society of colon and rectal surgeons’ clinical practice guideline of the treatment of fecal incontinence – dis colon rectum 2015; 58; 623-636

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